Crepusculo nas montanhas Lira dos Vinte Anos · Capítulo 17 de 85
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Crepusculo nas montanhas

Crepusculo nas montanhas

Pálida estrela, casto olhar da noite,

diamante luminoso na fronte azul do

crepúsculo, o que vês na planície?

OSSIAN

Além serpeia o dorso pardacento

Da longa serrania,

Rubro flameia o véu sanguinolento

Da tarde na agonia.

No cinéreo vapor o céu desbota

Num azulado incerto,

No ar se afoga desmaiando a nota

Do sino do deserto...

Vim alentar meu coração saudoso

No vento das campinas,

Enquanto nesse manto lutuoso

Pálida te reclinas

E morre em teu silêncio, ó tarde bela,

Das folhas o rumor...

E late o pardo cão que os passos vela

Do tardio pastor!

II

Pálida estrela! o canto do crepúsculo

Acorda-te no céu:

Ergue-te nua na floresta morta

Do teu doirado véu!

Ergue-te!... eu vim por ti e pela tarde

Pelos campos errar,

Sentir o vento, respirando a vida

E livre suspirar.

É mais puro o perfume das montanhas

Da tarde no cair...

Quando o vento da noite agita as folhas

É doce o teu luzir!

Estrela do pastor, no véu doirado

Acorda-te na serra,

Inda mais bela no azulado fogo

Do céu da minha terra!

III

Estrela d'oiro, no purpúreo leito

Da irmã da noite, branca e peregrina

No firmamento azul derramas dia

Que as almas ilumina!

Abre o seio de pérola, transpira

Esse raio de luz que a mente inflama!

Esse raio de amor que ungiu meus lábios

No meu peito derrama!

IV

Lo bel pianeta he ad amar conforta

Faceva tutto rider l'oriente

DANTE , Purgatório

Estrelinhas azuis do céu vermelho,

Lágrimas d'oiro sobre o véu da tarde,

Que olhar celeste em pálpebra divina

Vos derramou tremendo?

Quem, à tarde, crisólitas ardentes,

Estrelas brancas, vos sagrou saudosas

Da fronte dela na azulada c'roa

Como auréola viva?

Foram anjos de amor, que vagabundos

Com saudades do céu vagam gemendo

E as lágrimas de fogo dos amores

Sobre as nuvens pranteiam?

Criaturas da sombra e do mistério,

Ou no purpúreo céu doureis a tarde,

Ou pela noite cintileis medrosas,

Estrelas, eu vos amo!

E quando, exausto o coração no peito

Do amor nas ilusões espera e dorme,

Diáfanas vindes-lhe doirar na mente

A sombra da esperança!

Oh! quando o pobre sonhador medita

Do vale fresco no orvalhado leito

Inveja às águias o perdido vôo

Para banhar-se no perfume etéreo...

E, nessa argêntea luz, no mar de amores

Onde entre sonhos e luar divino

A mão do Eterno vos lançou no espaço,

Respirar e viver!

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