III. A tempestade Lira dos Vinte Anos · Capítulo 34 de 85
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III. A tempestade

III. A tempestade

FRAGMENTO

Profeta escarnecido pelas turbas

Disse-lhes rindo -- adeus!

Vim adorar na serrania escura

A sombra de meu Deus!

O céu enegreceu: lá no ocidente

Rubro o sol se apagou;

E galopa o corcel da tempestade

Nas nuvens que rasgou...

Da gruta negra a catarata rola,

Alaga a serra bronca,

Esbarra pelo abismo, escuma uivando

E pelas trevas ronca...

O chão nu e escarvado p'las torrentes

Trêmulo se fendeu...

Da serrania a lomba escaveirada

O raio enegreceu.

Cede a floresta ao arquejar fremente

Do rijo temporal,

Ribomba e rola o raio, nos abismos

Sibila o vendaval.

Nas trevas o relâmpago fascina,

A selva se incendeia...

Chuva de fogo pelas serras hirtas

Fantástica serpeia...

Amo a voz da tempestade,

Porque agita o coração...

E o espírito inflamado

Abre as asas no trovão!

A minh'alma se devora

Na vida morta e tranqüila...

Quero sentir emoções,

Ver o raio que vacila!

Enquanto as raças medrosas

Banham de prantos o chão,

Eu quero erguer-me na treva,

Saudar glorioso trovão!

Jeová! derrama em chuva

Os teus raios incendidos!

Tua voz na tempestade

Reboa nos meus ouvidos!

É quando as nuvens ribombam

E a selva medonha está,

Que no relâmpago surge

A face de Jeová!

A tuba da tempestade

Rouqueja nos longos céus,

De joelhos na montanha

Espero agora meu Deus!

O caminho rasgou-se: mil torrentes

Rebentam bravejando,

Rodam na espuma as rochas gigantescas

Pelo abismo tombando.

Como em noite do caos, os elementos

incandescentes lutam.

Negra -- a terra, o céu -- rubro, o mar -- vozeia

-- E as florestas escutam...

Tudo se escureceu e pela treva,

No chão sem sepultura,

Os mortos se revolvem tiritando

Na longa noite escura.

Profeta escarnecido pelas turbas

Disse-lhes rindo -- adeus!

Vim fitar ao clarão da tempestade

-- A sombra de meu Deus!

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