Crepusculo do mar Lira dos Vinte Anos · Capítulo 16 de 85
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Crepusculo do mar

Crepusculo do mar

Que rêves-tu plus beau sur ces lointaines plages

Que cette chaste mer qui baigne nos rivages?

Que ces mornes couverts de bois silencieux,

Autels d'où nos parfurns s'élèvent dans les cieux?

LAMARTINE

No céo brilhante do poente em fogo

Com aureola ardente o sol dormia:

Do mar doirado nas vermelhas ondas

Purpureo se escondia.

Como da noite o bafo sobre as agoas

Que o reflexo da tarde incendiava,

Só a idéa de Deus e do infinito

No oceano boiava!

Como é doce viver nas longas praias

Nestas ondas e sol e ventania!

Como ao triste cismar encanto aéreo

Nas sombras preludia!

O painel luminoso do horizonte

Como as cândidas sombras alumia

Dos fantasmas de amor que nós amamos

Na ventura de um dia!

Como voltam gemendo e nebulosas,

Brancas as roupas, desmaiado o seio,

Inda uma vez a murmurar nos sonhos

As palavras do enleio!...

Aqui nas praias, onde o mar rebenta

E a escuma no morrer os seios rola,

Virei sentar-me no silêncio puro

Que o meu peito consola!

Sonharei... lá enquanto, no crepúsculo,

Como um globo de fogo o sol se abisma

E o céu lampeja no clarão medonho

De negro cataclisma...

Enquanto a ventania se levanta

E no ocidente o arrebol se ateia

No cinábrio do empíreo derramando

A nuvem que roxeia...

Hora solene das idéias santas

Que embala o sonhador nas fantasias,

Quando a taça do amor embebe os lábios

Do anjo das utopias!

Oceano de Deus! Que moribundo,

A cantiga do nauta mais sentida

Tão triste suspirou nas tuas ondas,

Como um adeus à vida?

Que nau cheia de glória e d'esperanças,

Floreando ao vento a rúbida bandeira,

Na luz do incêndio rebentou bramindo

Na vaga sobranceira?

Por que ao sol da manhã e ao ar da noite

Essa triste canção, eterna, escura,

Como um treno de sombra e de agonia,

Nos teus lábios murmura?

É vermelho de sangue o céu da noite,

Que na luz do crepúsculo se banha:

Que planeta do céu do roto seio

Golfeja luz tamanha?

Que mundo em fogo foi bater correndo

Ao peito de outro mundo; -- e uma torrente

De medonho clarão rasgou no éter

E jorra sangue ardente?

Onde as nuvens do céu voam dormindo,

Que doirada mansão de aves divinas

Num véu purpúreo se enlutou rolando

Ao vento das ruínas?

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