Lembrança de morrer Lira dos Vinte Anos · Capítulo 35 de 85
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Lembrança de morrer

Lembrança de morrer

No more! O never more!

SHELLEY

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto o poento caminheiro...

Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro...

Como o desterro de minh'alma errante,

Onde fogo insensato a consumia,

Só levo uma saudade -- é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade -- e dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas...

E de ti, ó minha mãe! pobre coitada

Que por minhas tristezas te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,

Poucos, -- bem poucos! e que não zombavam

Quando, em noites de febre endoudecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda,

É pela virgem que sonhei!... que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!

Ó tu, que à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se vivi... foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo...

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu! eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz! e escrevam nela:

-- Foi poeta, sonhou e amou na vida. -

Sombras do vale, noites da montanha,

Que minh'alma cantou e amava tanto,

Protejei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe um canto!

Mas quando preludia ave d'aurora

E quando, à meia-noite, o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri as ramas...

Deixai a lua pratear-me a lousa!

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