Capitulo 16: Chá com terapia Condenados a Voar · Capítulo 18 de 36
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Capitulo 16: Chá com terapia

Após acomodá-la na banqueta da mesa da cozinha, Kollin seguiu na direção da pia. Ergueu um dedo e desenhou círculos no ar. A torneira respondeu: gotas se desprenderam e flutuaram, obedientes, até uma chaleira de cristal. Enquanto isso, ele partiu em busca de algo para infundir.

Três armários vazios se seguiram antes de um grunhido insatisfeito:

— Sua casa é meio triste. Você se alimenta do que? Ar? Luz do sol?

Não houve resposta além de um suspiro da moça, que apoiava os cotovelos na bancada e o queixo na palma da mão. Um biquinho muxoxo moldava os lábios ressecados; os olhos se perdiam em alguma falha das tábuas no teto baixo do chalé.

Kollin decidiu deixar quieto e continuou a busca. Em poucos minutos, foi finalmente agraciado com um pequeno pote de folhas vermelhas — coincidentemente, ou não, seu chá preferido — bem escondido entre dois enormes recipientes de escamas de sereia.

Dá pra acreditar? Enfeites de cabelo no meio da cozinha?

— Você gosta de hibisco?

— Sim… mas Fen… drel — o nome reacendeu nela algum impulso raivoso; porém, o que era pra ser um soco virou só um arranhar ruidoso de lascas da madeira — aquele idiota nem tanto. Achava ácido demais, preferia camomila, então esse pote criou poeira na minha cozinha.

Kollin deixou algumas folhas caírem dentro do bule, fechou-o com cuidado e estalou os dedos. A água começou a ferver sozinha. Pouco a pouco, tingiu-se de um tom arroxeado conforme o vapor subia com aquele aroma forte de uma flor tão delicada.

Talvez… não fossem tão diferentes assim.

Ele se sentou no banquinho à frente dela e estendeu o braço para puxar uma bandeja com torradas, alguns biscoitos amanteigados e uma compota generosa de geleia de abóbora.

— Imagino que você não comeu nada até agora… Seu estômago deve estar rugindo mil palavrões contra você. Pega. Não vai te matar.

Seryin aceitou o petisco oferecido, coberto por uma farta camada de doce, mas o desdém no nariz contraído anunciava tudo, menos entusiasmo. Abriu a boca devagar e deu uma mordida contida, tão pequenina que mal podia ser chamada de cortesia.

Kollin se ofendeu? Nem um pouco. O que veio a seguir apenas confirmou o que seus amigos sempre reiteravam.

— Pela Deusa! O que tem nessa torrada? Não era pra ser só… hum… trigo e fermento?

As perguntas soaram mais surpresas do que acusatórias. Ele não respondeu. Apenas serviu o chá e deixou que, por livre e espontânea vontade, ela avançasse sobre o restante da bandeja. Porém, não negaria que lutou contra um sorrisinho malandro de canto de boca.

Aham… era um cozinheiro muito bom.

Só que, vamos com calma, antes que a situação seja entendida errado. Não tinha feito tudo aquilo por ela. Nem pelo choro de ontem, nem porque gostava da trovadora. Bom… esperava que não. Seria meio loucura se apaixonar por Seryin logo no primeiro encontro.

Tudo bem que, naquele caso específico, uma Deusa casamenteira se deu ao trabalho de uni-los. Embora não fosse do tipo emocionado e…

É… estava se explicando além da conta.

Ainda assim, havia uma verdade simples: na sua casa, comida não podia faltar. Fadas das marés estavam sempre à mercê de situações difíceis. Marolas traiçoeiras, tempestades repentinas, correntes de rios cheias de pedras afiadas e animais pouco amistosos. Sem bons nutrientes, Kollin seria perfeitamente capaz de matar alguém… e resolver o jantar ao mesmo tempo.

— As coisas ainda não fazem sentido pra mim. Conheço Fendrel como ninguém, nunca o vi daquele jeito…

O desabafo, entre goladas do líquido rosado, arrancou uma risada sincera do homem, que pegou alguns biscoitos.

— Perdeu algo engraçado na minha cara? Esguicho de água, idiota?

— Ei, ei! Olha o preconceito contra as fadas das marés, senhorita. — ele se ajeitou na cadeira. — Então você acha que conhece o Fenfen?

— Fenfen?

— Hum… o apelido que ele mais odeia no universo. Quer dizer… se a Verbena dissesse, acho que ele até latiria. Engraçado não saber disso. Mas não importa. Vocês, trovadores, gostam de uns jogos, não?

Pegou um pedaço de papel em uma gaveta próxima e uma pena. Incrível como comida não existia naquela cozinha… agora papel, tinta e joias amontoavam-se aos montes. Escreveu algumas coisas sem que a mulher pudesse ver, escondendo tudo com o dorso da mão.

— Três perguntas: comida, cor e perfume. — Balançou o papel nas mãos. — Conheço o canarinho há anos. Vamos, tente.

— Seus biscoitos de alga, vermelho e calêndula.

De tanta presunção, as mãozinhas delicadas pousaram na cintura, numa pose altiva. Vermelho era a cor de seus principais vestidos e de sua camisola preferida, que rendeu muitas noites interessantes. Calêndula com maracujá era o perfume que ele sempre elogiou. Por isso, Seryin se dava ao trabalho de preparar vários jarros de óleo, preferencialmente enchendo a paciência das fadas jardineiras para reservar uma parte do estoque dessas flores pra ela.

Com um dedo, Kollin arrastou a folha sobre a madeira até os olhos esmeralda dela.

“Biscoitos do Kollin, azul, jasmim.”

