Capitulo 23: Unidos por um cobertor Condenados a Voar · Capítulo 25 de 36
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Capitulo 23: Unidos por um cobertor

A noite caiu ligeira, e o céu se encheu de estrelas para iluminar o jantar dos aventureiros. O cardápio nada apetitoso — apelidado com carinho por Weisen de “é o que tem pra hoje” — cumpriu porcamente a missão de domar a fome. Verbena se arrependeu de não ter trazido alguns biscoitos do Kollin por precaução; seriam um bálsamo para seu estômago chateado.

Ao redor da fogueira, ouviu as incontáveis histórias da druida e de seu atual enteado. Sinceramente, sentia que Callindor deveria ser um ótimo reduto para os mais desbravadores. Para ela, porém, a paz de Alféria não se jogava fora, embora alguns moradores bastante mexeriqueiros a fizessem duvidar em certas ocasiões.

Por mais que os contos fossem exagerados o suficiente para se tornarem épicos, sua atenção diversas vezes pousava sobre o melhor amigo… esposo…marido...err..

Tanto faz.

Fendrel respondia, ria, gesticulava, tudo um pouco mais do que o normal. Sim, eles se afastaram nos últimos quatro anos, mas ela sabia muito bem quando o rapaz estava apenas se protegendo com a sua reluzente armadura de educação.

Precisava falar com ele.

Quando as conversas silenciaram e as tigelas ficaram vazias, todos guardaram os suprimentos e trocaram “boas noites” acalentadores. Verbena seguiu na direção da mochila em busca de seu kit de acampamento. Entretanto, em poucos segundos, sua sobrancelha franzida estampava perfeitamente a pura incredulidade.

Revirou a bolsa. Tirou tudo: poções, unguentos. Chegou ao limiar de quase enfiar a cabeça dentro da bagagem ao som de incontáveis resmungos repetindo:

— Ah. Ótimo!

Espiou o esposo, encostado numa árvore, entretido em alguma coisa no céu noturno. Aproximou-se e, assim que chamou sua atenção, foi direto ao ponto:

— Pergunta: quantos cobertores tem na sua mochila?

Completamente confuso, Fendrel puxou os próprios apetrechos e tirou de lá o único pedaço de pano disponível.

— Malditos! — Verbena explodiu. — Confiscaram a minha coberta?!

— Você já viajou em casal alguma vez? — Fen tapou a boca para esconder o sorriso. — Eles costumam cortar esse tipo de suprimento supérfluo. Mas fique tranquila… — o bardo atirou o tecido no rosto dela, arrancando um rosnado irritado da fada jardineira — Pode ficar. Eu compartilho com outra pessoa ou durmo só com a capa. Não é como se…

O que veio a seguir surpreenderia inclusive a toda poderosa deusa Freya: Verbena sentou na grama, encostou o braço no dele e esticou a manta, para cobrir os dois.

— “Durmo só com a capa”… deixa de ser besta…

— Bom...— o rapaz ponderou antes de continuar— se eu depender do seu sonambulismo, vou perder o cobertor de qualquer jeito.

— Como você sabe que… espera! — ela cruzou os braços e o encarou com o semblante mais ultrajado possível — Você estava acordado quando…

— Quando você deliberadamente, e vou reiterar pra deixar isso claro, por livre e espontânea vontade, derrubou uma barreira fofinha pra dormir em cima de mim? A resposta é sim, senhora.

As íris amendoadas piscando frenéticas foram incapazes de sustentar o jogo que aquele filho da mãe acabara de pôr em movimento. O olhar de Verbena caiu, tentando esconder o rubor que tomava conta até da ponta do nariz.

Queria perguntar por que ele não se afastou naquela noite… mas conhecia as duas possíveis respostas. A primeira: por medo de levar uma surra e, nesse caso, errado o homem não estava. A segunda… explicava muito bem a mão intrometida na sua cintura, que — ora, vejam só — havia retornado, sorrateira, naquele exato momento.

Mas ela não disse — nem fez — absolutamente nada sobre isso.

— Em minha defesa… — o canalha prosseguiu, pleníssimo, como se não estivesse desbravando um território arriscado — eu acordei só depois que já tinha sido atacado. Winky nem deu satisfações.

Por mais vergonhoso que fosse o cenário, Verbena soltou uma sonora risada. Ao mesmo tempo, Fendrel ousou tomar mais uma iniciativa: a trouxe para mais perto, num abraço, para repousar sua testa nos fios azuis dela. A respiração do trovador desacelerou com uma inspiração profunda.

— Fen, quer conversar?

— É engraçado… — as palavras dele faziam cócegas na raiz dos cabelos — você nem perguntou se está tudo bem.

— Porque sei que não está.

— Exato… — Um sopro de riso desengonçado escapou como claro sinal de exaustão. — É uma história infeliz… que merece um resumo tão infeliz quanto. Em poucas palavras: minha mãe foi amaldiçoada. Calíope diz que um sereiano apaixonado fez isso. — Os dedos dele apertaram bem de leve a cintura feminina. — Meu pai, louco pra achar a cura, deixou os filhos com uma velha maluca e… nunca voltou. Eis que… sobramos nós. — De relance, bisbilhotou a situação do irmão mais velho, completamente apagado na grama, no décimo segundo sono, com o cobertor escapando para o lado. — Dois canalhas… e um sobrinho inescrupuloso que tira o ganha-pão de mocinhas bonitas.

— Caramba, Fen… e você me deixava brincar sobre encantar sereias? Pela deusa… me sinto ridícula.

— Acha que é possivel… encantar uma sereia?

— Qual é… se tem alguém que conseguiria, é você.

Com um riso aliviado, ele apoiou de vez a cabeça nela. Verbena respondeu sem perceber, se aninhando no ombro dele. Fendrel podia insistir um tiquinho mais? Talvez. Evidente que existia uma tentação maluca em fazê-lo… Mas, o instante tão repleto de intimidade e o consolo daqueles fragmentos de afeto — que nunca imaginou que receberia — bastavam para silenciar os pensamentos que não lhe deram trégua o dia inteiro.

Não havia espaço para ingratidão.

Venceria o abismo… a passos curtos.

Já Verbena, estava exausta demais para entender ou racionalizar. Um fato simples tinha se provado na noite em que dormiram juntos: perto dele, a sonolência vinha fácil. Impossível se afastar da paz trazida pelo cheiro de flor de laranjeira nas roupas do trovador e pelo calor morno dos dedos subindo e descendo pela manga da blusa.

Depois… depois… pensaria nisso direito.

— Vêr?

— Hum?

— Obrigado por estar aqui.

A única resposta foi o silêncio cúmplice, docemente embalado pelo fechar das pálpebras cansadas, enfim rendidas ao carinho que não fazia mais questão de se esconder.

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