Capitulo 32: O amor dói
— Como é? — Verbena esboçou o semblante mais incrédulo da vida. — Ele quer que nós…?
— É… Temos que dar um jeito de pular.
Fendrel ajeitou a mão na cintura da melhor amiga enquanto observavam a cena mais cômica de todas. Ao longe, vinha uma carroça fechada, puxada por dois jumentos desenfreados. No controle dela estava Weisen, sendo seguido por uma ave de rapina que provavelmente se tratava de Verna. Equilibrando-se atrás do veículo maluco, Priscilla apontava para o teto e depois fez um gesto com a mão que mais parecia um...
Fen franziu o cenho. Mas será possível que Weisen fosse fofoqueiro nesse ponto? Asas? Nem pensar!
— Alguma sugestão, Vêr?
— Você e Zen podem pegar a sombra um do outro e…
— Não podemos interagir com sombras da mesma espécie.
— Então o que foi aquilo na…
— Aquilo foi diferente!
O tom atiçou a desconfiança de Verbena, mas a situação logo a fez se calar. A carroça tinha passado pela padaria à frente, ao som dos resmungos dos aldeões, que tiveram o sono interrompido, e dos animais que corriam assustados. No encalço da trupe, alguns guardas galopavam com espadas reluzindo para o céu nublado.
— Quantos ramos você ainda pode criar?
— Quatro… talvez cinco. Depois disso, vou desmaiar. Eu já fui além da conta hoje.
— Vai ter que servir.
A moça soltou um grito ao ser erguida no colo. Instintivamente, rodeou o pescoço dele com os braços.
— Ei, Fen! O que…
— Consegue criar ramos de trepadeira até aquele pilar? — perguntou, indicando um antigo aqueduto com um aceno.
Recebeu um “uhum” não tão confiante como resposta.
— Tá bem. Vou andar por ela.
— O quê? Elas são finas feito cordas!
— E eu sou um trovador com muito equilíbrio, mesmo com um peso a mais.
— Você está me chamando de gor…
— Sem tempo pra isso, Vêr! Faz agora!
Dos bolsos da fada jardineira surgiram mais alguns brotos. Ela lançou o primeiro na beira do telhado e ergueu um dos dedos. O ramo cresceu, esticando-se mais e mais.
Fendrel partiu. Os pés de dançarino avançavam sobre a tênue linha esverdeada como se fosse terra batida. Conforme as sementes batiam no chão e germinavam, ele pulava com perfeição de um para o outro.
— Fen… eu não sei se…
Verbena já sentia as tonturas, calculou mal a a situação. Sua energia se esvaía pela noite, e as pálpebras travavam uma luta árdua para permanecerem abertas. Em pouco tempo, os galhos começaram a ceder sob as botas do trovador.
Droga, não ia dar!
Fendrel espiou a melhor amiga. A coitada tirava forças dos confins do universo para continuar.
Não era certo aquilo.
Só pela covardia de não desejar mostrar as asas?
Idiota!
— Vêr, pode parar. Daqui eu assumo.
Suas palavras foram o comando para que a cabeça dela cedesse sobre seu peito. O bardo percorreu os poucos centímetros que restavam e deu um impulso para a frente.
— Pria! Agora!
A trovadora soltou o pano que cobria a carroça, revelando um amontoado de feno para receber o casal com um impacto um pouquinho menos bruto.
Mas ainda estavam longe.
Duas enormes sombras negras surgiram nas costas de Fendrel. A barreira de ocultação explodiu em diversos raios vermelhos. Por sorte, bastou um único bater de asas para conseguirem alcançar o destino, embora de forma desengonçada.
Como diabos se controlam essas coisas?!
O melhor que ele pôde fazer foi receber o choque primeiro. Abraçou Verbena, protegendo-a por completo.
Todo aquele feno de pouco adiantou. Um sonoro estrondo deu boas vindas às suas costas contra a madeira.
Missão cumprida da maneira mais terrível possível!
E a sua suposta esposa achando que isso seria uma lua de mel…
🪽🪽🪽
Em certo momento, Verbena cedeu à exaustão. Algumas memórias ainda ziguezagueavam por sua mente: um telhado, um alvo impossível em movimento desenfreado, Fendrel dizendo para parar de se forçar… e então caíram.
