Capitulo 33: Confidência às Luminusas Condenados a Voar · Capítulo 35 de 36
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Capitulo 33: Confidência às Luminusas

O dia passou cheio de afazeres: preparar poções de cura, encantar runas de fortalecimento e afinar as cordas gastas dos alaúdes.

Após horas de trabalho, com as pernas clamando por descanso, todos arrumaram um canto para se sentar, banhados pelo sol que se escondia ao longe. Só que, para o desespero dos nossos viajantes, Weisen aproveitou aquela reunião para revisar mais de vinte vezes o brilhante plano apelidado despretensiosamente de “O Desencanto da Sereia”.

Verna e Priscilla ficaram próximas à fogueira onde Weisen preparava a goroba que seria o jantar. Isso sem parar um segundo só para fechar a matraca! Verbena, abençoadamente mais afastada, estava a ponto de gritar por socorro quando, no arbusto logo atrás dela, alguém a cutucou.

Ao se virar, Fendrel estava lá, um dedo pousado sobre os lábios. Ela obedeceu, permanecendo em silêncio e o seguiu mata adentro.

Não conversaram nadinha desde que armaram acampamento. Bem, não era pra menos, pois ela enfiou a porrada nele por motivos oníricos.

O rapaz ia na frente, desviando dos galhos com uma facilidade de dar inveja. Um deles ricocheteou e por pouco não atingiu em cheio o nariz da fada jardineira.

— Ei!

Ele riu, finalmente parando a marcha.

— Desculpa, Vêr. Foi sem querer.

— Ah, sei. — A moça decidiu aproveitar o momento para quebrar o constrangimento que viveram o dia todo. — Quer se vingar, Tô vendo isso aí!

— Você não sabe como os bardos se vingam, né? — Ele se aproximou um pouco e cutucou a testa da amiga. — Mexer aqui é bem mais eficiente.

É… nisso Fen tinha razão. O sujeito nem estava tentando nada contra ela e já infestava seus sonhos e pensamentos.

— E, se eu quisesse vingança, o galho seria maior… também o teria transformado numa cobra.

Ao mesmo tempo em que formulava uma resposta, a fada jardineira foi puxada para a direita e seguiram andando

— Então, precisou de quanto tempo pra desistir daquele monólogo do seu irmão e criar uma ilusão sua?

O trovador soltou uma gargalhada

— Foi depois da terceira explicação, quando ele quis discursar sobre a petulância de juntar seios com rabos de peixe. Tenho apreço pelos meus ouvidos.

Pararam de frente para uma enorme montanha rochosa. Verbena não escondeu a decepção, cruzando os braços e tombando a cabeça pro lado.

— Me arrastou pela mata para ver um buraquinho numa pedra?

— Uau, alguém julga pelo tamanho. Muito feio, dona Auralis. — Fendrel se adiantou para fugir do soco repreensivo. — Continua me seguindo.

O bardo se agachou e desapareceu, engatinhando rápido pela fenda, impedindo que a amiga pudesse segurá-lo pelos pés. Com um resmungo baixinho, Verbena o acompanhou.

Os primeiros centímetros foram bem apertados. A rocha era fria e úmida, e o cheiro de terra gradativamente dava lugar ao de água corrente.

— Espero que isso valha a pena… — murmurou.

— Vai por mim.

A passagem começou a se alargar. O teto subiu e o ar ficou agradavelmente mais fresco. Então, seu suposto marido soltou um daqueles assovios bem melódicos.

Um brilho azulado escapou da curva à frente, pulsando suave no ritmo da canção assobiada. Quando ele parou, o eco continuou a mimetizá-la.

— Certo! Chegamos! Reclama agora sobre tamanho da entrada. Preconceituosa!

Assim que contornaram a última parede de pedra, Verbena parou no mesmo instante.

Fantástico!

Um lago cristalino ocupava toda a gruta, refletindo milhares de pequenos pontos de luz que flutuavam poucos milímetros acima da superfície. As criaturas translúcidas lembravam águas-vivas e pulsavam em diferentes cores. Sempre que uma delas tocava a água ou uma pedra polida da margem, uma nota cristalina se espalhava pela atmosfera. A caverna parecia um enorme palco, com cores e notas em busca da harmonia.— Eu… nunca vi nada assim.

Fendrel observou a reação dela mais do que a própria paisagem. Se ia contar, que pelo menos fosse com uma vista deslumbrante como essa.

