Capítulo 07: O despertar Condenados a Voar · Capítulo 9 de 36
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Capítulo 07: O despertar

A floresta se adensava a cada passo.

Na escuridão, Verbena avançava com pés temerosos, o coração apertando sempre que uma sombra cruzava o canto da vista, pronta para ser mal interpretada. A umidade fazia as vestes grudarem ao corpo, e o calor incentivava o suor a escorrer pelo rosto enrubescido.

Onde estava?

Não sabia o que procurava, nem como fora parar ali. Mas algo dizia para seguir em frente. Por instinto, obedeceu, pois, qualquer desvio parecia levá-la a uma noite eterna, sufocada naquela selva estranha.

Foi então que um vulto nítido demais se ergueu à frente. A neblina pesada não ajudava; ainda assim, conseguiu delimitar uma silhueta conhecida: alta, imóvel, um instrumento às costas.

— Fen… drel.

Um fio de voz tímido escapou-lhe da garganta. Tentou avançar, mas as botas de couro alaranjado se prenderam num lamaçal traiçoeiro. O chão sugava suas pernas e, quanto mais se debatia, mais afundava.

Com os joelhos já submersos, um grito enfim emergiu arrancado da alma uma súplica desesperada pelo auxílio do amigo.

Mas a sombra não se moveu.

Outra surgiu ao lado: uma mulher de tranças longas, quadris que oscilavam num ritmo suave e melódico.

Seryn? Impossível saber…

Os olhos dela brilhavam como se o julgamento fosse certo. Com uma aproximação felina, tomou a mão do trovador, e as sombras se uniram de forma possessiva. Sem demora, os lábios da silhueta feminina desenharam um sorriso calmo e cruel, enquanto uma maldição ecoava pelo ar, vinda de lugar nenhum:

— Você não o merece…

Roçando a pele da cintura, a terra gelada anunciava a proximidade do fim. Aflita, Verbena voltou a pedir auxílio, balançando os braços para chamar atenção.

Fendrel sequer estendeu a mão. Apenas a olhava — distante, inalcançável — enquanto ela afundava. Não era só o chão que a prendia: algo dentro dela a puxava ainda mais fundo. Culpa? Medo?

Mas… medo de quê?

Talvez do olhar dele. Talvez da sombra ao lado. Ou… dela mesma.

Assustada e sozinha, Verbena, em sonho — ou melhor, em pesadelo — foi sendo tragada por um vazio simbólico: um abismo de desentendimentos, onde cada súplica ecoava em vão.

Felizmente, para seu acalento, segundos antes de submergir completamente, veio uma escuridão estranhamente calmante, pondo fim àquele sofrimento sonâmbulo. E o resto da noite passou sem mais fantasmas para assombrá-la. Aquele frio que a fizera se encolher sob as cobertas cedeu lugar a uma tranquilidade rara, e só acordou quando os primeiros raios de sol invadiram, impiedosos, o quarto pelas persianas recém-abertas por sua planta de estimação.

Ela soltou um resmungo insatisfeito. O corpo pedia por mais alguns minutos, pois não podia desperdiçar aquele milagre.

Quando foi a última vez que tivera um sono tão aconchegante?

Dengosa, sua mão deslizou sobre o que achava ser um travesseiro. Mas a textura era áspera demais…

Um pouco mais desperta, tateou até encontrar os limites do tecido. A suposta almofada era quente e subia e descia num ritmo de respiração. No mesmo instante, seus olhos se arregalaram, pois a situação ficou clara. Assustadoramente clara.

Como ela foi parar em cima dele?

Tentou se levantar com cuidado, os pulmões sufocando um grito que não queria soltar para não acordá-lo. Mas foi puxada de volta, presa por um aperto firme na cintura. Os dedos mornos do trovador deslizaram por sua camisola e se embrenharam na seda sem qualquer pudor, o pano enrugando até a região dos seus quadris..

Verbena sentiu as bochechas esquentando; a vergonha borbulhava no estômago como um bule de chá fervente. Com movimentos receosos, ergueu a vista até o rosto de Fendrel.

Por favor, esteja dormindo.

Para seu alívio, ele estava em sono profundo, os lábios entreabertos, murmurando palavras indecifráveis. Num movimento preguiçoso, sua cabeça tombou para o lado, e os fios vermelhos acompanharam o movimento, cobrindo parcialmente os olhos dele. Um retrato engraçado, até infantil, mas irritantemente bonito…

Se não estivesse naquela porcaria de situação, ela acharia a cena fofa. Mas tudo o que conseguia pensar era em como diabos aquela mão fora parar em sua cintura!

