Namoro a cavallo Lira dos Vinte Anos · Capítulo 67 de 85
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Namoro a cavallo

Namoro a cavallo

Eu moro em Catumbi: mas a desgraça,

Que rege minha vida maldada,

Pôs lá no fim da rua do Catete

A minha Dulcinéia namorada.

Alugo (três mil réis) por uma tarde

Um cavalo de trote (que esparrela!)

Só para erguer meus olhos suspirando

A minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores

E em lindas folhas de papel bordado...

Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,

Algum verso bonito... mas furtado.

Morro pela menina, junto dela

Nem ouso suspirar de acanhamento...

Se ela quisesse eu acabava a história

Como toda a comédia -- em casamento...

Ontem tinha chovido... Que desgraça!

Eu ia a trote inglês ardendo em chama,

Mas lá vai senão quando... uma carroça

Minhas roupas tafuis encheu de lama...

Eu não desanimei. Se Dom Quixote

No Rocinante erguendo a larga espada

Nunca voltou de medo, eu, mais valente,

Fui mesmo sujo ver a namorada...

Mas eis que no passar pelo sobrado,

Onde habita nas lojas minha bela,

Por ver-me tão lodoso ela irritada

Bateu-me sobre as ventas a janela...

O cavalo ignorante de namoro,

Entre dentes tomou a bofetada,

Arrepia-se, pula e dá-me um tombo

Com pernas para o ar, sobre a calçada...

Dei ao diabo os namoros. Escovado

Meu chapéu que sofrera no pagode...

Dei de pernas corrido e cabisbaixo

E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa

Rasgou-se no cair de meio a meio,

O sangue pelas ventas me corria

Em paga do amoroso devaneio!...

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