Na varzea Lira dos Vinte Anos · Capítulo 78 de 85
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Na varzea

Na varzea

Como é bela a manhã! Como entre a névoa

A cidade sombria ao sol clareia

E o manto dos pinheiros se aveluda...

E o orvalho goteja dos coqueiros...

E dos vales o aroma acorda o pássaro...

E o fogoso corcel no campo aberto

Sorve d'alva o frescor, sacode as clinas,

Respira na amplidão, no orvalho rola,

Cobra em leito de folhas novo alento

E galopa nitrindo!

Agora que a manhã é fresca e branca

E o campo solitário e o val se arreia...

Ó meu amigo, passeemos juntos

Na várzea que do rio as águas negras

Umedecem fecundas...

O campo é só: na chácara florida

Dorme o homem do vale e no convento

Cintila a medo a lâmpada da virgem,

Que pálidas vestais no altar acendem!

Tudo acorda, meu Deus, nestas campinas!

Os cantos do Senhor erguem-se em nuvens,

Como o perfume que evapora o leito

Do lírio virginal!

Acorda, ó meu amigo: quando brilha

Em toda a natureza tanto encanto,

Tanta magia pelo céu flutua

E chovem sobre os vales harmonias,

É descrer do Senhor dormir no tédio,

É renegar das santas maravilhas

O ardente coração não expandir-se

E a alma não jubilar dentro do peito!

Lá onde mais suave entre os coqueiros,

O vento da manhã nas casuarinas

Cicia mais ardente suspirando,

Como de noite no pinhal sombrio

Aéreo canto de não vista sombra,

Que enche o ar de tristeza e amor transpira...

Lá onde o rio molemente chora

Nas campinas em flor e rola triste...

Alveja, à sombra, habitação ditosa,

Coroa os frisos da janela verde

A trepadeira em flor do jasmineiro

E pelo muro se avermelha a rosa.

Ali quando a manhã acorda a bela,

A bela, que eu sonhei nos meus amores...

Ao primeiro calor do sol d'aurora

Entorna-se da flor o doce aroma,

Inda mais doce em matutino orvalho,

Nas tranças negras da donzela pálida,

Mais bela que o diamante se aveluda,

Camélia fresca, inda em botão, tingida

De neve e de coral... no seio dela

Não reluz o colar... em negro fio

A cruz da infância melhor guarda o seio,

Que o amor virginal beija tremendo

E os ais do coração melhor perfuma...

Vem comigo, mancebo: aqui sentemo-nos...

Ela dorme: a janela inda cerrada

Se enche de rosas e jasmins, à noite...

E as flores virgens com o aberto seio

Um beijo da donzela ainda imploram.

Mais doce o canto foge de mistura

Co'as doces notas do violão divino!

Anjo da vida te verteu nos lábios

O mel dos serafins que a voz serena,

Que a transborda de encanto e de harmonia

E faz no eco propulsar meu peito!

Suspire o violão: nos seus lamentos

Murmura essa canção dos meus amores,

Que este peito sangrento lhe votara,

Quando a seus pés, acesa a fantasia,

Em doce engano derramei minh'alma!

Quando a brisa seus ais melhor afina,

Quando a frauta no mar branda suspira,

Com mais encanto as folhas do salgueiro

Debruçam-se nas águas solitárias

E deixam, gota a gota, o argênteo orvalho

Como prantos nas folhas deslizar-se.

Quando a voz do cantor perder-se, à noite,

Na margem da torrente, ou nas campinas,

Ou no umbroso jardim que flores cobrem...

Mais doce a noite pelo céu vagueia,

Melhor florescem as noturnas flores...

E o seio da mulher, que a noite embala,

Pulsa quente e febril com mais ternura!

Se o anjo de meus tímidos amores

Pudesse ouvir-te os cândidos suspiros,

Que a minha dor de amante lhe revelam...

Se ela acordasse, nos cabelos soltos

Inda o semblante sonolento e pálido

E o seio seminu e os ombros níveos

E as trêmulas mãos cobrindo o seio...

Se esta janela num instante abrisse

A fada da ventura, embora apenas

Um instante... sequer... Meus pobres sonhos,

Como saudosos vos murchais sedentos!

Flores do mar que um triste vagabundo

Arrancou de seu leito umedecido

E grosseiro apertou nas mãos ardentes,

Eu morro de saudade! e só me nutre

Inda nas tristes, desbotadas veias

O sangue do passado e da esperança!

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