Capitulo 13: Segundo Beijo? Condenados a Voar · Capítulo 15 de 36
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Capitulo 13: Segundo Beijo?

Verbena não podia deixar aquela oportunidade escapar. Seu melhor amigo, finalmente, dizendo a verdade, nada além da verdade? Presenciar Fendrel acuado daquela forma era tentador demais. O pimposo bardo que arrancava suspiros por onde passava agora exibia algo raro: um temor genuíno, feito criança que rouba um doce, é pega em flagrante e aguarda assustada a própria sentença.

— Muito bem. — Ela estalou os dedos. — Primeira pergunta: o que aconteceu com o meu laço de cabelo?

— Que laço de cabelo?

— Quinze anos atrás. O meu laço de cabelo. Rosa com purpurina nas pontas. Vamos, respostas!

— Uau, guardou rancor, foi? Ai!

A piada resultou num soco na perna, forte o bastante para quase fazê-lo cuspir os segredos de infância. Mas Fen já estava treinado em contornar os problemas do sincericídio. Uma verdade podia ser lapidada e dita sem ser dolorida.

— Digamos que um porquinho ficou muito bonito com ele.

Verbena bufou, mas logo se rendeu a uma gargalhada teatral, daquelas que fazem os olhos lacrimejarem. Lembrar dos tempos juvenis a confortava diante da confusão imensa em que se encontrava agora.

— Certo, segunda pergunta: com quantas você já dormiu?

— Pulamos pra isso do nada? Sei lá… por que quer saber?

Ela torceu o nariz. Falara antes de pensar. Um erro raro, e por isso irritante e pateticamente desconfortável.

— Não é da sua conta. Responda logo.

Ele hesitou. O feitiço, não.

— Sendo sincero? Eu não sei. — Deu de ombros. — Não é como se alguma delas tivesse realmente importado.

— Incrível como você consegue ser um tremendo canalha. — Verbena fechou os olhos; a bota raspou a relva num gesto impaciente. — Vamos mudar de assunto. Terceira pergunta: o que você detesta em mim?

A resposta veio mais rápido do que qualquer um dos dois esperava.

— Odeio quando me julga pelos olhos dos outros.

Como previsto, Fendrel recebeu apenas a expressão contraída da amiga: o canto do lábio puxado numa incompreensão quase caricata. Já estava farto daquela mania dela de fingir não enxergar o que se escondia bem diante do próprio narizinho arrebitado.

Por respeito, ainda tentou vestir a fantasia habitual de piadas e charme, mas o efeito colateral do feitiço não permitiu. O que saiu foi apenas uma risada torta, carregada de ironia, seguida de uma confissão estupidamente honesta:

— Vou explicar. Praticamente vinte anos de amizade indo pelos ares porque você se afasta com medo da pessoa que acha que eu me tornei. Mas eu sou só o Fendrel. Sempre fui.

Na ausência de resposta, a verdade ganhou espaço para se alongar, com uma sinceridade beirando a acidez amargurada:

— E vamos lá… posso ser um sem-vergonha, mas agora você leva fadas pra cama por sentimentalismo? Desde quando isso importa, com Freya escolhendo por nós?

Verbena sentiu o estômago revirar. Aquele nome sempre vinha pra justificar qualquer porcaria de atitude amorosa.

O golpe foi preciso e, sem querer, engatilhou a próxima pergunta. Uma indagação que, de alguma forma, precisava ser feita, embora Verbena ainda negasse que aquela curiosidade era fruto direto do egoísmo de provar seu lugar na vida de outra pessoa.

— Você… realmente não amou Seryin?

Fendrel desviou o olhar por um instante.

— Eu tentei. — Fez uma pausa. — Mas não é assim que funciona, Vêr.

O rapaz engoliu o resto do bolinho de camomila de uma só vez. O paladar sensível reagiu numa careta aguda. Nitidamente uma punição autoimposta.

Verbena cruzou os braços, observando o amigo acariciar a mandíbula para estimular a produção de saliva.

— Não sei se gostei da sua versão sincera.

— Eu também não gosto — piscou para ela. — Minha versão mentirosa é bem mais apresentável.

— Bem… quero ser justa, então, vou dizer o que eu odeio em você — calou-se por alguns segundos até a completa recuperação de Fendrel depois do ataque de doçura extrema. — Eu detesto suas brincadeiras sobre a minha aparência.

A reação veio na contramão do esperado. Verbena viu o amigo apertar o papel do embrulho do doce com força demais. As sobrancelhas se uniram, desenhando a mais pura incredulidade.

