Capítulo 08: O prenúncio de um escândalo Condenados a Voar · Capítulo 10 de 36
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Capítulo 08: O prenúncio de um escândalo

Seryin acordou com o pé esquerdo. Levantou-se às pressas e expulsou Kollin do sofá aos berros, um espaço que o pobre coitado conquistara com muito esforço na casa dela durante a "noite de núpcias".

Também mandou seus rituais de beleza e a penteadeira fiel pros sete infernos.

Se arrumar pra quê?

Quando saiu da cabana, seus passos pareciam bigornas impiedosas. A grama gemia ao ceder sob os pés irritados que arranhavam o chão, denunciando o caminho da marcha. No trajeto até o campo de treino, os sussurros felizes dos casais recém-formados entravam em seus ouvidos como farpas. O estômago borbulhava em acidez pura, recusando até mesmo uma simples torrada com geleia de café da manhã.

Até pensou em inventar uma febre para faltar às obrigações. Mas o mal-estar traria a necessidade de cuidados. Cuidados trariam Kollin. E isso estava fora de cogitação!

Queria distância. Dele. De tudo!

— Bom dia, Yin…

Como sempre, Robin foi a primeira a cumprimentá-la. Uma mulher de trejeito brincalhão e aparência invejável: cabelos curtos, raspados de um lado; pele dourada de sol; pálpebras estreitas delineadas de preto e ornadas com pó brilhante. Trovadora e, acima de tudo, a melhor dançarina do grupo, capaz de transformar inclusive os equívocos em espetáculo com o simples ondular das saias.

Sentada num tronco apodrecido, já vencido pelo musgo e formigas, ela ergueu os olhos claros e percorreu a amiga de cima a baixo. Instintivamente, cobriu os lábios volumosos para abafar o riso, mas o ruído escapou mesmo assim.

E Seryin ouviu. A fúria crescendo no limiar do insuportável.

— Você está um trapo, caiu da cama, querida?

— Cale a boca!

A voz saiu aguda demais, desafinada, nada parecida com a melodia que um dia habitara sua garganta de canário. Sabia que a colega acabara de receber uma bordoada dela sem qualquer justificativa. O gesto impensado a fez encolher-se, intimidada pelos olhares que pesavam nos ombros, julgando sem piedade.

Todos sabiam…

— Calma, Yin — Robin balançou os braços diante do tronco, as pulseiras de pérolas negras tilintando no pulso. — Está tudo bem? Quer falar sobre ontem?

— Ess-ta… eu… — Seryin fixou o olhar na joia barulhenta, agarrando-se, em desespero completo, a um desvio perfeito para não falar da própria humilhação. — São novas?

A face radiante da amiga acusou antes mesmo da explicação:

— Mareen fez pra mim!

Robin acenou para alguém atrás de Seryin. Ela virou-se na hora certa para ver, no pomar à frente, Mareen devolver o gesto da esposa, as maçãs do rosto coradas, a felicidade emanando pelos poros. A jovem carregava vários vasos com uma só mão, habilidade que muitos bobos da corte invejariam.

E, ao lado dela, surgiu…

A maldita Verbena!

Hoje estava ainda mais atrapalhada, perdida em questões que Seryin queria demais saber. Encarava ora o chão, ora o horizonte; os lábios se movimentavam como se tentasse expulsar seus conflitos em murmúrios.

Será que eles… ontem…?

Em um momento de distração, Verbena deixou cair uma das porcelanas, que se estilhaçou em mil pedaços contra a terra úmida. Aflita, ergueu os braços, apenas mais um gesto infeliz que consagrou o mesmo destino para o restante das ceramicas que segurava.

Aos risos, Mareen e os outros ajudaram-na na limpeza dos cacos.

Seryin ainda observava a situação, no mínimo cômica, tentando adivinhar os desesperos que Fen estaria passando com aquela desastrada.

Impossível acreditar que ela era a chefe da divisão juvenil de fadas jardineiras…

— Bom dia, pessoal.

Em instantes, a moça engoliu todo o ódio, esqueceu-se de escanear cada movimento da rival e reconstruiu o semblante para o absoluto requinte. Girou nos calcanhares para dar de cara com a pessoa que desejava ver desde a noite anterior. Aquele a quem procurou depois da festa, para consolá-lo e, quem sabe, fugirem juntos pra bem longe daquela decisão injusta.

Só que…

Ela não se lembrava de tê-lo visto tão entusiasmado antes.

Na verdade, esperava uma reação diferente e aquilo dilacerou o resto do seu precário juízo. Por segundos mais demorados do que gostaria, não soube o que dizer, muito menos o que fazer.

— Bom dia, Fen — Robin interveio, a amizade surgindo com louvor naquele momento constrangedor. — Hoje você, eu e Yin vamos começar com aquele grupo. — Apontou para algumas crianças que brincavam sentadas na grama próximas a eles. — Foco na respiração e no balancear do tom.

Seryin foi puxada pelo braço. Ainda atordoada, deixou-se guiar. Uma questão cutucava sua consciência, já mergulhada na penumbra da dúvida desde a noite passada:

Por que ele não estava tão inconformado quanto ela?

Sem se dar conta estava sentada na relva. Robin, astuta, posicionou-se entre o casal complicado. Fendrel, porém, parecia alheio a qualquer questão maior e já conversava animado com uma garotinha, que gargalhava de suas caretas durante os exercícios vocais.