— Eu sabia que você ia gostar.

— O que são elas?

— Luminusas. Ninguém sabe direito por que saem da água. Talvez queiram ensinar alguma coisa? Os sereianos treinam com elas.

Estalou os dedos, e seu alaúde apareceu no ar para, no segundo seguinte, se transformar no famoso violino.

— Por que não deixa sempre em forma de violino?

— Você sabe mais do que ninguém por quê…Dona Auralis.

— Hum… preservar a história de Lianna e Midran. Aquele dia foi épico.

— E estamos em outra aventura, anos depois, tentando domar uma sereia.

Com o arco, tocou algumas notas, e o instrumento levitou ao lado deles, dando conta da canção por conta própria para manter as luminusas em constante coreografia.

— Você está nervoso? Sabe, o seu plano e do Weisen é no mínimo impossível.

— Nervoso? — uma risadinha curta puxou o canto esquerdo dos lábios do trovador— Estou em pânico. Mas não é só pela sereia.

Fendrel observou a expressão confusa da amiga. Complicado… ela não viu as asas naquela noite, mas, honestamente, queria que tivesse visto. Estava cansado daquele lenga lenga.

Seja lá o que essa missão trouxesse, precisava deixar uma coisa clara.

— Vêr, quero esclarecer uma coisa. Eu…

Foi interrompido pelo alvo da conversa, que estendeu a mão para ele armada de um sorriso lindo e brincalhão.

— Como sua melhor amiga, te concedo uma dança para tentar te desestressar com a minha falta completa de equilíbrio. Só não faço a menor ideia de como dançar naquele caminho estreito de pedras, então…

Caramba! Chega disso!

Fendrel a puxou e a fez rodopiar até pousarem sobre a pedra lisa. Ela queria dançar, né? Pois iriam dançar.

— Vamos combinar uma coisa: pare de chamar o que temos dessa forma.

Moveram-se dois passos para trás, um para a frente, os pés deslizando entre o musgo ardiloso. Já o violino começava a tecer tons um pouco mais intensos.

Seria possível para um instrumento ficar irritado?

— Chamar o quê?

— Vêr… você realmente acha que isso aqui é amizade?

— Eu sei que nós nos afastamos, Fen, mas eu…

— Não, nossa… — o bardo riu do próprio desespero. — Não foi isso que eu quis dizer.

— Então o que você quer dizer, Fendrel?! — Verbena, por um triz, não foi ao encontro da água. O bardo a salvou no último instante e, dessa vez, apertou ainda mais o enlace reduzindo a zero o espaço entre os corpos.— Você e a Seryin pareciam ser a coisa certa. Daí eu me afastei. O que mais você queria que…

— Já estávamos afastados antes disso. Por outro motivo.

— Outro motivo?

Fendrel deixou a música prosseguir por alguns minutos. Girou a moça uma, duas, três vezes bem devagarinho. Quando pararam, de testas encostadas, soltou um suspiro amuado antes de dizer:

— Por que nunca me contou sobre você e o Kollin?

— Como você sabe disso?!

Aquelas jabuticabas lindas se arregalaram tanto que chegaram a um nível cômico. Esquisito… para uma situação que o ferira tanto, naquela ocasião só conseguia ter vontade de rir.

— Soube por ele mesmo, oras.

— Boca de sacola maldito!

A risada enfim saiu como um sopro envergonhado, um ato sincero de quem fez as pazes com o passado. Claro que Fen ainda carregava um pouquinho de rancor, mas teve muito tempo e hidromel em abundância para lidar com o assunto.

— Bom, agora que sabe que nosso amigo é um fofoqueiro desmedido, voltemos a pergunta: não me contou por quê?

— Achei que você ficaria chateado.

— E por que eu ficaria?

— Não sei… nós somos amigos, então…

Droga! Por todos os sete infernos!

Fendrel deixou o queixo apontado para o teto. Respirou profundamente e contou até dez, largando Verbena um pouco no vácuo melodioso das luminusas.

— A Deusa tem que me abençoar com paciência. — Retornou a encará-la. — Quer saber qual é a sensação da palavra “amigo”? Imagine uma enorme bigorna indo direto contra o seu estômago. É mais ou menos por aí…

— Fen, entenda.