— Brincadeiras?

— Exato. Sobre a minha aparência. Esses elogios soltos que você faz só pra me irritar.

— Vêr… eles não são brincadeira.

— Aham… falou o grande menti...

As palavras morreram conforme a mente da garota constatava o óbvio. Como um recital engasgado, a frase ecoou em sua consciência, e anos de enganação ruíram diante de seus olhos.

Fendrel não podia mentir.

Entretanto, seria aquilo suficiente para fazê-la entender o que realmente se passava? Talvez não. Quase uma década de negação não se esvai com facilidade. A racionalidade ainda lutaria com todas as forças para manter distância.

Porque… era mais seguro assim.

— Vêr? Alô?

Quando percebeu, o amigo abanava uma das palmas diante de seus olhos. Verbena piscou, buscando justificativas mesmo que frágeis para amansar qualquer esperança tola e retornar para a realidade.

Aturdida, balançou a cabeça, soltou a presilha que prendia os fios e deixou que caíssem pelos ombros. A raiz pulsou em alívio junto aos pensamentos.

Então ouviu risos e aquilo, enfim, arrancou-a de vez do transe.

— Qual a graça, garoto?

Fendrel se aproximou à distância de praticamente um passo. Sem aviso, levou a mão às mechas dela e deslizou os nós dos dedos pela raiz, sentindo a resistência da cascata azulada, grosseiramente marcada pelo hábito de prender firme demais.

— Seu cabelo… — murmurou, massageando os cachos quebrados com um cuidado que roubou de Verbena qualquer ar para responder. — Não que a minha opinião importe, mas, pela Deusa, Vêr… pra quê se castigar prendendo desse jeito?

Num impulso desajeitado, ela afastou o braço dele. Precisava recuperar o controle, acalmar o peito que subia e descia tão frenético que parecia ter corrido milhares de milhas sem sair do lugar.

— Não começa — avisou, embora timbre saísse em notas muito menos firmes do que pretendia.

Então Fendrel teve a pior ideia possível. Pigarreou, floreando a voz, girou os olhos e balançou a cabeça, imitando-a numa caricatura infantil:

— Não começa… Ai!

O peteleco no meio da testa veio como recompensa pela gracinha gratuita. Bardos eram naturalmente irritantes. Mas Fendrel…

Poderia ser o rei dos insuportáveis!

Soltou vários resmungos sonoros. O dedo em riste apontava para o amigo, que, infelizmente, não enxergava seriedade alguma nos protestos dela.

— Sabe o que eu mais queria no mundo neste exato momento? Que Seryin tivesse te dado um belo tapa na cara! E você, Mestre dos Bardos, canalha e sabichão? O que deseja agora?

O trovador petrificou por alguns instantes, envolto na quietude que sempre abraçou seus segredos com tanto apreço. A boca abriu e fechou mais vezes do que ela conseguiu contar. E, por segundos azucrinantes, Verbena esperou por algo que talvez não estivesse pronta para ouvir.

Então, praticamente iluminado por uma solução santificada, Fendrel sorriu. Um sorriso complacente, calmo demais para um bardo zombeteiro. Os dedos da mão direita buscaram a ponta do queixo dela e ali fizeram morada.

— Hum… o que eu desejo agora?

O rosto dele ficou tão próximo que o hálito de camomila escorreu pela face, uma carícia discreta, acentuando a quentura do embaraço. Por algum motivo, Verbena não recuou. Nos rubis do olhar dele havia algo que embalava um sentimento profundo, prendendo seus músculos exatamente no lugar.

— Eu queria saber qual o gosto…

— G-gosto?

A trajetória esperada, porém, não se concretizou. O que parecia um beijo desviou-se para a maçã do rosto. Ali ele depositou um selinho, perigosamente próximo da ponta dos lábios, mas não o bastante para gerar certezas.

Ainda assim, muitos chamariam aquilo de quase beijo. Ou de beijo completo. Dependia da interpretação. E Fendrel deixaria que Verbena decidisse sozinha.

Sabia, no entanto, que ela faria o possível para transformar tudo em mais um mal-entendido.

Antes de se afastar de vez, inclinou-se um pouco mais na direção da orelha pontuda dela. Deixou que o perfume de jasmim o envolvesse e, pela primeira vez em muitos anos, falou com absoluta sinceridade, sem precisar de artifícios ou feitiços:

— Acontece que… canalhas são péssimos quando existe sentimento.

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