Minha amante Lira dos Vinte Anos · Capítulo 59 de 85
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Minha amante

Minha amante

Coração de mulher, qual filomela,

É todo amor e canto ao pé da noite.

JOÂO DE LEMOS

Fulcite me floribus... quia amore langueo.

Cant. Canticorum

Ah! volta inda uma vez! foi só contigo

Que, à noite, de ventura eu desmaiava...

E só nos lábios teus eu me embebia

De volúpias divinas!

Volta, minha ventura! eu tenho sede

Desses beijos ardentes que os suspiros

Ofegando interrompem! quantas noites

Fui ditoso contigo!

E quantas vezes te embalei tremendo

Sobre os joelhos meus! Quanto amorosa

Unindo à minha tua face pálida

De amor e febre ardias!

Oh! volta inda uma vez! ergue-se a lua,

Formosa como dantes, é bem noite,

Na minha solidão brilha, de novo,

Estrela de minh'alma!

Desmaio-me de amor, descoro e tremo...

Morno suor me banha o peito langue...

Meu olhar se escurece e eu te procuro

Com os lábios sedentos!

Oh! quem pudera sempre em teus amores

Sobre teu seio perfumar seus dias,

Beijar a tua fronte e em teus cabelos

Respirar ebrioso!

És a coroa de meus anos breves,

És a corda de amor d'íntima lira,

O canto ignoto, que me enleva em sonhos

De saudosas ternuras!

E tu és como a lua: inda és mais bela,

Quando a sombra nos vales se derrama,

Astro misterioso à meia-noite

Te revela a minh'alma!

Ó! minha lira, ó viração noturna,

Flores, sombras do vale, à minha amante...

Dizei que nesta noite de desejos

E de ternuras morro!

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