— Moça bonita? — o menino à sua frente esboçava o melhor olhar pidão. — O que eu devo fazer?

Aquilo a trouxe de volta. Um puxão abrupto, mas necessário.

Teatro, Seryin!

Performar indiferença era o melhor agora. Num primeiro momento, uma ideia sensata. Porém, foi desse alicerce que a mulher construiu, com tijolos frágeis e cimento barato, a seguinte esperança desesperada: talvez Fendrel também estivesse fingindo.

É! Isso! Ele estava fingindo!

— Bem… vejamos. — Levou um dedo aos lábios. — Sabe soltar um grande rugido? — As unhas simularam garras. — Mostre pra mim o que tem de melhor!

O garoto emitiu um som hesitante, sob os risinhos contidos da professora. Assim que ela percebeu que o mais novo se envergonhara a ponto de desistir, explicou:

— Se quer assustar mais que um gatinho… — apontou para a própria barriga — tem que sair daqui, assim…

E então rugiu. Algo parecido com um dragão adulto faminto pela carne de seus inimigos. O gesto chamou a atenção das duas outras crianças treinadas por Fen e Robin, que bateram palmas pela performance antes de retornarem às próprias lições.

Trovadores eram capazes de mimetizar qualquer som que quisessem. Na verdade, isso ajudava muito em camuflagem durante as missões e...

Seryin quase deixou escapar um suspiro choroso com o pensamento.

Missões estas que nunca mais faria com Fendrel.

A máscara da indiferença parecia gerar frutos enquanto ela instruía o menino a repetir o exercício até conseguir algo decente. Pelo menos, o pequeno parecia se divertir com os barulhos que saíam da própria boca, cada vez mais parecidos com o rugido de tigre que ele tanto queria.

— Vou assustar meu irmão com isso!

A trovadora sorriu com o comentário. Um gesto automático, pois, por mais que lutasse, deixou de prestar atenção no aluno havia algum tempo. Seus olhos espiavam Fendrel, os tímpanos aguçados e atentos a cada sílaba de sua conversa com a menina.

— Tio Fen?

— Sim?

— Você tem namorada?

Aquela risada gentil, que pelo jeito todos adoravam naquela vila, se fez presente. Pela primeira vez, ela odiou aquele sorriso: generoso demais, penosamente sincero, que se alargava de uma ponta a outra da bochecha, até fechar as pálpebras.

— Eu tenho uma esposa.

— E quem é?

— Aquela.

Seryin inclinou discretamente a cabeça na direção de Verbena do outro lado do pomar. Naquele momento, ela guiava uma criança, abraçando-a por trás enquanto faziam uma flor brotar num jarro. Entre os dois agrupamentos, passavam Kollin e Mareen, fadas das marés, com discípulos carregando gotas d’água flutuantes para regar as plantas. Alguns deixavam as bolhas estourarem e, resmungando, corriam de volta ao poço em busca de pelo menos uma tentativa bem-sucedida para se vangloriarem.

— Bonita!

O comentário cheio de sinceridade infantil fez Seryin torcer o nariz de desgosto.

Bonita? Sério isso?

— Também acho… — Fendrel bagunçou as mechas rosas da menina com quem conversava. — Mas ela é ainda mais bonita com os cabelos soltos, sabia?

A situação tomou rédeas inesperadas… Definitivamente, não precisava ter ouvido aquilo. Sua curiosidade e ego inflado desvaneceram de vez. Quis apagar aquela informação, mas era impossível. E uma conclusão insuportável ficou perambulando por seus neurônios durante todo o restante da aula.

Foi uma tola….

No fim, nem se despediu do aluno, nem mesmo quando ele acenou junto aos amigos rumo à próxima estação de treinamento.

Assim que o silêncio se instaurou, junto com uma paz que não duraria, um impulso dissimulado tomou conta dos nervos descrentes de Seryin. A garganta, ardendo pelo choro compulsivo da noite anterior, deixou escapar a voz num fio trêmulo:

— Fen… como, como você pôde…?

O nó no estômago e o coração em pedaços acompanharam o sussurro. Unhas cravavam-se na própria pele, como se pudessem conter a insatisfação latejante com a dor da dura realidade.

Robin percebeu o pandemônio iminente, mas era tarde demais. Fendrel, distraído, respondeu com uma inocência devastadora, daquelas que deixariam qualquer mulher doida de vez:

— Desculpe, Seryin… você falou comigo?

Ele não sabia. Não fazia ideia de que aquela frase era um punhal cravado na alma sem direito a misericórdia. Seryin exigia algo que nunca fora seu. Uma posse inexistente. Um troféu que acreditava comandar.

Agora, percebia que não estava no controle de porcaria nenhuma.

Levantou-se, limpando as vestes, batendo a terra para longe do corpo. Fendrel acompanhou-a com o olhar. Finalmente parecia entender, mas não recuou; seu semblante transmitia firmeza para enfrentar o que viesse. Mal sabia ele que aquilo agia como combustível para o fogaréu ardendo no peito daquela moça desiludida.

Robin ergueu-se também e interpôs-se entre eles, palmas abertas em direção à amiga.

— Yin, não faça algo de que vá se arrepender!

Fendrel era mais alto que ambas; quando se levantou, o rosto impassível e as orbes vermelhas perfeitamente calmas, só contribuíram com mais argumentos para o surto em vias de explodir. Com o dedo em riste, Seryin apontou para o homem e começou seu desabafo:

— Você me usou, não foi?

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