Capitulo 30: Baile das sombras
Dizem que as fadas, em tempos longínquos — antes da Deusa Freya botar ordem no caos de egoísmos — acasalaram com outras criaturas em busca de descendentes melhores. E, é lógico, para os trovadores, as lendas sempre acabavam nos mares de Callindor.
Existiam inúmeras pistas que apontavam para quem poderia ser filho do tal sereiano Velka: voz de canário, uma facilidade absurda de atrair qualquer criatura pra perto sem sequer levantar o polegar.
Menos a melhor amiga, claro.
Mas tinha mais uma coisa…
— Vocês são demônios! — o meio-elfo avançou e agarrou a borda da capa daquele que sorria descaradamente em resposta. — Vai pagar pelo que fez com a minha vida!
Weisen espiou Fendrel que erguia os braços em falsa rendição. No assoalho empoeirado, as sombras do mais novo e do arruaceiro se fundiram.
E lá vamos nós…
A condição foi satisfeita para que um certo poder ancestral dos Azvir emergisse. Num assobio curto do mestre dos bardos, seu espectro mergulhou na sombra do outro.
Em vão, os dedos do meio-elfo tentaram apertar o pescoço do alvo. Suas mãos simplesmente não obedeciam. Na verdade, fizeram o oposto: soltaram o trovador, que arqueou a sobrancelha em deboche.
— O que houve? Desistiu da vingança?
— Eu disse! São feiticeiros!
— No escuro de um quarto, não existem sombras… — Fendrel encostou no balcão. — Diga: “Eu, meio-elfo moribundo, nunca mereci mulher alguma.”
O pomo de adão do briguento subiu, desceu… tremeu no meio. Aquele “pobre coitado” — que tinha muito de pobre, mas absolutamente nada de coitado — lutava contra as palavras que rasgavam a garganta por dentro. Já a plateia observava cada detalhe, com músculos rígidos e respiração presa, temendo se tornar o próximo alvo de um Azvir.
— E-eu…
Muito próximo da humilhação completa do cidadão, a parede atrás do bar explodiu. Lascas das tábuas de madeira mofada voaram sobre os clientes. Do buraco, surgiu o irmão Twin, mordendo o que parecia ser o nó que atava suas mãos numa corda. Os olhos de todos os presentes o seguiram enquanto corria escada acima em direção ao segundo andar da estalagem que a Taverna dos Birutas oferecia.
— Merda… — Weisen praguejou, erguendo os braços. — Fendrel!
Não precisou de mais do que isso. O Azvir mais novo estalou a língua, e o meio-elfo baderneiro se virou contra outro sujeito, acertando-lhe um soco direto no queixo. Com o gatilho puxado, a confusão estourou de vez. Gritos preencheram o bar, que agora fervia em brigas acaloradas, ressentimentos antigos, traições e acertos de contas em jogos de cartas.
— Vai atrás da Verbena! — o mais velho gritou.
Um orc partiu para cima dele com uma alabarda, prensando-o contra o balcão. Weisen travou o cabo da arma, forçando espaço, então pisou no calcanhar do inimigo, que imediatamente caiu, urrando de dor.
— No telhado! — completou. — Fiquem no telhado!
— No telhado? — Fendrel perguntou, desviando de uma espada longa. Subiu no bar, prendeu a lâmina com o pé e a chutou para longe. Em seguida, desferiu um golpe seco no maxilar do agressor com cabedal da bota. O impacto reverberou pela perna. Escamas de dragão eram mais duras que o aço.
— Sério? — Weisen estalou os dedos, transformando um mangual em serpente antes que atingisse sua cabeça, o animal se enrolou no pescoço do cavaleiro que saiu aos berros. — Quer discutir o plano agora?
Sem resposta, o mestre dos bardos correu em direção às escadas, desviando dos ataques. Alguns gratuitos, outros nem tanto, até que um cidadão enorme se interpôs no caminho.
Fendrel não hesitou. Girou sob a primeira investida e lançou o cotovelo contra a nuca do bárbaro. O mundo do adversário girou, e foi tempo suficiente para o trovador escapar pela abertura no corredor.
— Que ideia estúpida… — murmurou.
Porta após porta, entre estrondos, rangidos, protestos e sons indecentes vindos de dentro dos quartos, uma imagem começava a se formar com clareza perturbadora: Verbena. Imóvel. Subjugada por dois gêmeos malucos.
Ela não teria chance contra duas fadas das marés. O feitiço do Weisen devia ter durado mais tempo
— Inferno!
A caminhada apressada virou corrida e o coração acompanhou o desespero.
— Se aquele filho da puta tocar nela…
Sim…ele botaria a taverna abaixo mesmo que isso significasse quebrar a lei de Alféria. Mesmo que significasse matar um dos seus.