Capítulo 18: Caramelo e baunilha
Dispensando cerimônias, Dart entrou pela porta principal e guiou Fendrel até uma antessala. Assim que o bardo desceu de suas costas, o felino voltou à estatura normal e se jogou numa almofada carmesim perto da lareira, um pouco mais à frente.
Na verdade, a situação poderia ser chamada de… decepcionante. Existiam cômodos iguais àquele em muitas moradas de Alféria, principalmente nas casas de trovadores.
No caso, o local era uma biblioteca. Estantes estavam entalhadas diretamente na madeira, sofás confortáveis ocupavam alguns cantos e trepadeiras vivas se esgueiravam pelas paredes, auxiliando na organização dos livros e no alcance de exemplares guardados próximos ao teto.
Fendrel ficou parado à beira da porta, esperando o que quer que fosse acontecer. Quando seus sentidos finalmente se acalmaram, conseguiu ouvir alguns murmúrios adocicados que guiaram seu olhar até um divã à esquerda, bem diante de uma ampla janela de vitrais coloridos.
Lá, uma figura lia um livro.
Embora bem menos adornada em flores do que na noite anterior, continuava exalando uma excelência divina. Sua presença marcava toda a casa com uma fragrância suave de caramelo e baunilha.
Óculos redondos pousavam sobre o nariz. A cada página — virada por um galho devoto agarrado em seu ombro — a moça às vezes sorria, outras franzia o cenho, os dedos delicados acariciando o queixo, claramente entretida com o mistério que as palavras guardavam.
O rapaz pigarreou uma vez em busca de atenção… apenas para ser completamente ignorado. Uma segunda, e então uma terceira. Foi só na quarta tentativa que conseguiu tirar a deusa de seu entretenimento.
— Ora essa… — disse ela, retirando a armação dos óculos e fechando o livro. — Era para ter demorado muito mais. Como você subiu os…?
Freya imediatamente encarou D'Artagnan com suas ametistas estreitadas, e o animal respondeu com um miado resmungão.
— Hum… entendi. Está muito molenga com essas crianças, Dart.
— É, pode ser que sim… — respondeu o gato, aconchegando a cabeça sobre a própria patinha. — Mas Fendrel não é o pior dos bardos que já me mandaram ser babá. A avó dele era um inferno, sabia? E ela nunca teve que subir sequer um degrau da escadaria de Alféria.
— Claro… — ela entoou enquanto se levantava e caminhava a passos lentos até o convidado. — Vamos fingir que você não foi subornado por alguns bons quilos de biscoito de alga.— Fez uma pausa na marcha e na fala, inclinando-se descaradamente na direção do trovador.— Esperei quatro anos por esse dia, menino Azvir. Ganhar um título de mestre antes da cerimônia das Asas é bem incomum. Meus parabéns.
Fendrel aceitou a palma estendida em sua direção. O gesto, porém, só aumentou sua ansiedade. Assim que as mãos se tocaram, uma descarga desconfortável serpenteou pela espinha.
Impossível ter sido chamado só para isso…
— Feitas as honrarias, vamos aos assuntos. — A deusa bateu palmas, e uma bandeja com duas xícaras de chá surgiu de algum canto, flutuando apressada até eles. — Primeiro, beba. Não preciso de sinceridade expelida por magia. Minha maldição, ou, se preferir chamar de bênção, é saber o que existe aqui.
Seu indicador pousou entre os próprios seios.
O bardo, movido por uma iniciativa impulsiva e assustadoramente inexplicável, obedeceu. Assim que sorveu o líquido azulado, percebeu a mudança: cutucou o braço, sem dor; o paladar sequer reclamou do gosto absurdamente doce de mel daquele chá. E ao que tudo indicava, sua língua estava fora dos efeitos do sincericídio também.
— Muito bem, direto ao ponto: a situação hoje de manhã não foi bonita. Duas fadas tão bem-quistas naquela discussão sem sentido?
— Eu tentei dizer a Yin que…
Ele se calou apenas com o erguer sutil do braço da divindade, as camadas de seda das mangas longas do vestido balançando de um lado para outro como um pêndulo hipinotizante.
— Seryin tem seus problemas, e suas críticas serão advertidas no futuro. De fato, foi um erro dela tentar controlar quem sempre soube manipular.
— Desculpe, devo levar como crítica ou elogio?
— Para sua sorte garoto, eu estranhamente gosto da presunção que as fadas trovadoras possuem. — Fendrel e Freya sorriram ao mesmo tempo. — Respondendo à pergunta: os dois. Acontece que, nesse caso específico, ocorreu um excesso complicado de perdoar da sua parte, e a causa tem nome, cheira a jasmim e adora samabaias.
Freya deu as costas a ele e, com um balançar das mãos, chamou-o para perto da lareira. Ali sentaram-se no tapete, ao lado de Dart.
— Sabe, Fendrel… eu ouvi suas preces. O curioso é que todos os seus pedidos para esquecer Verbena eram tão mentirosos que talvez tenham convencido até você. Um sábio pode enganar a si mesmo se quiser, tão bem quanto o ignorante se abençoa com a própria burrice.
