O editor Lira dos Vinte Anos · Capítulo 79 de 85
Obra Menu

O editor

O editor

A poesia transcrita é de Torquato,

Desse pobre poeta enamorado

Pelos encantos de Leonora esquiva,

Copiei-a do próprio manuscrito;

E, para prova da verdade pura

Deste prólogo meu, basta que eu diga

Que a letra era um garrancho indecifrável,

Mistura de borrões e linhas tortas!

Trouxe-ma do Arquivo lá da lua

E decifrou-ma familiar demônio...

Demais... infelizmente é bem verdade

Que Tasso lastimou-se da penúria

De não ter um ceitil para a candeia.

Provo com isso que do mundo todo

O sol é este Deus indefinível,

Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,

Mais santo do que os Papas -- o dinheiro!

Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,

Filinto Elísio e Tolentino o sonham,

Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,

-- Aretino! essa incrível criatura

Lívida, tenebrosa, impura e bela,

Sublime... e sem pudor, onda de lodo

Em que do gênio profanou-se a pérola,

Vaso d'ouro que um óxido terrível

Envenenou de morte, alma -- poeta

Que tudo profanou com as mãos imundas

E latiu como um cão mordendo um século...

Quem não ama o dinheiro? Não me engano

Se creio que Satã, à noite, veio

Aos ouvidos de Adão adormecido,

Na sua hora primeira, murmurar-lhe

Essa palavra mágica da vida,

Que vibra musical em todo o mundo,

Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso

Eva não se tentava pelas frutas,

Pela rubra maçã não se perdera:

Preferira decerto o louro amante

Que tine tão suave e é tão macio!

Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,

Eu mostraria quanto o povo mente

Quando diz que -- a poesia enjeita e odeia

As moedinhas doiradas. É mentira!

Desde Homero (que até pedia cobre),

Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,

Boileau e o fabuleiro LaFontaine

E tantos que melhor decerto fora

De poetas copiar algum catálogo,

Todos a mil e mil por ele vivem

E alguns chegaram a morrer por ele!

Eu só peço licença de fazer-vos

Uma simples pergunta: -- na gaveta

Se Camões visse o brilho do dinheiro...

Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton

Se o tivessem nas rotas algibeiras,

Acaso blasfemando morreriam?

1/1
Menu

Fazer anotação