Capítulo 12: Efeitos colaterais
— Fen… esta tudo bem?
A lembrança foi demolida pela voz de Verbena. Ela riu da reação do trovador, que se virou assustado como se tivesse cometido o pior dos delitos. Ao reconhecê-la, respirou fundo, a mão pressionando o peito numa tentativa desesperada de conter o coração que ameaçava escapar em disparada.
— Caramba! Virei um fantasma agora? — brincou, os punhos apoiados na cintura. Uma bolsinha de pano balançava pendurada no ombro esquerdo.
— Não, quer dizer… achei que fosse a Seryin…
Mesmo assim, para Fendrel momento exigia cautela. Depois daquela magia, parecia mais seguro ficar sozinho.
Parecia? Não. Definitivamente, era mais seguro!
Existiam consequências em usar uma técnica desse tipo. Três, pra ser exato, e nenhuma delas era confortável. Fazer alguém desmaiar… nada mais justo que cobrar um preço.
— Nunca vi você bravo daquele jeito — Verbena se sentou ao lado dele. A grama chiou sob seu peso. Cruzou as pernas, mexeu na bolsa como se guardasse um mundo inteiro ali dentro e tirou duas trouxinhas de folhas. Entregou uma. — Aqui bolinhos de hortelã e camomila. Um pedido de desculpas pela minha…bem...vamos chamar de indisciplina emocional.
Ele aceitou com um sorriso morno.
Vejam só, um canalha premiado com bolinhos!
— Olha, não vou mentir: você foi um grande idiota com ela— Verbena movia os dedos calmamente, acariciando um dos joelhos em círculos mal desenhados. — E, longe de te defender, mas sempre achei Seryin intensa demais…
— Hum...— resmungou Fendrel, dando uma grande mordida no bolinho.
O sabor explodiu em sua boca. Ridiculamente doce. A saliva correu para diluir o gosto nas bochechas que imploraram por uma careta.
Eis o primeiro efeito colateral: paladar ultrassensível.
Engoliu rápido, tentando ignorar e continuou:
— Disse a moça que cria árvores para separar seus pretendentes.
Verbena deu um soquinho inocente no ombro do rapaz antes de depositar sua atenção no desembrulhar do próprio doce. Fendrel, em desespero, mordeu o lábio inferior, prendendo um grunhido e, discretamente, massageou o local lesionado.
Pontadas de dor percorriam seus nervos feito agulhas fervendo em brasa. O segundo efeito, irritava, mas até que conseguia sobreviver aos músculos frágeis como vidro.
A moça — graça aos deuses — nem notou seu sofrimento mudo, os olhos percorrendo aleatoriamente os cantos da clareira. Seus pensamentos voavam ao som dos grilos, as preocupações pairando para bem longe. Então soltou, quase sem pensar:
— Sabe… pelo menos existem vantagens em ter você como “marido”. Aqueles caras nunca vão me irritar de novo, não depois do que aconteceu hoje e…
Parou, deixando a frase suspensa. Fendrel arqueou a sobrancelha, a curiosidade transbordando incontrolável do peito, anestesiando até mesmo o incômodo no braço que ainda pulsava, mas que agora, de alguma forma, não importava tanto assim.
— E…? — provocou, limpando o açúcar dos lábios com o polegar.
A pausa teatral que se seguiu parecia anunciar uma revelação. Com uma insistência avassaladora, a esperança voltou a atormentá-lo: uma tempestade de possibilidades que talvez oferecesse a ele uma pista de que tinha chances.
Será que ela finalmente…
— E viver com o melhor amigo não é tão ruim. Talvez a Deusa nos uniu porque morreríamos sozinhos, já que não amamos ninguém.
O mundo desabou. O bardo jurou ter ouvido o baque seco dos cacos de sua estupidez se espalhando pela grama úmida em algum lugar bem próximo.
Iludido. Não havia palavra melhor.
Um riso curto e amargo foi a melhor reação que conseguiu. Mas Verbena, como sempre, estava distraída com outra coisa. Quem roubava sua atenção desta vez era um pássaro que batia as asas todo galanteador pelas árvores. O animal piava desafinado, dançando ao redor dos galhos até mergulhar no laguinho e empoleirar-se numa pedra, balançando as penas molhadas e o bico miúdo, só para arrancar suspiros de encanto da jovem que o observava.
Fendrel quase rosnou, mas o ruído ficou preso nos dentes cerrados.
Maravilha! Lá estava ele, invejando um passarinho.
Qualquer verso que tentasse compor naquele instante sairia amargo demais para ser chamado de canção. Se bem que também existiam boas músicas sobre frustração. Considerava Madame Calíope mestre no assunto.
Mas esse não era o seu estilo.
Espiou a moça pelo canto da vista. Uma migalha atrevida decidiu permanecer no canto dos lábios dela como um convite silencioso. Sua mão ergueu-se, hesitante, quase tocando sua face. Mas parou no meio do caminho.
A covardia, velha companheira, o dominou por completo.
Com Verbena, qualquer avanço era um abismo.
— Desde quando você coloca o povo pra dormir?
— Três anos.
A resposta direta, carente das familiares graçinhas, estranhou a moça que estreitou os olhos na direção do trovador. O outro fingia ignorância, pois acabara de perceber o perigo absurdo do terceiro efeito colateral.
