I. Solidão Lira dos Vinte Anos · Capítulo 39 de 85
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I. Solidão

I. Solidão

Nas nuvens cor de cinza do horizonte

A lua amarelada a face embuça;

Parece que tem frio e, no seu leito,

Deitou, para dormir, a carapuça.

Ergueu-se... vem da noite a vagabunda

Sem xale, sem camisa e sem mantilha,

Vem nua e bela procurar amantes...

-- É doida por amor da noite a filha.

As nuvens são uns frades de joelhos,

Rezam adormecendo no oratório...

Todos têm o capuz e bons narizes

E parecem sonhar o refeitório.

As árvores prateiam-se na praia,

Qual de uma fada os mágicos retiros...

Ó lua, as doces brisas que sussurram

Coam dos lábios teus como suspiros!

Falando ao coração... que nota aérea

Deste céu, destas águas se desata?

Canta assim algum gênio adormecido

Das ondas mortas no lençol de prata?

Minh'alma tenebrosa se entristece,

É muda como sala mortuária...

Deito-me só e triste sem ter fome

Vendo na mesa a ceia solitária.

Ó lua, ó lua bela dos amores,

Se tu és moça e tens um peito amigo,

Não me deixes assim dormir solteiro,

À meia-noite vem ceiar comigo!

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