— Winky… — murmurou, e no mesmo instante um dos galhos da samambaia apareceu perto de sua face. — Por que eu estou do lado dele da cama?

Nenhuma resposta.

Verbena por pouco não soltou um rosnado, mas levou a mão à boca antes que o impulso impensado escapasse. Contou um… dois… três… numa busca desesperada por controle antes de prosseguir:

— Me ajude, caramba…

O tom era um misto de desespero e apreensão, pois a possibilidade de vê-lo despertar enlouquecia seus nervos.

O que diria? Como justificar aquilo?

A sorte era que Fendrel provavelmente não percebera a aproximação, tratando-a da mesma forma: um travesseiro aconchegante. Sinceramente, não seria uma grande revelação se a própria Deusa tivesse realizado esse “milagre”.

Verbena se sentia uma marionete num show de comédia romântica. Um personagem condenado a viver um destino irônico só para satisfazer o prazer doentio de uma bonequinha de porcelana com asas cintilantes e sorriso encantador que ousava se chamar de deusa.

Em qual momento disseram que essa mulher podia sair mandando na vida dos outros?

Então um lapso de possibilidades surgiu em sua mente até formarem uma ideia para sair daquele enlace vergonhoso. Apontou para a samambaia, chamando sua atenção, e fez gestos com os dedos para elaborarem juntas uma resolução. Era uma estratégia arriscada, mas melhor do que morrer de ansiedade ao lado dele.

Foi necessário apenas um manear breve de cabeça para iniciarem o plano mirabolante.

Com o braço livre, a moça estendeu-se para trás com dificuldade, pois Fendrel ainda a segurava. Num esforçou absurdo, agarrou um dos travesseiros da muralha em ruínas. Winky, por sua vez, seguiu as ordens da dona e, sorrateiramente, um de seus galhos fez cócegas no nariz do bardo.

Verbena estava petrificada. Durante sua espera interminável, respirar virou uma relíquia que não ousou desperdiçar. E mentalmente se pegou rezando para que ele não acordasse só com isso.

Mas aí que está… rezar pra quem? Pra Deusa?

Talvez mais por sorte do que por estratégia, o aperto na cintura afrouxou. Sem perder tempo e com movimentos dignos de um ladino, ela rolou para o lado oposto e pôs a almofada em seu lugar. O trovador soltou um grunhido irritado, coçando a região afetada, e logo depois girou, abraçando o substituto.

O ar finalmente conseguiu sair, com o tórax de Verbena relaxando dolorido. Ela se ajeitou na cama, encarando o resultado. Engoliu em seco ao constatar que, se não tivesse saído a tempo, estaria, neste exato momento, completamente presa em um abraço apertado.

De repente, uma situação estranha passou pela mente dela. Sugestões de outras mulheres que já estiveram na mesma situação. Só que… por quererem estar.

Não entendia direito a sensação que aquilo lhe causava. Muito menos era capaz de arranjar justificativas para a vontade estranha de puxar aquelas mocinhas atrevidas pelos cabelos.

E conhecendo Fendrel… não foram poucas.

Balançou a cabeça, na tentativa de afastar aqueles sentimentos confusos. Não iria chegar a lugar nenhum esquentando os miolos com essas questões logo pela manhã. Sair dali era a melhor opção.

Cautelosa, Verbena moveu-se até a borda da cama. Cada ranger das molas a deixava tensa, contraindo os músculos e encarando o homem que, graças à Deusa —ou não— ainda insistia em entregar-se ao mundo dos sonhos. Enfim, quando seus pés alcançaram as tábuas frias de madeira do chão, um suspiro aliviado saiu louvando a missão quase impossível que acabara de performar.

Abriu a porta do quarto com extrema delicadeza, cuidando do silêncio como se fosse um filho prestes a berrar por qualquer desvio. Assim que uma fresta suficiente apareceu, passou por ela. Mas antes de se despedir do cômodo, espiou Fendrel mais uma vez. A lembrança quente do toque acidental dele ainda reverberava pela pele, pelos sentidos, pelo coração inquieto que palpitava, tentando alertá-la sobre alguma coisa.

Porém, para o lamento de todos, inclusive de Fendrel, ela escolheu a solução que, por anos, guiara suas atitudes para com o amigo: iria fingir que nada aconteceu.

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