Capítulo 17: D'Artagnan Condenados a Voar · Capítulo 19 de 36
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Capítulo 17: D'Artagnan

— Fendrel Azvir! Volte já aqui!

A voz de Verbena ricocheteava furiosa pelos troncos da clareira.

Fendrel ainda se permitiu olhar para trás uma última vez antes de correr para longe dali. O feitiço de camuflagem era incrível: consumia pouca magia, mas tinha um preço incômodo para sua ativação…

Parar de respirar.

Felizmente um trovador tinha pulmões treinados por anos de exercícios. O problema, naquele maldito momento, era o coração insistindo em pular pela garganta numa animação incontrolável, descompasando por completo sua capacidade respiratória. Isso diminuíu pela metade a distância que o coitado conseguiu percorrer.

Mesmo assim, foi feliz em sua empreitada e, quando chegou próximo à borda da clareira principal — onde fadas iam e vinham ocupadas com seus afazeres — permitiu-se um momento de descanso. Apoiou-se no tronco de uma árvore e deixou o corpo escorregar até a grama.

Sabe… podia tê-la beijado.

A lembrança voltou ainda mais perfeita do que o momento verdadeiro: os olhos incrédulos dela, o rubor nas bochechas, a proximidade perigosa. Por um segundo — só um único segundinho — ela não tinha recuado.

Mas é evidente que ele… desviou.

E vamos fingir que foi pelo temor de levar um soco se tivesse completado seu desejo. Embora todos saibam que não passou de pura covardia.

— Bom… — murmurou, alisando o rosto em busca de qualquer resquício de tranquilidade. — Um passo é melhor que nada.

— Chamou aquilo de passo?

Dado o histórico de surpresas daquele dia, o trovador nem se mexeu. Conhecia bem demais aquela voz.

Com os braços cruzados, ergueu o queixo para observar um galho próximo. Nele estava estirado, com a tranquilidade de quem era dono do lugar, um gato malhado que o observava com enormes olhos azul-safira.

No corpinho felpudo havia uma pequena couraça de couro, feita sob medida para um gato mensageiro. Presa a ela, balançava uma bolsinha um pouco maior, claramente cheia.

— Eu acho que hoje não estou sendo merecedor de paz…

— É lógico que não. — O bichano levantou-se, pulou na relva com elegância e se espreguiçou de maneira exageradamente dramática. — Queria o quê depois daquele showzinho?

— Foi Seryin que… ah, deixa pra lá. Minha culpa. — Fendrel levantou as mãos em rendição. — Qual a mensagem, D'Artagnan?

— Será hoje, mestre Fendrel. Agora que já está casado, a deusa quer falar com você diretamente. No palácio lá em cima.

O bardo seguiu o focinho do bichano até quase atingir o céu.

— O Palácio ametista? — arqueou uma sobrancelha. — Desculpe a dúvida, mas vou chegar lá como? Catapultado?

— Se tivesse investido no que sentia nesses últimos quatro anos… já teria as ferramentas para chegar lá. Ouvi você resmungar todo esse tempo sobre a Verbena. A orelha da pobrezinha devia ficar fervendo de tanto falarem dela.

— Tá, estou sabendo… mas infelizmente sou um mestre dos bardos sem asas. Então? O que faremos? Vou subir todos os milhões de degraus?

O gato fez um silêncio sepulcral. Encarou o mestre, o palácio e, por fim, lambeu a pata num ritmo estupidamente lento.

Ele até merecia um pouco de castigo…

Acontece que a paciência de Fendrel, pressionada pelas circunstâncias daquele dia específico, não estava dentro dos padrões aceitáveis.

— Dart!

— Está bem, está bem. Eu estava brincando. Desta vez te dou uma ajuda. Mas, da próxima, é melhor ter asas, garoto!

D'Artagnan soltou uma lufada de ar pelas narinas, típico de um mensageiro divino cansado do próprio trabalho milenar.

— Sugiro que se afaste um pouco.

Fendrel levantou-se da grama e deu três grandes passos para o lado.

O pequeno corpo do felino começou a crescer. Primeiro foi a cauda, que se alongou e engrossou. Depois as patas, que se esticaram e se tornaram pesadas como as de um urso. O dorso arqueou, os ombros se alargaram e os dentes afiaram-se até metade do queixo. Em poucos segundos, o gato malhado já não tinha nada de doméstico. Praticamente um lince do tamanho de um cavalo.

Mas ainda era fofinho. Perigoso… mas fofinho.

— Só para constar — Fendrel murmurou enquanto se aproximava — você considerou aquela melhoria que falei? Sobre onde exatamente segurar…

O felino gigante virou lentamente a cabeça para encará-lo.

— Suba, mestre dos bardos.

— Isso não respondeu minha pergunta.

— Suba.

O bardo bufou, mas apoiou o pé na pata dianteira do gato e se ergueu até o dorso largo.

— Certo… — ajeitou-se, segurando-se na couraça de couro presa ao peito do animal. Não havia muitos pontos de ancoragem ali, mas teria que sobreviver com o que tinha disponível. — Acho que estou pronto.

Com um único salto poderoso e um resmungo assustado do trovador, D'Artagnan alcançou o primeiro lance da escadaria entre as árvores. Sem pudor, pulava entre copas, telhados e galhos. A cada avanço, a floresta ficava menor lá embaixo, transformando as fadas apressadas em pequenos pontos luminosos.

Enfim, na última copa da árvore mais alta, imponente e antiga, surgiam os tetos abobadados do chamado Palácio Ametista. Na verdade, um castelo bastante modesto para os padrões de alguns reis tiranos de Calindor. Havia telhados curvos, algumas torres dedicadas à observação das estrelas e salas de estudo. Nada realmente ostentoso.

Então por que chamá-lo de palácio?

Porque, embora a deusa negasse, todos a enxergavam como uma rainha.

E por que ametista?

Bem… lá vivia a dona dos olhos lilases mais perigosos — e mais sábios — de Alféria.

Fendrel engoliu em seco. Tinha conciência de que aquele dia chegaria.

Só que…logo agora?

Como Mestre dos Bardos, após seu casamento, sua função era categórica: transmitir e garantir os desejos de Freya. Mas seu instinto trazia premonições indigestas… Pelo jeito, a maré de azar das últimas horas ainda estava longe de acabar.

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