O estranho é que a suposta queda mais pareceu um pairar tranquilo. Depois vieram vários palavrões e vozes que ela reconhecia como sendo dos irmãos Azvir.
Era tudo muito confuso…
Na verdade, considerando a atual conjuntura, ou morrera ou estava sonhando. E sabia bem que, naquele mundo terrível que era sua própria consciência tudo poderia acontecer.
Porcaria! Odiava seus pesadelos! E odiava mais ainda saber que estava em um deles!
É isso. Olhos fechados até acabar!
Para seu acalento, nada de uivos assustadores, nem um vento de arrepiar a espinha ou alguém gritando sobre sua incompetência. Só…um arrepio gostoso percorrendo sua lombar e brisa tranquila acariciando um de seus tornozelos.
Calma, só um?
É… Vai entender… Vamos neste momento só agradecer a Freya pelo sono tranquilo.
A curiosidade ganhou permissão para emergir dentro do conforto e fez suas pálpebras se abrirem para encontrar os dois rubis escarlates que conhecia havia tantos anos. Estavam tão próximos que conseguia distinguir, inclusive, as pequenas irregularidades das íris, praticamente esmagadas pelas pupilas dilatadas.
Pupilas dilatadas…
Não era aquilo que diziam acontecer quando alguém…
Congelou.
E as suas? Como estariam agora?
Queria um espelho. Evidente que seu subconsciente não lhe daria essa colher de chá. Tudo naquele lugar seria capaz de qualquer coisa, menos de ajudá-la.
Hum… Nada a ver com o assunto, mas o mundo não estava meio alto demais?
Foi aí que se deu conta: ela e ele eram crianças.
— Qual é o seu nome, menina?
O nariz dele tocou o dela e, como na lembrança, sua resposta foi cair na risada:
— É… Verbena.
— Ver… Ben… na… Bonito.
O biquinho infantil, puxando as bochechas gorduchinhas, e os olhos estreitos receberam a informação numa análise sem fim. Fendrel ainda era capaz de fazer essa careta, principalmente quando a situação envolvia uma música que tentava, a todo custo, acertar o tom.
Quer dizer… não via aquela reação fazia uns bons anos. Ela não ajudava nas canções desde que… bem, desde que Seryin apareceu. Um pouco de sensatez sabe? Ficar de vela não parecia ser uma opção muito divertida.
Tá bom que sua ajuda, na adolescência, se limitava a ouvir, reclamar e, d eves em quando, ficar balançando num ramo pendurado no teto do quarto ou na árvore; enfim, dependia do lugar.
Piscou e deu dois passos para trás. Ele continuava ali, mas agora ocupando todo o seu campo de visão. Crescido, porém com o sorriso divertido da infância transformado em pura canalhice, alargando os lábios que ela agora pensava em…
Beijar…?
Oi?
— Por que não experimenta? — perguntou Fendrel.
A lógica do sonho simplesmente deixou de existir. Verbena deixou que ele vencesse a distância até ela. Daquele jeito, bastaria inclinar um pouco o pescoço e poderia…
— Ou… Quer saber sobre Nahme? — o trovador interrompeu o momento, feito um enorme balde de água fria. — Acha mesmo, Ver… que ainda me conhece?
— QUE MERDA!
Verbena despertou em um sobressalto, com o próprio grito ecoando para fora das barreiras oníricas. O primeiro reflexo foi lançar a cabeça para trás.
Toc!
A parte de trás do crânio encontrou em cheio o nariz de Fendrel.
— Ai! Vêr! O que foi? O que aconteceu?
Antes que ele pudesse afrouxar o abraço, um cotovelo certeiro afundou em suas costelas. Só assim ele finalmente a soltou. Sem os braços que a mantinham firme, a fada jardineira rolou pelo assoalho da carroça, completamente desnorteada, tentando entender onde terminava o sonho e começava a realidade.
— Quem… quem é Nahme?
Ignorando a dor, Fendrel praticamente se jogou por cima dela, segurou os quadris da moça com as pernas e apoiou uma das mãos no piso da carroça, impedindo que a cabeça dela fosse de encontro às tábuas.
