III. Vagabundo Lira dos Vinte Anos · Capítulo 41 de 85
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III. Vagabundo

III. Vagabundo

Eat, drink, and love; what can the rest avail us?

BYRON , DON JUAN.

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,

Fumando meu cigarro vaporoso,

Nas noites de verão namoro estrelas,

Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;

Mas tenho na viola uma riqueza:

Canto à lua de noite serenatas...

E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva

Nas cavernas do peito, sufocante,

Quando, à noite, na treva em mim se entornam

Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores,

Sou garboso e rapaz... Uma criada

Abrasada de amor por um soneto,

Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismando

Na donzela que ali defronte mora...

Ela ao ver-me sorri tão docemente!

Desconfio que a moça me namora...

Tenho por meu palácio as longas ruas,

Passeio a gosto e durmo sem temores...

Quando bebo, sou rei como um poeta,

E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,

Minha pátria é o vento que respiro,

Minha mãe é a lua macilenta

E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,

De painéis a carvão adorno a rua...

Como as aves do céu e as flores puras

Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni,

Sou filho do calor, odeio o frio,

Não creio no diabo nem nos santos...

Rezo a Nossa Senhora e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela

Bem dourada e amante da preguiça,

Quiser a nívea mão unir à minha

Há de achar-me na Sé, domingo, à missa.

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