Capitulo 28: Cada um com suas cicatrizes. Condenados a Voar · Capítulo 30 de 36
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Capitulo 28: Cada um com suas cicatrizes.

Quando se é criança, absorvemos as bordoadas do entorno. Só depois, bem mais maduros — calejados pelas mazelas da vida —, voltamos e percebemos que… aquela briga, as vozes alteradas, as palavras ácidas… nada daquilo foi normal.

Não deveria ser normal.

Era uma noite chuvosa em Alféria. O trovão rugiu contra a janela e Weisen, com uns 8 anos de idade, pulou da cama, assustado. Seu movimento abrupto, por sorte, não acordou o mais novo, que ainda dormia sossegado, babando e roncando no travesseiro com metade de seu tamanho. Suspirou aliviado, pensando em como o choro de Fendrel poderia ter lhe rendido um safanão doloroso.

Ergueu as cobertas e deu um pulo, encontrando as tábuas geladas de cedro do chão. Caminhou com passos mudos até a porta e, devagarinho, saiu por uma fresta entreaberta. O quarto dos pais ficava na curva do corredor, mas as vozes deles não vinham de lá. Elas ressoavam junto à tempestade e pareciam fluir do escritório no andar de baixo.

A curiosidade infantil levou o menino a descer as escadas, passar pela antessala e encostar o ouvido na madeira que o separava do cômodo em questão. Sinceramente, se o Weisen do futuro pudesse de alguma forma impedir a própria inocência, teria feito isso sem pestanejar.

— Está de sacanagem comigo, Merida?!

A voz do pai explodiu. Considerando o pouco que lembrava, aquela cadência que tropeçava, sofrida nas sílabas, significava uma única coisa: o desgraçado estava entupido de hidromel até as orelhas. É lógico que… a criança nunca entenderia isso de primeira. Um adulto revivendo as dores, no entanto…

— Korvus, eu preciso ir ajudá-los, eles…

Algo se estilhaçou no chão, e o pequeno fuxiqueiro tapou a boca, freando o grito. Seus olhos obsidianos espiaram pela fechadura. Por todo o tapete estavam espalhados fragmentos do que parecia ser um espelho. Sua mãe, com as mechas carmesim presas num rabo de cavalo baixo, ajoelhou-se para recolher os restos. O rosto inchado e as olheiras pesadas denunciavam uma briga que se estendia havia horas.

— Querido, você não entende, Velka só…

— Ele só o quê? Me enganou? Me traiu? Acha que não sei sobre “nosso” filho?

As aspas performadas no ar com os dedos fizeram Merida se levantar num súbito ímpeto, jogando os cacos de volta ao chão. Seus punhos cerrados talvez fossem a última barreira de controle da própria fúria.

— Torça essa língua! O que quer dizer com isso?

— Você é espertinha o suficiente pra entender. Eu que fui muito burro mesmo…

— Ele é seu filho, mas você não merece essa família, muito menos nosso nome.

— Ah! Claro, sua mãe já me disse isso várias vezes. — Korvus andava de um lado para o outro; suas mãos buscavam consolo massageando os ombros, mas havia tudo menos paciência por ali. — Quer saber? Está infeliz? Por que não some então? Vá viver com seu querido rabinho de peixe, inclusive, pode levar o suposto bastardin…

O estalo ricocheteou tão alto que as lascas de madeira da porta tremeram inquietas sob a tensão do vínculo desfeito. Korvus levou a palma à bochecha, incrédulo; a marca dos anéis de Merida estava desenhada na pele. Weisen deu dois passos para trás, três, quatro, no quinto já corria de volta ao quarto, acompanhado pelas últimas palavras aflitas da mãe:

— Maldita seja a Deusa Freya por me unir a um maluco como você!

(...)

— Por conta da casa, Weisen, querido.

A taverneira, com sorriso descarado, pousou uma grande caneca de madeira na frente do trovador, que acenou em agradecimento. Em um gole, metade do líquido foi sorvido, e as lembranças anestesiaram por tempo indeterminado.

As dúvidas, porém… essas daí só aumentavam a cada gota.

Observou a pista de dança. Priscilla e Verna dançavam animadas uma melodia folclórica de Higmong que, curiosamente — ou não —, se assemelhava muito a uma cantiga de roda para crianças de Alféria darem seus primeiros rodopios. As coincidências, naquela altura do campeonato, já deixaram de ser mero acaso… vivendo em Callindor… o tempo se acumulara o suficiente para cansar de evitar a verdade, por mais indigesta que fosse.

Deveria contar pro Fendrel? Não…

A mente do coitado estava lotada com os próprios problemas. Também não existia garantia de que aquela empreitada maluca na busca pela voz de Priscilla fosse oferecer qualquer luz sobre um assunto que ele resolveu desenterrar, por uma iniciativa bem egoísta, anos depois.

E, para derrubar esses pensamentos turbulentos, Fendrel reapareceu, entrando no bar com a touca da capa cobrindo a cabeça por completo, olhos no chão, passos apressados que logo o direcionaram a um banco ao lado do irmão.

— Achei que vocês não tinham ouvido o meu…

— Zen… por que não contou?

Weisen quase engasgou com o último fio de cerveja.

Como assim? O que ele sabia? Quem contou a ele?

O sangue subiu nervoso, e os dedos chegaram a tremer por breves instantes antes de agarrar firme a alça da caneca e, desengonçadamente, pedir mais uma rodada.

— Do que esta falando?

— As asas, merda! Elas aparecem quando…

— Ah! — o suspiro aliviado veio junto com a palma batendo contra a perna — não é sempre, Fenfen, só quando você estiver muito… — parou e espiou por debaixo da capa do mais novo: as asas iam e voltavam como um vagalume destrambelhado. Desta vez, o riso irrompeu garganta afora, e demorou bons minutos para se recompor, sendo assistido todo esse tempo pela careta emburrada do mestre dos bardos — bom, nesse caso, sim… principalmente no início, o feitiço pode falhar. É daí que vêm aquelas ideias malucas do pessoal contra a Freya… acreditam que nascemos com asas, mas a Deusa as esconde. Sem ela, não existe feitiço e, teoricamente, temos liberdade pra destruir corações, arranjando casamentos infelizes por aí.

Viu Fendrel deixar a cabeça cair sobre o balcão; o punho fechado socava a mesa várias vezes.

— Já pensou em contar pra ela? — Weisen pensou melhor no que disse, ao som dos resmungos abafados pela madeira do outro Azvir e como se pudesse traduzir o ruído em significado chegou numa conclusão — uhum… entendi… não sabemos como Verbena reagiria. Neste caso, irmãozinho…

Pediu um copo de água para a taverneira e, assim que a bebida chegou, tirou o capuz do mais novo, vertendo o líquido na cabeça dele.

— Pela deusa, Zen! — Fendrel ergueu o tronco num ímpeto e, por pouco, não caiu do banquinho. Ainda assustado, balançou as mechas ruivas encharcadas e encarou o irmão mais velho em choque. — Pra que isso?

— Questione meus métodos, não meus resultados! — Weisen ergueu a capa — Viu? Sumiram, mas eu sugiro que faça aquela mulher te amar logo. Vamos combinar, né? Você não tem o menor controle perto dela, seu grande safado.

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