Pensamentos d'ella Lira dos Vinte Anos · Capítulo 72 de 85
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Pensamentos d'ella

Pensamentos d'ella

Talvez, à noite, quando a hora finda

Em que eu vivo de tua formosura,

Vendo em teus olhos... nessa face linda

A sombra de meu anjo da ventura,

Tu sorrias de mim porque não ouso

Leve turbar teu virginal repouso,

A murmurar ternura.

Eu sei. Entre minh'alma e tua aurora

Murmura meu gelado coração.

Meu enredo morreu. Sou triste agora,

Estrela morta em noite de verão!

Prefiro amar-te bela no segredo!

Se foras minha tu verias cedo

Morrer tua ilusão!

Eu não sou o ideal, alma celeste,

Vida pura de lábios recendentes,

Que teu imaginar de encantos veste

E sonhas nos teus seios inocentes!...

Flor que vives de aromas e luar,

Oh! nunca possas ler do meu penar

As páginas ardentes!

Se em cânticos de amor a minha fronte

Engrinaldo por ti, amor cantando,

Com as rosas que amava Anacreonte,

É que alma dormida, palpitando...

No raio de teus olhos se ilumina,

Em ti respira inspiração divina

E ela sonha cantando!

Não a acordes contudo. A vida nela

Como a ave no mar suspira e cai...

Às vezes, teu alento de donzela

E de teus lábios o morrer de um ai,

Tua imagem de fada, num instante

Estremecem-na, embalam-na expirante

E lhe dizem: "sonhai!"

Mas quando o teu amante fosse esposo

E tu, sequiosa e lânguida de amor,

O embalasses ao seio voluptuoso

E o beijasses dos lábios no calor,

Quando tremesses mais, não te doera

Sentir que nesse peito que vivera

Murchou a vida em flor?

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