Como sempre, a menção do nome, as críticas sobre sua própria atitude e as consequências de sua falta de iniciativa ferveram no estômago de Fen e lhe deram coragem para contra-atacar uma divindade que parecia um tanto prepotente.
Por mais correta que estivesse....
— Engraçado… o que mais queriam que eu fizesse? Quatro anos atrás falei na cara dela sobre meus sentimentos. O que ganhei foi uma depressão maldita, me comparando com Kollin por meses.
— Foi um timing péssimo, devo dizer. Pior ainda usar Seryin como consolo. — Freya apontou o dedo acusador e o aproximou até cutucar o nariz do rapaz. — Mas você… não corrigiu Verbena quando, como sempre, ela transformou sua confissão num simbolismo torto de amizade.
— E o que tem isso?
— A questão, meu querido, é que você não tem medo da rejeição. E nem precisa saber se ela o ama. Eu já estabeleci essa verdade. Dito isso, pense com carinho: o que te freou hoje naquela clareira? Não ouse dizer que foi Verbena, a pobre coitada estava completamente refém da situação.
Antes de continuar, a deusa pegou o atiçador da lareira e cutucou o carvão algumas vezes. Das brasas surgiram duas figuras dançando separadas; as sombras quase se cruzavam, mas nunca chegavam ao ponto de fazê-lo.
— Enganar aqueles que pouco importam é extremamente fácil. Trovadores têm a falsa sensação de conhecer o outro como uma receita de uma poção. Existe certa segurança nessa prepotência e carência de apego. Mas com ela… com ela é diferente, não é? O coração quer explodir, as mãos tremem, o corpo inteiro reage só com a possibilidade e as cordas vocais querem gritar juras blasés de amor… Os “e se” até invadem sua cabeça, mas a mente já nem consegue processar mais nada. E por quê? Consegue me dizer?
Ela apoiou os cotovelos nos joelhos, observando-o com calma.
— Porque sinto que estou perdendo o controle. — O balanço afirmativo da cabeça da divindade deu prosseguimento ao discurso do trovador. — Perdão pela petulância, mas como sugere que eu vença essa doença?
— Bom, meu bem… é aqui que posso me tornar uma vilã. Ou até uma divindade tirana. É… — deu de ombros — essa última soa um pouquinho melhor.
— O que quer diz...
— De pé!
A voz dobrou por inteiro suas vontades; os joelhos obedeceram sem ouvir as súplicas do dono. Freya se ergueu também e pousou as mãos nos ombros dele.
— Vou te dar um incentivo e, ao mesmo tempo, um castigo. Encare como uma condenação por preferir manter a máscara e se apoiar na ilusão dos outros. Então, durma…
Ela soprou. Um pó cintilante saiu de seus lábios na direção do rosto do rapaz. Fendrel mal teve tempo de reagir, pois, no instante seguinte, o mundo ironicamente desapareceu em sono.
(...)
O despertar veio com dois terríveis pensamentos. O primeiro… estava caindo. O segundo… estava caindo muito rápido!
O uivo do vento batia contra seus ouvidos. Céu azul, copas de árvores, manchas de luz e sombra passavam numa rapidez que seu cérebro tentava inutilmente acompanhar. Os braços se agitaram numa tentativa infrutífera de agarrar qualquer coisa.
Encarou sua sentença: o chão se aproximava em velocidade assustadora. Um tapete esverdeado pronto para recebê-lo com a delicadeza de um machado.
Incrível! Não podia ser um fardo enorme de feno, nem um lago… ou quem sabe folhas amontoadas.
Claro que não!
Embora, daquela altura, pouco importava se o local da sua aterrissagem seria uma superfície macia ou não.
Droga! Qual a lógica daquela provação?
A acusação nem foi capaz de sair dos pulmões, tamanho o pânico do corpo em vias do fim.
Felizmente, milímetros antes do nariz tocar na relva, algo respondeu. Uma pressão súbita nas costas, seguida de um redemoinho de vento que impediu seu infortúnio. O tronco de Fendrel foi puxado para trás com tanta força que seu grito virou um som estrangulado.
Rodopiou no ar de forma desajeitada, o estômago completamente enjoado, seus braços e pernas tentando descobrir qual parte do organismo ainda obedecia às leis usuais do mundo. O que quer que fosse aquilo o empurrou para cima mais alguns metros. Depois para o lado, para o outro, para trás, até, estupidamente, o sujeito bater numa árvore e cair enfim de costas na grama.
— Caramba… — a respiração lutava para retornar depois daquela estranha discussão com a gravidade. — O que… como eu não…?
Ergueu-se num impulso desesperado. A solução era apavorante e fácil. Só existia uma possibilidade e, sinceramente, não gostava nem um pouco dela! Foi por isso que, de imediato, escondeu o rosto nas palmas e fez uma contagem regressiva em busca de coragem.
Não! Não podia ser isso!
Devagar, muito devagar, ele virou a cabeça e afastou dois dedos para espiar. Algo entrou em seu campo de visão.
Uma par de asas!
Grandes. As bordas negras como tinta escura, herança genética insistente do sobrenome Azvir. Para aumentar sua ruína elas se mexeram, provando sua existência e controle do mestre.
— Freya… isso foi completamente desnecessário.