Capitulo 34: Canção sem plateia
Bem possível que Fendrel fosse, por trás daquela casca sem-vergonha, apenas um romântico incorrigível. E, naquele momento, nosso querido emocionado recebia o presente ardiloso de um “sim”.
Agora… no que conseguia pensar? Na maciez dos lábios dela, nas descargas de adrenalina que atravessavam seu corpo sempre que Verbena passeava os dedos pelos ombros dele.
E então veio à mente um futuro tranquilo. Com filhos, preferencialmente. Nomes assolaram sua consciência: se menina, Lianna; se menino, Tristan.
Loucura!
Embora… lembrava-se de que a melhor amiga comentara certa vez sobre querer muitos descendentes. Uma casa cheia de pirralhinhos correndo pelos corredores, balançando-se nas árvores e quebrando tudo por aí.
E…como se fazem filhos?Aham.Pois é. Chegamos nisso bem rápido.
Ainda temos um romântico. Meio safado… mas ainda um romântico. Um apaixonado que decidiu deliberadamente aproveitar a oportunidade das roupas flutuando na água para escorregar uma das mãos por dentro da blusa da esposa e acariciar as costas nuas.
— Fen… — mais uma vez, ela se afastou, meio atordoada, acompanhada pelos protestos do rapaz, muito parecidos com um rosnado muxoxo. — Eu acho que… Pela Deusa!
De súbito a moça se deu conta da posição em que estava. Na forma mais curta possível: montada nele. Ao menos, pensando pelo lado prático da coisa, finalmente encontrara uma maneira eficiente de resolver a diferença de altura.
Verbena nem deixou a ideia criar forma. No minuto seguinte, bateu os braços na água e se desvencilhou o mais rápido possível, arrancando risadas do marido.
— Ah, ótimo. Voltou a raciocinar. — Fendrel ajeitou a franja. — Antes que você entre em pânico, vou propor mais uma coisa: isso aqui foi um sonho.
Difícil segurar o sorriso diante das sobrancelhas franzidas de pura incredulidade que ela exibia naquele instante. Por algum motivo, porém, aquilo só fez crescer uma vontade absurda de não soltá-la nunca mais.
Fendrel apontou para cima, indicando as pequenas luminusas que flutuavam ao redor deles.
— Essa situação absurdamente incrível aconteceu somente entre nós e as luminusas. A história oficial que qualquer trovador contar jamais considerará este capítulo. Quando estivermos de volta a Alféria… ou numa situação menos problemática sem envolver minha família, sereias… conversamos sobre isso.
Estendeu a mão para ela. A expressão brincalhona deu lugar a outra, mais tranquila.
— Melhor assim?
Verbena piscou, tentando recuperar algum vestígio de dignidade. Deu um aceno imperceptível e estendeu o braço para o amigo… marido… err… sei lá.
Mas esquecera que bardos eram traiçoeiros. O que deveria ser um simples acordo terminou num puxão e em outro beijo.
Um último toque dos lábios, suave o suficiente para não assustá-la e demorado o bastante para fazê-lo querer esquecer completamente o acordo que acabara de propor . De verdade queria gritar para os quatro cantos daquele reino que, — POR TODOS OS CÉUS E DEUSES — , finalmente vencera aquela maldita barreira de amizade insuportável!
Quando se afastou, Fendrel ainda permaneceu próximo, os olhos presos aos dela.
— É estranho…
Verbena respirou fundo. Mas, antes que pudesse dar vazão ao seu conhecido caos mental, o trovador ergueu um dedo diante dela.
— Shii.
— O quê?
— Ao invés de criar uma tese sobre amigos de infância dando amassos, seria mais interessante pensar em como vamos sair daqui sem dar na telha o que aconteceu. Então… — Ele a conduziu até a beirada, segurou-a pela cintura e a ergueu com facilidade, deixando-a sentada nas pedras. — Vá primeiro. Finja que nada aconteceu.
— Não é muito difícil. — A fada jardineira deu de ombros enquanto se levantava. — Posso dizer que preferia tomar veneno a continuar ouvindo meu cunhado pela vigésima vez falando sobre o quão perigoso pode ser para você se errarmos a porcaria do plano.
— Vai dar tudo certo.
— Bem, espero que sim… Porque, se alguma coisa acontecer, eu te busco no Sétimo Inferno.
Fendrel soltou uma gargalhada e, acariciando o próprio queixo com os dedos, decidiu dar corda para aquele tipo conversa bem nostálgica, digna dp histórico compartilhado entre dois amigos íntimos demais.
