Capitulo 14: Pesadelo charmoso
Talvez… só talvez, ele realmente merecesse aquela posição.
— Desculpe, Yin. Não foi dessa vez…
Seryin cerrou os punhos. Ao seu lado, o violino mágico jazia em estilhaços no chão, as cordas rompidas misturadas a decadência de seus esforços gastos em treinamentos de doer a garganta e noites mal dormidas.
Outra batalha perdida.
Ergueu o queixo na direção de Fendrel, que lhe estendia a mão com um sorrisinho insuportável, um que ela já conhecia bem demais. Aceitou o auxílio a contragosto e foi erguida num impulso brusco, enquanto os aplausos ecoavam ao redor de sua derrota desastrosa.
Virou rotina ser humilhada com plateia.
Era impossível alcançá-lo. O peso da canção, a precisão dos acordes, cada verso contava com requinte magistral os segredos do narrador sobre um beijo roubado e as desventuras de viver apenas com essa devoção.
E as marionetes de raízes que o maldito projetava para dançar ao seu comando? Pareciam reais demais. Facilmente confundíveis com ninfas da floresta de Calindor.
Tudo nele era espetáculo. Um espetáculo que Seryin estudara incontáveis vezes e, ainda assim, nunca encontrava uma brecha.
Sempre lhe faltava algo: uma nota fora do tempo, um silêncio mal colocado, um descompasso vazio de sentimento. Fendrel explorava cada uma dessas falhas sem piedade. Não largaria o posto de Mestre dos Bardos tão facilmente, pois Madame Calíope criou um neto formidável.
E ela? Virara um entretenimento barato adornado em pérolas!
Soltou um longo suspiro — demorado no tamanho da imensidão de sua vergonha — enquanto ajeitava as mechas espetadas no rosto suado. Antes que qualquer outra esperança emergisse, cedeu lugar a desabafo justo e cansado:
— Eu desisto…
Viu o parceiro trovador franzir o cenho, desgostoso.
— O quê? Esta falando sério?— O alaúde reluziu ao sol enquanto era depositado de volta às costas. — Você é a única fada interessante por aqui para me desafiar.
Ela riu. As mãos pousaram na cintura fina, que balançou de um lado para o outro uma única vez, satisfeita com o elogio. Foi então que percebeu: gostara da forma como aqueles dois rubis indecentes chamuscavam em sua direção. Queria mais daqueles gracejos.
Quem sabe… poderia ganhar esse jogo de outras formas.
— Pode ficar com o título. Vai me ver em outras oportunidades
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Uma jarra de lírios se despedaçou no mesmo instante em que a porta do casebre se fechou, tomada por uma urgência violenta. O perfume esmagado das flores misturou-se ao som abafado de passos apressados pelo corredor estreito. Beijos colidiram em estalos quentes, impacientes, até que o quarto os engolisse.
Seryin o empurrou contra a cama sem cerimônia. Permitiu-se o luxo de ser observada enquanto o vestido deslizava pelo seu corpo, abandonado no piso de cedro. Aproximou-se devagar, engatinhando sobre ele e tirando proveito de cada ondular do corpo com a maestria de um compositora lírica. Seus olhos exigiam atenção. Precisava tomar as rédeas uma vez que seja.
Naquilo, ele não poderia ganhar.
Ou foi o que pensou.
O puxão firme em seus quadris a arrancou do eixo. Agora estava de costas, sentindo o peso dele se impor. Ela arqueou o corpo em resistência dengosa, negando-se em gestos que desmentiam a própria entrega, mesmo quando os lábios dele encontraram seu pescoço em mordidas calculadas.
Sua voz a traiu quando o estímulo dos dedos subiu em círculos quentes até o interior das coxas. Apertou as unhas nos ombros largos e logo decidiu que se renderia daquela vez.
Apenas daquela vez…
O sussurro veio rente ao ouvido. Bem longe de ser a súplica rouca de um amante, Fendrel carregava na voz a certeza dos que sabem dominar.
— Quer o controle? Conquiste.
Na época, a moça entendeu a frase como um desafio. Por algum tempo, seu coração iludido chegou até a acreditar que estava no comando. Mas aprenderia do pior jeito: esses tipos sabem bem quando a presa não tem chance alguma.
Ao menos neste universo…ela nunca foi, nem sequer por um segundo, a caçadora
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Acordou num salto, o ar faltando nos pulmões. A primeira sensação foi de conforto ao encontrar a textura familiar da renda dos lençóis macios de seu quarto. A segunda, porém, foi dolorosa: uma pontada aguda invadiu as têmporas, obrigando-a a massageá-las com força.
Pela deusa… o que…
Seu olhar deslizou para o lado. Os olhos se arregalaram.
Kollin?!
Ele dormia de bruços, jogado sobre o travesseiro fofo, a boca meio aberta, praticamente babando num sono profundo demais para ligar para o gritinho assustado que a companheira soltou antes de puxar o tecido que a cobria até os seios e conferir uma questão bem importante…
Estava vestida?
Sorriu ao constatar que sim, estava vestida. Só que o alívio durou pouco. As memórias aproveitaram a brecha da tranquilidade e invadiram sua mente em avalanches venenosas: o Festival das Asas, a felicidade descarada de Fendrel, seu surto vergonhoso e…
Uma raiva insuportável latejou no maxilar tenso acompanhando os solavancos da enxaqueca. Jurava que os dentes quase trincaram ao rangerem de puro ódio. Em segundos, o descontrole retornou ao limiar físico e, ao se virar, empurrou o novo marido para fora do colchão num chute desmedido.
Inferno!
Ao som dos resmungos da fada dos mares, ela se levantou, ainda desnorteada mas com força suficiente para praguejar em alto e bom som:
— Aquele desgraçado! Usou a manobra comigo?!