— Vêr! Ei! Calma! Tá me ouvindo?
Ela tentou se desvencilhar, mas lutar contra o peso dele era definitivamente impossível.
— Quem… é… Nahme?
— Eu sei lá! — respondeu, antes de recorrer ao tronco para conter os movimentos. — Calma!
— Você quem tem que me dizer!
— Eu?!
— Sim, você! Foi você que perguntou se eu queria saber sobre Nahme!
Fendrel piscou, completamente perdido.
— Eu perguntei o quê?
— Nahme! Quem é Nahme?!
— Vêr, eu nunca ouvi esse nome na vida
Para a boa ventura do rapaz, veio a quietude junto ao fim dos movimentos bruscos. Verbena respirava de forma descompassada. Punhado após punhado de ar, sua consciência foi retornando.
— Então… por que você perguntou?
— Pela deusa! Eu não perguntei!
Ela estreitou os olhos.
— Então eu… sonhei?
A carroça deu um solavanco e parou. Fendrel aproveitou a trégua para se jogar para o lado. Com a voz anasalada, erguendo a cabeça para trás para conter um possível sangramento, respondeu:
— Pelo jeito, sim. O que foi isso? Teve um pesadelo?
Verbena desviou os olhos tão rápido que por pouco não sentiu o pescoço estalando.
— Foi.
— Tinha o quê? Monstros?
Ela ficou em silêncio. Fen massageou as costelas só para verificar se estavam intactas. Com um suspiro aliviado, continuou:
— Vovó Calíope?
Mais uma boa quantidade de silêncio enquanto o trovador erguia o tronco.
— Demônios?
A fada pigarreou.
— É… por aí…
Em sua defesa, Fendrel já tinha sido chamado de tudo, fosse por conhecidos ou por pessoas aleatórias interdimensionais. Alguns bons exemplos: “deus trovador”, “sabiá da meia-noite”, “marinheiro dançarino”, “Pezinho Leve”, “demônio” e “leprechaun gatinho”. Então acabou servindo.
— O que está acontecendo aí? — Weisen apareceu por trás do pano frontal da carroça. Ao seu lado estava Priscilla. — Fen, o que você aprontou aí?
Verna resmungou num canto próximo, espreguiçou-se, esfregando os olhos cansados. O cobertor ainda repousava sobre suas pernas. Assim que apontou para o casal, reclamou em alto e bom som:
— Entendo que alguns casais gostam de uma agressividade, mas, pessoal… eu só queria dormir! Sabem o quanto de energia eu gasto em uma transformação?
Fendrel foi auxiliado por Pria, que entrou no recinto com um lenço em mãos. Verbena encarou o próprio tornozelo, quente provavelmente pelo remédio de cidreira-roxa que alguém fizera o favor de trocar mais de uma vez.
— Espera… eu dormi por quanto tempo?
— Dois dias… — Verna enfim se levantou e fez menção de sair para o mundo lá fora. — E seu marido fez questão de trocar seu curativo a cada três horas. Aprendeu bem rápido o que ensinei.
— Eu…
Os olhos de Verbena pousaram por um instante sobre Fendrel. Só então percebeu que ele evitava encará-la, ocupado demais em comprimir o lenço contra o próprio nariz.
— Obrigada.
O trovador deu de ombros.
— Não tem o que agradecer. Nós é que pedimos desculpas por levar seu poder além da conta. Eu não sabia que…
— Eu também não sabia.
— Bom, sem querer interromper… — o mais velho pulou para dentro da veículo. — Vamos armar as tendas aqui e traçar um plano. Somos gratos, cunhadinha. Seu esforço gerou frutos…
— Mas eu… Lisandra não me disse nada.
— Velmentir. Você repetia isso na noite em que fugimos. Ou… quase isso. Então decidi apostar. — Weisen apontou para a paisagem que se erguia à frente do manto recém-erguido: um morro, praticamente um barranco, com árvores baixas que desembocavam numa baía, onde ondas esverdeadas batiam em pedras polidas. — É uma das costas de Callindor. Existem várias pequenas praias por aqui. Se descobrirmos onde o enxame de sereias está, talvez a voz de Pria esteja por lá.