— Curioso… Por que um santo como eu estaria no Inferno?
— Já começa que fadas não rezam para santos. E vê se se enxerga, Fendrel.
Ela deu alguns passos, mas parou e apontou para as próprias roupas.
— Bom, você poderia…?
— Ah. Claro.
Fendrel assentiu e estalou os dedos quatro vezes, num ritmo melódico, acompanhando as notas do violino flutuante que voltara a tocar.
Fazer música até com estalos das juntas… Só um bardo mesmo.
Uma pequena onda de luz percorreu o corpo dela. As roupas molhadas desapareceram por um instante, substituídas por uma versão seca e perfeitamente ajustada às curvas da moça.
Todavia…
— Fendrel…
— Que foi?
Verbena segurou a borda da saia e ergueu-a alguns centímetros, examinando o tecido com uma expressão de horror genuíno.
— Vestido? — Levou as duas mãos aos cabelos. — Flores? O que eu vou dizer no acampamento?
Então encarou o bardo, que tombou a cabeça e performou o semblante mais inocente possível.
Se não soubesse do passado daquele homem…diria que era um querubim muito bem intencionado.
— Ahn… que encontrou ninfas?
— Fendrel!
— Está bem, está bem! — Ele cruzou os braços. — Já vou devolver sua calça azul desbotada sem graça e seus bolsos tão amados.
— Se você não tivesse bolsos, entenderia a minha situação. Homens sempre têm. No colete, no gibão, na calça. Às vezes, até na maldita capa! E eu? Onde vou enfiar minhas poções? Meus brotos? Minhas ervas?
— Numa bolsinha de couro bonitinha, com bordados?
— Eu vou enfiar a bolsinha de couro em outro lugar se você não…
O sorriso do bardo aumentou.
— Se quer saber, você fica linda dos dois jeitos.
Verbena estreitou os olhos. Sentiu as bochechas ferverem, mas não recuou:
— Tire essas roupas de mim, Fendrel!
Sim… as palavras escolhidas não foram as melhores e, lógico, o trovador segurou tudo o que tinha de pervertido em si para evitar continuar aquela brincadeira. Vamos fingir que essa frase nunca aconteceu e que ela, com a benção da Deusa, pediria isto em outro contexto no futuro.
Por enquanto, bastava voltar ao estilo confortável de ser da Verbena.
— Sim, senhora.
Ele estalou os dedos novamente.
A saia desapareceu. As flores também. No lugar, voltaram a camisa larga, a calça de alfaiataria e, principalmente, os bolsos que Verbena tratava como patrimônio incomparável de Alféria e, talvez, de qualquer outro reino. Ela conferiu cada um deles com seriedade beirando o religioso e até gostou da sua famosa fita na cintura, propositalmente amarrada na forma de um laço pomposo que ela seria definitivamente incapaz de reproduzir
— Muito melhor. Obrigada.
— Agora vai ter que ensinar todo mundo a dar esse nó na faixa da cintura.
Verbena bufou, mas um sorriso ameaçou escapar. Antes de sair, mostrou a língua, brincalhona, e se afastou pela passagem estreita, resmungando alguma coisa sobre bardos sem noção e roupas idiotas.
Fendrel permaneceu na água.
As luminusas continuavam flutuando acima do lago subterrâneo, pequenas estrelas presas naquele teto de pedra. Seus reflexos tremeluziam na superfície, quebrados unicamente pelas ondas suaves que o próprio bardo provocara.
Aos poucos, deixou o corpo afundar um pouco mais, até o líquido azulado sustentar seu peso. Boiando, encarava o teto cheio de estalactites. O violino se aproximou dele, tocou algumas notas, fez arranjos, testou certas palavras, alternou tons sem qualquer dificuldade.
Porque, dessa vez, não precisava esconder no subtexto o que estava sentindo, muito menos o nome daquela que merecia uma sinfonia inteira.
No passado, quando desistiu de tentar dar forma àquele romance de infância, sempre se pegava cogitando o que aconteceria se experimentasse algo além daquele vislumbre de lábios se tocando.
Bem… suas premissas estavam corretas.
Absolutamente tudo virou um caos de obsessão. E ele queria desesperadamente explorar mais. Muito mais.
— Um grande feito, de fato… — murmurou baixinho, sorrindo sozinho. — Fazer um bardo perder o fôlego…
Levou os dedos aos lábios, deixando um suspiro apaixonado sair sem freio.
— Mas é uma pena que essa canção eu não vou cantar para ninguém.