VI. O poeta moribundo Lira dos Vinte Anos · Capítulo 44 de 85
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VI. O poeta moribundo

VI. O poeta moribundo

Poetas! amanhã ao meu cadáver

Minha tripa cortai mais sonorosa!...

Façam dela uma corda e cantem nela

Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verão que me alentava...

O aroma dos currais, o bezerrinho

As aves que na sombra suspiravam

E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes? Se esta lira

Nas minhas mãos sem força desafina,

Enquanto ao cemitério não te levam,

Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira

O marreco piando na agonia...

Como o cisne de outrora... que gemendo

Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte,

Ali vem lazarenta e desdentada...

Que noiva!... E devo então dormir com ela?

Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!

Tão antediluviano e gigantesco!

Ora, façam idéia que ternuras

Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela,

Que dessa fúria o gozo, amor eterno

Se ali não há também amor de velha

Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!

No inferno estão suavíssimas belezas,

Cleópatras, Helenas, Eleonoras...

Lá se namora em boa companhia,

Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,

Amigos de no vinho ter consolos,

Foram com Satanás fazer colônia,

Antes lá que do Céu sofrer os tolos!

Ora! e forcem um'alma qual a minha,

Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,

A cantar ladainha eternamente

E por mil anos ajudar a missa!

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