Capítulo 22: Fofocas paralelas Condenados a Voar · Capítulo 24 de 36
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Capítulo 22: Fofocas paralelas

— Então Yvo virou um rei?! — Fendrel resmungou, cutucando com uma colher de madeira alguma coisa numa grande panela de ferro, aquecida pelo fogo recém-instalado.

— Minha esposa era princesa de Higmong… — Weisen estava sentado num tronco à esquerda. Com uma faca na mão, descascava legumes e os jogava dentro do caldo insosso. O arranhar da lâmina meio cega acompanhava o silêncio longo e proposital. — E a doença que ela tinha era hereditária. Yvo surgiu como o mais próximo para manter a linhagem, mesmo sendo filho de um… como o meu maldito cunhado disse naquela época? — estreitou os olhos, forçando lembranças que pareciam ter acontecido milênios atrás — Ah, é: “um charlatão devasso mentiroso”…

O mestre dos bardos riu, mais como uma cortesia bem disfarçada, pois sua cabeça divagava sobre problemas além da conta. Asas, sereias… a porcaria do sobrinho.

Sua mente estava definitivamente proibida de descansar.

Mesmo assim, se esforçou para evitar que o irmão entrasse num monólogo:

— Entendi…A velha história da pobre garotinha virgem sequestrada pelo artista vagabundo.

— Se o povo dessa dimensão não prendesse mulheres em castelos, como bonequinhas frágeis de porcelana… — o mais velho bufou, voltando a cortar batatas — Na verdade, eu até gosto de ver quando esse caos acontece. Só que… vamos esquecer a minha porcaria de vida por um instante e focar em outros assuntos…

Weisen observou, de forma discreta, as três mulheres do grupo se afastarem, embrenhando-se no mato alto da floresta, para reconhecer o território e à procura de lenha para mantê-los aquecidos. Complicado, mas nesses tempos de aventureiro ele aprendeu que existiam até tipos diferentes de troncos. Alguns demoravam mais para queimar, outros soltavam fumaça demais e , não satisfeita a natureza criou exemplares tóxicas o suficiente para matar cavaleiros descuidados.

Toda uma ciência só para acender uma fogueira naquele lugar.

Enfim… se havia alguém capaz de realizar aquela análise com destreza, eram uma druida das florestas e uma fada jardineira. Já Priscilla? A moça deve ter ido atrás por pura curiosidade, ser enxerida era um defeito e uma qualidade dela desde a juventude.

Assim que as sombras desapareceram entre as árvores e o burburinho das risadinhas morreu, ele voltou o olhar para o mais novo.

— Antes de te dizer que eu avisei, minha pergunta é simples: teve barraco? — com um sorriso debochado, meneou a cabeça na direção da imensa capa, já cheia de folhas secas e lama presas à barra — E, pelo jeito… alguém aqui descobriu que a deusa não perdoa.

— Como você…achei que elas ficassem invisíveis…

— Elas ficam. Mas o seu amor pela Verver sempre foi mais barulhento do que qualquer feitiço. Menos pra ela… e pra coitada da Seryin. Eu queria saber como duas pessoas conseguem se enganar tanto. — girou a faca entre os dedos, depois cortou um pedaço da cenoura e levou à boca. Ainda mastigando, continuou: — Agora… a fofoca completa, Fenfen. Estou esperando!

(...)

— Então você e aquele bonitão são noivos?

— Casados.

Verbena deixou que as palavras saíssem sem freio. Mais um dos milhões de impulsos naquele dia que ela não queria compreender. Em segundos, sua frustração se traduziu em afastar troncos e raízes com uma grosseria cautelosamente contida para disfarçar ao máximo.

Não era hora de pensar nisso!

A situação parecia bem séria. Fendrel seguiu quieto, insuportavelmente imerso nas próprias tempestades, pela trilha inteira até pararem para acampar . E ela, que sempre fora tão decidida, permaneceu atrás do comboio, se perguntando se deveria ou não puxar algum assunto.

Desde quando sentia vergonha de conversar com o melhor amigo?

Independente de casamento ou qualquer outra questão, queria saber o que se passava. Queria estar perto, entender, talvez até ajudar. Claro que não poderia dançar nem contar com a erudição da diplomacia, mas, se a situação exigisse punhos e teimosia, tiraria de letra.

Talvez Seryin ou Kollin soubessem o que fazer.

Sentiu alguém cutucar a manga da sua blusa. Olhou para o lado e viu Priscilla soltando resmungos fofos, nitidamente em busca de atenção.

— Desculpa, o que foi?

A trovadora muda apontou para a própria garganta, depois para a da fada. Em seguida, pegou a harpa na cintura e esboçou um acorde.

— Ainda estou aprendendo a interpretar — a druida parou e observou a mímica enquanto coçava a própria cabeça — Acho que ela quer saber se você é cantora.

Pulinhos e um meneio frenético confirmaram que os instintos de Verna estavam corretos. A pergunta não pretendia ofender, só queria amansar uma abedulhice juvenil. Mesmo assim, o comentário lembrou Verbena do quão insuficiente poderia ser nas artes e em toda aquela missão de família.

— Se eu cantasse, seus ouvidos doeriam — soltou algumas risadas desconfortáveis, encarando as duas lindas safiras que ocupavam o olhar curioso da nova amiga — Sou uma fada jardineira. Nunca viu uma, né? Aqui… deixa eu te mostrar.

Pegou algumas sementes da bolsa e aproximou-as do pulso da mais nova. Uma teia de flores nasceu, ziguezagueando pelo braço da jovem para formar um bracelete natural com um misto de ipês amarelos e azuis florescendo em cada canto.

— Não é muita coisa… nós fazemos fármacos e…

A salva de palmas das outras duas interromperam o momento autodepreciativo.

— Quero um desses! Até que enfim alguém que não saiba só ficar cantarolando por aí! — a druida comentou ao mesmo tempo em que se agachava para recolher alguns gravetos— Weisen tinha me dito que normalmente o irmão dele aparecia ou com um garoto musculoso carrancudo ou com uma mulher trovadora com nojinho de terra. Os deuses nos abençoaram com você.

Verbena não sabia bem como responder. Limitou-se a retribuir com um sorriso sincero, que enfim parecia carregar a possibilidade de ser útil naquele caos.

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