Ela se desvencilhou dos braços dele e andou duas pedras para o lado. A situação estava tomando proporções muito perigosas. Embora, seja importante lembrar que vigiando suas costas havia uma imensidão líquida azulada . Fugir talvez não fosse a mais sábia das estratégias.

A questão é que se fazia de sonsa, mas qualquer criança, animal e inclusive um troll dotado de inteligência negativa deveria ser capaz de compreender os sinais que o Azvir praticamente atirou contra a sua cara.

— Seryin era um bom par para você. Não fazia sentido eu pensar que existia alguma coisa.

Ele segurou os pulsos dela com carinho e se curvou para que os olhos se encontrassem.

— Você é um bom par para mim, Vêr… A minha melhor música é sobre você. Entende isso?

E, incrivelmente, as íris dela se abriram ainda mais. Ao que parecia, a senhorita Auralis nunca havia se dado ao trabalho de usar o tico e o teco, ligar os pontos para descobrir que a música mais poderosa do melhor amigo, aquela que o levou ao posto de Mestre, se tratava de uma história real.

Tentou se conter, porém teve que espiá-lo por um instante. O brinco solitário de jade, presente dela, sempre estivera ali. Acreditava ser uma marca registrada; bardos tinham esse tipo de costume, usando trajes impactantes ou um detalhe que fizesse o povo associar o objeto à pessoa. Mas talvez fosse uma lembrança daquele dia em que…

Ai, pela Deusa!

— Aquilo? O quê? É sobre… mas, Fen, não, não, nem foi um beijo. — a cabeça negou tantas vezes que a deixou tonta — Foi um encontrão e nós…

Eis que a moça esqueceu a imensidão de puro nada atrás de si, e sua evasão resultou numa reunião dos seus pés com o vazio. Sendo mais específica, o encontro foi com uma finíssima lâmina de água. Se fosse uma fada dos mares, possivelmente conseguiria evitar aquele desastre. Mas não era o caso.

Seu corpo inclinou-se de um lado para o outro, depois para a frente,em busca de equilíbrio. Fendrel, que ainda a segurava pelos pulsos, foi puxado pelo impulso da queda.

A água gelada os envolveu numa rajada congelante sobre a pele, apagando o som do violino e transformando-o apenas em uma vibração distante. Centenas de luminusas se espalharam ao redor deles como estrelas assustadas, deixando rastros coloridos sob a superfície.

Fendrel foi o primeiro a emergir, ofegante. Passou a mão pelos cabelos encharcados e procurou desesperadamente pela amiga.

Um segundo depois, Verbena rompeu a superfície alguns metros adiante, cuspindo água.

— Eu odeio você! — gritou, entre uma tossida e outra. — Isso foi culpa sua!

— Minha?!

— Você resolveu discutir um relacionamento de anos andando na beira de um lago!

Quando ela fez menção de sair, foi agarrada pelo braço.

— Espera, Vêr. Eu preciso te dizer uma coisa.

— Não! Não vou ouvir!

Tapou os ouvidos e recitou a pior canção já entoada nas terras férteis de Callindor. Fendrel deu uma braçada para ficar de frente com ela.

Ergueu os braços para separar as mãos da moça e liberar as orelhas pontudas da sua musa.

Caramba! Podia fazer versos infinitos sobre a forma como as mechas azuladas dela boiavam tranquilas na água cristalina.

Foco Fendrel!

— Às vezes eu esqueço o quanto você é estúpida e teimosa.

Se ela podia ficar mais fofa? Óbvio que sim! E aquele biquinho manhoso recém formado por muito pouco não fez Fendrel avançar para beijá-la.

Calma! Emocionado! Assim não!

— Olha… Me deixa falar por um segundo. Depois você pode correr, me dar um soco bem no meu nariz machucado, gritar o que quiser. Só me escuta, tá bem?

Ela manteve a careta, mas forneceu um minúsculo sinal afirmativo.

Beleza. Vamos direto ao ponto.

— Primeira coisa: eu entendi o que você e o Kollin fizeram. Vocês são muito parecidos e… bem… o imagino que desespero bateu perto do Festival das Asas.

Ele respirou fundo. Okay…isto estava longe de ser “direto ao ponto”. Embora…se acovardar fosse uma opção ainda pior.

— Naquela época, me quebrei por dentro tentando entender por que não eu. Sabia que merecia esse posto mais do que qualquer um. E, mesmo assim… só fiquei olhando, escrevendo cartas como se tivessem me traído.

Devagar uma das mãos entrelaçou os dedos nos dela.

