12 de setembro Lira dos Vinte Anos · Capítulo 76 de 85
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12 de setembro

12 de setembro

I

O sol oriental brilha nas nuvens,

Mais docemente a viração murmura

E mais doce no vale a primavera

Saudosa e juvenil é toda em rosa...

Como os ramos sem folhas

Do pessegueiro em flor.

Ergue-te, minha noiva, ó natureza!

Somos sós -- eu e tu: -- acorda e canta

No dia de meus anos!

II

Debalde nos meus sonhos de ventura

Tento alentar minha esperança morta

E volto-me ao porvir...

A minha alma só canta a sepultura

E nem última ilusão beija e conforta

Meu ardente dormir...

III

Tenho febre... meu cérebro transborda.

Eu morrerei mancebo, inda sonhando

Da esperança o fulgor...

Oh! cantemos ainda: a última corda

Treme na lira... morrerei cantando

O meu único amor!

IV

Meu amor foi o sol que madrugava

O canto matinal da cotovia

E a rosa predileta...

Fui um louco, meu Deus, quando tentava

Descorado e febril nodoar na orgia

Os sonhos de poeta...

V

Meu amor foi a verde laranjeira

Que ao luar orvalhoso entreabre as flores,

Melhor que ao meio-dia,

As campinas, a lua forasteira,

Que triste, como eu sou, sonhando amores

Se embebe de harmonia.

VI

Meu amor!... foi a mãe que me alentava,

Que viveu e esperou por minha vida

E pranteia por mim...

E a sombra solitária que eu sonhava

Lânguida como vibração perdida

De roto bandolim...

VII

Eu vaguei pela vida sem conforto,

Esperei o meu anjo noite e dia

E o ideal não veio...

Farto de vida, breve serei morto...

Não poderei ao menos na agonia

Descansar-lhe no seio...

VIII

Passei como Don Juan entre as donzelas,

Suspirei as canções mais doloridas

E ninguém me escutou...!

Oh! nunca à virgem flor das faces belas

Sorvi o mel nas longas despedidas...

Meu Deus! ninguém me amou!

IX

Vivi na solidão!... odeio o mundo

E no orgulho embucei meu rosto pálido

Como um astro na treva...

Senti a vida um lupanar imundo:

Se acorda o triste profanado, esquálido

-- A morte fria o leva...

X

E quantos vivos não caíram frios,

Manchados de embriaguez da orgia em meio

Nas infâmias do vício!

E quantos morreram inda sombrios,

Sem remorsos dos loucos devaneios...

-- Sentindo o precipício!...

XI

Perdoa-lhes, meu Deus! o sol da vida

Nas artérias ateia o sangue em lava

E o cérebro varia...

O século na vaga enfurecida

Levou a geração que se acordava

E nuta de agonia...

XII

São tristes deste século os destinos!

Seiva mortal as flores que despontam

Infecta em seu abrir...

E o cadafalso e a voz dos Girondino

Não falam mais na glória e não apontam

A aurora do porvir!

XIII

Fora belo talvez, em pé, de novo,

Como Byron surgir, ou na tormenta

O herói de Waterloo...

Com sua idéia iluminar um povo,

Como o trovão nas nuvens que rebenta

E o raio derramou!

XIV

Fora belo

talvez sentir no crânio

A alma de Goethe e reunir na fibra,

Byron, Homero e Dante;

Sonhar-se num delírio momentâneo

A alma da criação e o som que vibra

A terra palpitante...

XV

Mas ah! o viajor nos cemitérios

Nessas nuas caveiras não escuta

Vossas almas errantes,

Do estandarte da sombra nos impérios

A morte -- como a torpe prostituta -

Não distingue os amantes.

XVI

Eu pobre sonhador... em terra inculta,

Onde não fecundou-se uma semente,

Convosco dormirei...

E dentre nós a multidão estulta

Não vos distinguirá a fronte ardente

Do crânio que animei...

XVII

Ó morte! a que mistério me destinas?

Esse átomo de luz que inda me alenta,

Quando o corpo morrer,

Voltará amanhã... aziagas sinas!...

Da terra sobre a face macilenta

Esperar e sofrer?

XVIII

Meu Deus, antes, meu Deus, que uma outra vida

Com teu sopro eternal meu ser esmaga

E minh'alma aniquila...

A estrela de verão no céu perdida

Também, às vezes, teu alento apaga

Numa noite tranqüila!...

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