Virgem morta Lira dos Vinte Anos · Capítulo 31 de 85
Obra Menu

Virgem morta

Virgem morta

Oh! make her a grave where the sun-beams rest,

When they promise a glorious morrow!

They'll shine o'er sleep, like a smile from the West,

From her own lov'd island of sorrow.

TH. MOORE

Lá bem na extrema da floresta virgem,

Onde na praia em flor o mar suspira...

Lá onde geme a brisa do crepúsculo

E mais poesia o arrebol transpira...

Nas horas em que a tarde moribunda

As nuvens roxas desmaiando corta,

No leito mole da molhada areia

Deitem o corpo da beleza morta.

Irmã chorosa a suspirar desfolhe

No seu dormir da laranjeira as flores,

Vistam-na de cetim, e o véu de noiva

Lhe desdobrem da face nos palores.

Vagueie em torno, de saudosas virgens

Errando à noite, a lamentosa turma...

E, entre cânticos de amor e de saudade,

Junto às ondas do mar a virgem durma.

Às brisas da saudade soluçantes

Aí, em tarde misteriosa e bela,

Entregarei as cordas do alaúde

E irei meus sonhos prantear por ela!

Quero eu mesmo de rosa o leito encher-lhe

E de amorosos prantos perfumá-la...

E a essência dos cânticos divinos

No túmulo da virgem derramá-la.

Que importa que ela durma descorada

E velasse o palor a cor do pejo?

Quero a delícia que o amor sonhava

Nos lábios dela pressentir num beijo.

Desbotada coroa do poeta!

Foi ela mesma quem prendeu-te flores!

Ungiu-as no sacrário de seu peito

Inda virgem do alento dos amores!...

Na minha fronte riu de ti, passando,

Dos sepulcros o vento peregrino...

Irei eu mesmo desfolhar-te agora

Da fronte dela no palor divino!...

E contudo eu sonhava! e pressuroso

Da esperança o licor sorvi sedento!

Ai! que tudo passou!... só resta agora

O sorriso de um anjo macilento!

Ó minha amante, minha doce virgem,

Eu não te profanei, tu dormes pura:

No sono do mistério, qual na vida,

Podes sonhar ainda na ventura.

Bem cedo, ao menos, eu serei contigo

-- Na dor do coração a morte leio...

Poderei amanhã, talvez, meus lábios

Da irmã dos anjos encostar no seio...

E tu, vida que amei! pelos teus vales

Com ela sonharei eternamente...

Nas noites junto ao mar e no silêncio,

Que das notas enchi da lira ardente!...

Dorme ali minha paz, minha esperança,

Minha sina de amor morreu com ela,

E o gênio do poeta, lira eólia

Que tremia ao alento da donzela!

Qu'esperanças, meu Deus! E o mundo agora

Se inunda em tanto sol no céu da tarde!

Acorda, coração!... Mas no meu peito

Lábio de morte murmurou: -- É tarde!

É tarde! e quando o peito estremecia

Sentir-me abandonado e moribundo!?...

É tarde! é tarde! ó ilusões da vida,

Morreu com ela da esperança o mundo!...

No leito virginal de minha noiva

Quero, nas sombras do verão da vida,

Prantear os meus únicos amores,

Das minhas noites a visão perdida...

Quero ali, ao luar, sentir passando

Por alta noite a viração marinha,

E ouvir, bem junto às flores do sepulcro,

Os sonhos de su'alma inocentinha.

E quando a mágoa devorar meu peito...

E quando eu morra de esperar por ela...

Deixai que eu durma ali e que descanse,

Na morte ao menos, sobre o seio dela!

1/1
Menu

Fazer anotação