Lelia Lira dos Vinte Anos · Capítulo 74 de 85
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Lelia

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Passou talvez ao alvejar da lua,

Como incerta visão na praia fria...

Mas o vento do mar não escutou-lhe

Uma voz a seu Deus!...ela não cria!

Uma noite, aos murmúrios do piano

Pálida misturou um canto aéreo...

Parecia de amor tremer-lhe a vida

Revelando nos lábios um mistério!

Porém, quando expirou a voz nos lábios,

Ergueu sem pranto a fronte descorada,

Pousou a fria mão no seio imóvel,

Sentou-se no divã... sempre gelada!

Passou talvez do cemitério à sombra

Mas nunca numa cruz deixou seu ramo,

Ninguém se lembra de lhe ter ouvido

Numa febre de amor dizer: "eu amo!"

Não chora por ninguém... e quando, à noite,

Lhe beija o sono as pálpebras sombrias

Não procura seu anjo à cabeceira

E não tem orações, mas ironias!

Nunca na terra uma alma de poeta,

Chorosa, palpitante e gemebunda

Achou nessa mulher um hino d'alma

E uma flor para a fronte moribunda.

Lira sem cordas não vibrou d'enlevo,

As notas puras da paixão ignora,

Não teve nunca n'alma adormecida

O fogo que inebria e que devora!

Descrê. Derrama fel em cada riso,

Alma estéril não sonha uma utopia...

Anjo maldito salpicou veneno

Nos lábios que tressuam de ironia.

É formosa contudo. Há dessa imagem

No silêncio da estátua alabastrina

Como um anjo perdido que ressumbra

Nos olhos negros da mulher divina.

Há nesse ardente olhar que gela e vibra,

Na voz que faz tremer e que apaixona

O gênio de Satã que transverbera,

E o langor pensativo da Madona!

É formosa, meu Deus! Desde que a vi

Na minh'alma suspira a sombra dela...

E sinto que podia nesta vida

Num seu lânguido olhar morrer por ela.

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