— Fen… você não usou isso pra…
— O quê? — ele massageou as têmporas transtornado — Não! Caramba, Vêr… Acha mesmo que eu faria algo assim?
— Não acho que precise. Mas… vai saber — deu de ombros. — E se um dia usou com más intenções, eu já estava pronta para lhe dar uma lição.
Fendrel riu, ciente sobre os “castigos" nada gentis de Verbena. Ele já sofrera alguns, pelos mais diversos motivos. O principal aprendizado? Flores, galhos e samambaias podiam ser muito assustadores nas mãos de uma fada jardineira.
Acredite...muito assustadores mesmo!
— Não é tão simples assim — disse antes de ajeitar a franja avermelhada — existem critérios de ativação e um preço a se pagar.
Quando encarou a esposa, percebeu que ganhara sua atenção total, os olhos de obsidiana fixos nele. Verbena tinha uma curiosidade impressionante quando o assunto era poderes mágicos e, sinceramente, sua rivalidade em ser mais interessante que aquele passarinho convencido valia a exposição.
— Um deles é o contato físico. Outro… é pensar o mais próximo possível do que a pessoa está pensando.
— E o que a Seryin estava pensando?
— Que você é uma vaga…
Fendrel tapou a boca imediatamente.
Droga…
Ali estava ele, o terceiro efeito colateral e o mais temido, pelo menos naquele momento: sinceridade desenfreada. Ou, como Kollin apelidara carinhosamente: sincericídio. Foi assim que aquela fada das marés — um sem-vergonha sem escrúpulos — descobriu quem o trovador amava. Felizmente, ele manteve o segredo e até se afastou de Verbena.
Embora Fendrel nunca lhe tivesse pedido isso.
Na verdade, até aceitaria que Kollin e Verbena se apaixonassem. Almas parecidas, menos confusão. Sem Verbena estapeando seu coração com suas esquivas e negações. E sem Seryin com aquele escândalo, xingando até a décima geração de bardos da sua família — e a própria Deusa — em vários idiomas: anão, gremlin, fada, élfico e algo que Fen foi incapaz de identificar se era orc ou gigante.
— Fique tranquilo, eu não ligo… — suspirou a moça. — Ela nunca foi muito com a minha cara. Mas, na hora de pedir pétalas de lírio, sempre aparecia na estufa toda fofinha. E ainda se gabava de ter colhido cada uma! Dá para acreditar? Seryin, com aquelas mãozinhas aveludadas e unhas longas, cuidadosamente pintadas, segurando um jarro de terra?
Ela riu sozinha com a lembrança da formosura em pessoa torcendo o nariz para uma lesma alada que pulou do vaso naquele dia. Fendrel apenas observava, engolindo junto com o silêncio a vontade ardendo na língua de dizer quem, de fato, ele queria ver com os cabelos adornados de flores.
A palavra sincericídio caía bem demais… Kollin maldito!
— Hum… — Verbena soltou um resmungo, pousando o queixo entre os joelhos — Você comentou sobre um preço… Qual é?
— São três efeitos colaterais.
De imediato, Fen mordeu a própria língua. Em três anos usando aquela habilidade apenas em missões e emergências — que foram muitas, para seu gosto —, aprendeu sagazmente que verdades não precisam vir com explicações extensas.
Mas Verbena não ficaria satisfeita…
— E eu posso saber?
— Poder, pode, mas eu não quero contar.
Ouviu-a bufar e esfregar as botas na grama com sonora indignação.
— Desde que virou chefe dos bardos não me conta nada! — assim que Verbena o viu franzir as sobrancelhas em confusão continuou: — Quer um exemplo? Aposto que foi você e o Kollin que encheram a casa da Pharvati com aquelas bombinhas de faíscas depois dela espalhar que eu era uma metida.
— Pharvati era maluca. A gente só quis dar um castigo contra aquela cobra vestida de fada e…
Silêncio. Então o som da testa do trovador sendo estapeada por ele mesmo ecoou pela clareira, junto a um rosnado inconformado. Mereceu o autoflagelo, pois a dor não era maior que o sentimento de burrice que se apoderava dele.
— Ah! — ela estalou os dedos — Então não pode mentir! Por quanto tempo?
— Não sei…talvez umas quatro horas… Ai!
Ela esbarrou na perna do rapaz sem querer.
— Não acredito. Você fica fraco?
— Dolorido, não fraco.
— Ok, desculpe atentar contra sua masculinidade frágil. — disse, acariciando o joelho dele. — E o último?
— Paladar sensível.
Verbena soltou um suspiro manhoso e se espreguiçou, esticando os braços pro alto.
— Nhé… esse aí achei mais ou menos… vamos voltar para a parte da sinceridade, gostei dessa aí!
Fendrel engoliu em seco quando a moça inclinou-se na direção de seu rosto.
Próximo demais...
Que bela provação lhe impusera a Deusa: calar-se até fossilizar feito uma estátua no jardim ou tombar pela própria língua e sucumbir à sinceridade diante da melhor amiga. Pois, se ela ousasse fazer a pergunta certa, nenhum poder divino o livraria da confissão de que a amava com todas as forças.