— Olha só… considerando que meus biscoitos são realmente famosos, essa aí era obrigação de qualquer fada acertar. Agora… um de três. Você não conhece nem as preferências dele…

— Espera, jasmim? Enlouqueceu? Não… ele me disse que odeia…

O silêncio, interrompido apenas pelo crec incômodo da torrada que Kollin levava à boca, anunciou enfim o retorno triunfal da lucidez da moça. Assim, né? Meio óbvio até. Quem mais tinha cabelos azuis e tomava banhos com brotos de jasmim todas as noites? Fendrel não odiava nem a cor, muito menos o cheiro. O trovador odiava lembrar do que não tinha coragem de conquistar.

— Ótimo… agora eu quero esganá-lo.

— Sinto dizer que …Talvez isso nunca passe. Eu, pessoalmente, já quis dar vários tabefes nele, mas… se Fen conseguiu me transformar em meio porquinho na adolescência mais de uma vez, quem dirá o que pode fazer agora.

Seryin era iniciante em toda aquela questão de coração partido. Na maioria das situações a parcimônia domou, com rédeas curtas, sua fúria, pois mulheres surtadas não eram nada elegantes. Mas naquele momento, o peito ardendo, sufocando, falava mais alto que qualquer coisa. Tudo fazia sentido e se encaixava perfeitamente no retrato da sua imbecilidade.

E de quem era a culpa?

Daquela fada das marés metida a besta que a Deusa decidiu que seria seu marido. Presunçoso, metendo seu nariz onde não era chamado. Até poderia não conhecer Fendrel como imaginava… mas sabia de algumas fofocas.

— Hum… imagino que uma das vezes que virou porquinho foi quando você e a Verbena, sabe… ficaram…

— Na verdade, dessa vez ele me transformou num…— Kollin travou. A caneca parou a poucos centímetros da boca; no limiar de transbordar — Peraí. Como você sabe disso?

— Fiquei curiosa. O que aquela mulher cheia de terra nos cabelos tem de tão interessante pros dois quererem ir pra cama com ela?

— Achei rude. E não é sobre isso, Seryin.

— Não é? Então por que parece exatamente isso?

Ela ergueu as sobrancelhas; sua voz subiu pelo menos dois tons. A raiva voltou a se acumular ao som do baque dos punhos da moça contra a mesa.

Já entrevendo seu futuro iminente, Kollin se permitiu um suspiro exausto ao passar a mão pelos cabelos, puxando-os para trás.

— E nem precisou de muito pra leoa voltar a rugir…

— Leoa? — Seryin se endireitou de súbito. A banqueta rangeu ao ser empurrada conforme se erguia. — Bruto estúpido! Pare de me provocar!

— Caramba, mulher… Chega de agir como se tudo fosse um ataque pessoal. Não é sobre a Verbena.

— Então é sobre o quê?

— É sobre um relacionamento fracassado que sempre foi puro interesse dos dois lados. Ele é um canalha, sim. Nunca neguei isso. Mas me diz uma coisa… se ele não tivesse um certo título… um título que você perdeu em duelo, o quê? Umas quatro vezes? Existiria interesse?

A mulher abriu a boca. Fechou. Passou a língua pelos lábios secos. Então deu um meio passo para trás. Queria fugir da situação, mas Kollin já dera meia volta e a encurralou ali mesmo. Somente com presença, nenhum toque, os braços escondidos atrás das costas.

— Seja sincera. Você queria ser esposa do Fendrel Azvir… ou do mestre dos bardos?

Sem dizer nada, seu olhar evitava o dele, em busca de qualquer outro lugar menos constrangedor e menos verdadeiro. Aquela mente, porém, sempre lhe ofertaria ótimas desculpas — ou melhor dizendo, alucinações — para justificar seus tropeços e tirá-la das piores dúvidas. Foi assim que, munida de uma confiança desmedida, a unha dela foi de encontro ao peito do homem, no mesmo instante em que bradava cheia de certeza:

— Já sei! Você está com inveja! Gosta de mim em segredo e me prendeu nesse casamento!

— Er…Como é? — a fada das marés até tombou a cabeça. — Agora fiquei confuso!

— Os biscoitos, essa conversa fiada, transformar Fendrel em canalha, se fazer de bonzinho. Saiba que não está funcionando!

— E lá vamos nós…

— Vai me dizer agora que é melhor na cama que um mestre trovador? Faça-me rir!

Kollin deixou o silêncio tomar conta do ambiente mais uma vez. Seus olhos estreitaram, o desafio brilhando nas pupilas negras. Existia ali uma garota que precisava aprender algumas lições. E vamos lá… a fera envolta em seda estava plenamente revigorada: de pé, bradando com toda a energia da garganta insultos gratuitos contra sua autoestima masculina.

Muito bem então… cordialidade encerrada por hoje.

— Sabe, leoa, seu ego poderia dar a volta no mundo de qualquer dimensão. Tudo vira um duelo.

Da repreensão veio mais uma aproximação; ele se inclinou até as testas quase se tocarem. Seryin engoliu em seco, mas estava longe de perder a postura.

— Então o quê? — ela sussurrou, desafiando com o queixo erguido. — Vai provar?

— Não. — Os dedos dele fecharam de leve na beirada da bancada, ao lado da moça. — Vou esperar você implorar por isso…

Com uma mistura de rosnado e ronronar felinos, o homem foi facilmente empurrado pelas frágeis e minúsculas mãozinhas dela. Seryin sacudiu as mechas prateadas, e um sorriso perverso curvou seus lábios enquanto piscava para Kollin, segundos antes de se afastar na direção da saída do casebre.

— Não se eu te fizer implorar primeiro.

E assim ela deixou pairando no ar o desafio, aromatizado pelo cheiro inconfundível de calêndula, com toques ácidos de maracujá.

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