Desalento Lira dos Vinte Anos · Capítulo 18 de 85
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Desalento

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Por que havíeis passar tão doces dias?

A. F. DE SERPA PIMENTEL

Feliz daquele que no livro d'alma

Não tem folhas escritas

E nem saudade amarga, arrependida,

Nem lágrimas malditas!

Feliz daquele que de um anjo as tranças

Não respirou sequer

E nem bebeu eflúvios descorando

Numa voz de mulher...

E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca

Perdida em seus cabelos,

Nem resvalou do sonho deleitoso

A reais pesadelos...

Quem nunca te beijou, flor dos amores,

Flor do meu coração,

E não pediu frescor, febril e insano

Da noite à viração!

Ah! feliz quem dormiu no colo ardente

Da huri dos amores,

Que sôfrego bebeu o orvalho santo

Das perfumadas flores...

E pôde vê-la morta ou esquecida

Dos longos beijos seus,

Sem blasfemar das ilusões mais puras

E sem rir-se de Deus!

Mas, nesse doloroso sofrimento

Do pobre peito meu,

Sentir no coração que à dor da vida

A esperança morreu!...

Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros

Nem geme a viração...

E dentro, no deserto do meu peito,

Não dorme o coração!

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