Capítulo 15: A leoa da minha vida Condenados a Voar · Capítulo 17 de 36
Obra Menu

Capítulo 15: A leoa da minha vida

Sim, a ideia de dormir ao lado dela foi péssima.

Kollin se ergueu, massageando a cabeça dolorida que, minutos antes, repousava em sono profundo sobre um travesseiro fofo e agora latejava após o impacto contra as tábuas de cedro. Murmurou alguns xingamentos, apoiou a mão livre na borda da cama e ergueu o tronco com dificuldade.

Mulherzinha explosiva…

Ergueu os olhos para encarar a cena. Não havia choro, apenas uma fúria grosseiramente traduzida em puxões de cabelo e unhas afiadas apontadas para o nada. O ar, um coitado que nem podia se defender, era chamado de “Fendrel canalha, filha da mãe, babaca…” incontáveis vezes.

E naquele momento, contra qualquer lógica… o homem sorriu.

Veja bem, não estava rindo do sofrimento dela. Não exatamente. Era só que… sei lá. Aquela raiva crua, sem filtro, viva demais para ser contida, soava estranhamente sedutora.

Por instantes, chegou a se ver num futuro em que toda a atenção daquela boca nervosinha fosse dirigida a ele. E seria um conflito, certamente originado de alguma besteira própria de casais muito emocionados, como um prato largado na pia, um ciúme sem provas, esquecer uma data importante…. Daí, depois da briga, eles acabariam aos beijos na...

Ei. O que foi isso?

Beliscou o próprio braço.

Devia ter batido forte demais com a cabeça no chão.

— Você! — enfim, a mulher voltou à realidade, mas os insultos apenas mudaram de alvo. — O que fez comigo? Por que estava na minha cama?

— Não estava na cama por você, sua maluca… — Kollin terminou de se erguer, pegou uma das almofadas e a levantou como prova. — Fiquei por essa belezura aqui e pelas minhas costas doloridas. Inclusive, parabéns pelos lençóis. Não gosto de renda, mas são muito macios.

O infeliz só percebeu o que tinha dito quando o estrago já estava mais do que feito. Lembrou-se imediatamente das palavras de Fendrel, dirigidas àquela mulher sem qualquer dó, na frente de uma leva inteira de fadas fofoqueiras até o último fio de cabelo.

“…só queria um troféu bonitinho que combinasse com a porcaria do bordado de renda daquele seu lençol.”

Eis o lençol. Eis o bordado. E eis a moça, com o ego aos frangalhos, soltando mais um grito histérico.

A fada das marés se aproximou a passos lentos. Seryin não parecia se lembrar dos efeitos de ser alvo da manobra da Bela Adormecida. Dava até para aplaudir o teatro que conseguiu sustentar antes de…

— Sai do meu quarto!

— Sim, senhora… mas, Seryin, cuidado, senão você vai…

Como uma maldição, as palavras deram início ao desmaio. Os músculos dela fraquejaram mas não chegaram ao chão. Embora estivesse bem afastado do exemplo de gentileza, Kollin não fazia o tipo que deixava mulheres despencarem sozinhas no próprio sofrimento.

Não se engane… a trovadora iria pagar por tê-lo feito dormir no sofá e por chutá-lo para fora da cama como se ele fosse o culpado por tudo. Nem vamos falar dos seus pobres ouvidos zunindo em apenas dois dias com tanto berreiro. Mas não seria agora. Não com ela frágil, incapaz de se defender.

Qual seria a graça disso?

Ele a pegou no colo sob os murmúrios semi-despertos e confusos dela, que tentava se mexer em vão.

— Trégua, garota — murmurou. — Pelo menos, come alguma coisa. Depois prometo que pode fazer o show que quiser.

Caminhou em direção à porta.

— Não vou encostar um dedo em você… — completou, então olhou melhor a própria hipocrisia. — Tá. Olha só… nesse caso, foi necessário.

Ajustou o peso dela nos braços.

— Vamos pra cozinha. Acalmar os ânimos… E entenda que essa situação também é uma porcaria pra mim.

A resistência teve um fim mudo. O jeito com que a mulher se rendeu, deixando a cabeça cair contra o peito dele, só aprofundou compaixão pela sua dor.

Sejamos honestos: Fendrel provavelmente jamais entenderia o estrago que causara. Não que isso o absolvesse. Ainda assim, Seryin nunca deveria ter apostado o futuro em algo decidido por uma divindade. Foi vítima da própria fome por reconhecimento e, no estado atual, Kollin duvidava se conseguiria devolver a lucidez que ela mesma escolhera jogar no lixo.

Na verdade, existia alguma esperança… segundo suas tias queridas, cozinheiras de mão cheia, um chá acompanhado de algumas guloseimas bem feitas era capaz de curar corações partidos e, em casos mais extremos, trazer de volta até o maior dos loucos.

Quem sabe?

O máximo que poderia acontecer seria levar alguns tapas — verbais ou físicos — de uma fada frágil demais para sustentar as próprias frustrações. O que realmente o assustava era a suspeita incômoda de que até gostaria de ser o alvo deles… se isso significasse fazê-la esquecer, de uma vez por todas, aquela história mal resolvida sobre dois trovadores que só enxergaram as próprias vontades.

1/1
Menu

Fazer anotação