— É difícil ser sucinto aqui, mas vamos logo pra segunda coisa: por mais que você negue, Vêr… seu primeiro beijo foi meu, sim, senhora.

— Já disse! Aquilo não foi um beijo!

Fendrel baixou a cabeça em completa negação, a franja molhada balançando de um lado pro outro.

— Você prestou atenção em mais alguma coisa? Espero que a Deusa considere o quanto isso ficou complicado.

— Fen… está tudo muito confuso para mim. Nós crescemos juntos e…

Foi calada pelo indicador dele junto ao movimento que envolveu delicadamente o rosto da fada com as palmas.

— Não tente transformar isso numa lista de ingredientes de botânica. Sentimentos funcionam de outra forma, bem menos lógica. Faz assim: pense só no que você quer neste exato momento. E, se, para a minha infelicidade, não for a mesma coisa que eu quero… fique à vontade para se afastar.

Verbena se sentia zonza; as luzes das luminusas chegavam ao cérebro como pontos esbranquiçados. Mas, embora o mundo tivesse se entregado à turbidez, os traços do amigo estavam mais nítidos do que qualquer pintura realista. Era até capaz de acompanhar cada gotinha que escorria pelas laterais daquele rosto emoldurado por um deus pilantra e zombeteiro. Uma delas inclusive percorreu uma trajetória partindo da testa e, completamente abusada, afundou no vale entre os lábios.

Pois é…tinha que reconhecer…Seus pensamentos eram no mínimo comprometedores…

Os polegares dele ainda acariciavam seu rosto; não havia insistência naquele gesto. Apenas espera. Respeitando a organização caótica do cérebro da senhorita negacionista:

Seryin. Kollin. O cobertor dividido, os carinhos que tentou justificar como intimidade da infância.

E as canções… Lembrava-se de tantas. Belíssimas. Agora as letras começavam a fazer sentido.

Todas. Sobre ela.

Fendrel não fez um único movimento. Cumpriria a promessa. Se a mulher quisesse se afastar, deixaria, porque não faria sentido algum aquela ladainha toda caso Verbena não desejasse o mesmo que ele.

Pela primeira vez desde que se conheciam, a moça não encontrou lógica alguma para utilizar de esconderijo. As mãos subiram lentamente a superfície até estacionarem na capa encharcada de Fendrel.

Alí fecharam-se no tecido. Num movimento rápido, ele baixou a vista para a própria vestimenta e voltou a encará-la.

— Vêr, eu …

Sem mais tempo pra qualquer discurso — até porque seria chover no molhado —, um impulso direto do coração berrou bem alto. O trovador foi puxado na direção dela, um encontrão que, desta vez… resultou num beijo com tudo o que se tinha de direito.

No início estavam perdidos. Nem parecia que os dois carregavam um histórico tão comprometedor de pretendentes e romances caóticos. Os lábios buscavam o ritmo um do outro com uma timidez beirando o engraçado.

Verbena foi a primeira a se afastar o suficiente para respirar e dar fim aquela dança desengonçada.

O rapaz também parecia desnorteado, seu violino ficou mudo pairando acima deles. As íris carmesim passeavam pelo rosto dela como se tentassem decorar cada detalhe antes que a Deusa resolvesse acordá-lo de mais um sonho.

Então sorriu. Um sorriso tão bobo que arrancou dela outro sem esforço.

— Achei que beijasse melhor, Fenfen.

A expressão ofendida demorou um segundo para aparecer.

— Me dê mais uma chance… fui surpreendido aqui.

Ela ergueu uma sobrancelha, divertindo-se com o orgulho ferido do trovador. Em resposta, Fendrel apenas venceu a distância — que, naquele momento, já nem comportava um sopro — e voltou a beijá-la.

Desta vez sem a pressa de quem esperou anos. A vergonha cedeu espaço à intimidade que sempre existira entre eles.

As pernas de Verbena rodearam a cintura do rapaz, que correspondeu afundando os dedos nos fios azulados encharcados da fada antes de envolvê-la pela cintura, num aperto possessivo em cima dos quadris dela que dizia, sem sequer uma única palavra: “Quero isso para sempre”.

E, durante aquele evento observado apenas pelas luminusas, a fuga deixou de ser uma escolha e o universo permitiu de bom grado que Fendrel conhecesse o gosto daquele momento.

Camomila, lógico que seria camomila!

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