Capítulo 10: A marionete e o troféu
Dezoito e contando…
Esse foi o número de vezes que Kollin ouviu a palavra canalha — e algumas derivações menos polidas— enquanto caminhava em direção ao caos recém-instalado.
Entendia bem a situação. Talvez Fendrel merecesse um pouquinho daquela revolta. Ainda assim, Seryin perdeu rápido as estribeiras: sua razão decolou junto com o nevoeiro de egocentrismo que escapava por todos os poros.
Não era novidade para ninguém. Todos sabiam de quem o bardo realmente gostava.
Kollin espiou por cima do ombro. Verbena mantinha a mesma pose, olhos cravados no atual marido. O rapaz suspirou, escondendo as mãos nos bolsos, os passos lentos o suficiente para dar tempo aos pensamentos.
Era esperado que ela tivesse problemas para definir seus sentimentos. Mas o trovador? Quem diria que o jovem mais desejado daquela vila miserável passaria por isso? E pelo andar da carruagem, Fen — mesmo com sua língua tão galanteadora com outras mocinhas — falhara em expor os anseios de seu pobre coração para a amiga de infância. Sinceramente, a vontade de atirar um pra cima do outro e resolver as coisas de uma vez assombrou sua mente por anos. Fadas das marés detestam melodramas. Casalzinho teimoso e complicado demais!
Bem… não era como se sua situação fosse melhor.
Kollin se surpreendera quando a deusa o uniu àquele rouxinol envolto em seda e perfumes que irritavam suas narinas sensíveis. Porém, ao chegar à casa dela, encontrou apenas um coração machucado, regado a lágrimas. E aquela fragilidade despertou algo nele.
Daí caiu que nem um patinho nos encantos de Seryin, naquela rosto inchado pelo choro, traços meigos esbanjando a inocência mentirosa de um filhote fofo de raposa. Entendeu instantaneamente a fama daquela mulher, que diziam conseguir controlar qualquer bicho na terra com um mero abanar das mãozinhas graciosas.
Menos Fendrel.
Achou que acabava por aí? Não. Depois de consolá-la com biscoitos de alga tostada — receita especial de sua tia — e muitos lenços, ganhou o quê? Um obrigado? Antes fosse. Foi sentenciado ao sofá e, pela manhã, com os ombros doloridos e o pescoço torto, despertou com o mais amável dos alarmes: gritos mal-humorados arranhando penosamente os ouvidos.
Mas, certamente a deusa sabia: Kollin sempre gostara das leoas bravas… E Seryin emanava uma vaidade tão atraente que o convenceu, de imediato, a domá-la com gosto. Existiam outros dotes além de uma voz melodiosa e firulas de cortesia. Ele provaria isso.
Ah, se provaria!
Voltou a encarar a esposa, que, exasperada, afastava todos os amigos que tentavam se aproximar. Ele não ousou desrespeitar o perímetro, pois levar um tapa gratuito estava fora de seu planos no momento.
Em outras situações...quem sabe?
Esgueirou-se atrás dela, mantendo uma distância segura, mas ainda suficiente para reagir quando Fendrel decidisse dar um fim naquele espetáculo. E, considerando os murmúrios maldosos e as risadinhas pingando desdém pelos cantos dos lábios, Kollin desejava que o amigo encerrasse aquilo de uma vez.
Assim que sentiu os olhos do trovador sobre si, aproveitou a atenção: ergueu a mão direita num gesto breve, um “ok” silencioso.
Permissão concedida. Agora, restava ouvir.
— Seryin, eu entendo sua frustração — a voz do rapaz era serena, cada nota controlada com rigor, manso como um assovio carinhoso. — E peço perdão. Posso esclarecer as coisas, mas não nesse escândalo.
— Escândalo? — o tom feminino era bem diferente, estridente, empenhado em representar todo o descontrole. — Está com medo que pensem mal de você?
— Não sou eu quem está passando vergonha aqui. Por favor, Yin, seja racional…
— Você foi um grande covarde aqui!
— Sei disso… e reconheço meus erros.
— Reconhecer não basta! — os dedos tremiam e por vezes deslizavam nos fios desgrenhados da mulher em busca de consolo. — Sabe quanto tempo eu gastei com você? Sabe quantos eu rejeitei? Tudo o que eu fiz pra te agradar? Seu…
O xingamento travou na garganta. Os punhos delicados fecharam em resistência à humilhação.
— Incrível… Fui enganada, usada para satisfazer seus sonhos com outra! Uma vagabunda sem graça, suja de lama, e sou eu quem está passando essa vergon...
Não conseguiu terminar. Fendrel se aproximou demais, inclinando-se, e agarrou um dos braços dela, num aperto nada delicado. O semblante complacente rachou. No lugar, surgiu uma face impiedosa: sobrancelhas franzidas, maxilar tenso, um fio de ameaça queimando nas orbes escarlates que um dia ela jurou serem dela.
— Escute bem, Seryin… — o ar ao redor vibrou temeroso. — Pode me xingar o quanto quiser. Tenho consciência do que fiz. Mas nunca, eu disse nunca, meta a Verbena no assunto. Compreende?
Ela balançou o braço para se desvencilhar. Em vão.
— Não! Eu mereço falar o que quiser. Eu amei você!
Ele riu. Um som estranho, como navalha saindo em silvos impiedosos pelos lábios. A cabeça negava enquanto as pálpebras fecharam por alguns instantes, carregando só cansaço.
— Você sabe realmente por que está frustrada? Se me amasse de verdade, Seryin, não faria todo esse showzinho. Acredite… sei que não. Eu amo alguém. Aguentei a rejeição por muitos anos. Eu sempre priorizei a felicidade dela, mesmo que isso significasse observar de longe, imaginar na solidão o que poderia ter sido. Você, dentro dessa sua arrogância imensa e cega, só queria um troféu bonitinho que combinasse com a porcaria do bordado de renda daquele seu lençol.
Até Kollin se encolheu. Existia sinceridade demais naquelas palavras. Nitidamente, Fendrel lutava para não gritar, para manter a imagem de Seryin, e isso já era uma gentileza tremenda, mesmo com aquele tom sombrio de bicho-papão que jamais imaginou que o amigo fosse capaz de performar.
Bardos são assustadores…
— Desculpe, Seryin… — Fendrel continuou, segurando o outro braço dela que veio na direção de seu peito, numa tentativa desesperada de negação pela violência impulsiva. — A verdade nem sempre é agradável.
Kollin só via as costas da esposa, mas os músculos tremiam, soluços escapavam; era certo que lágrimas rolavam em ondas incessantes pela pele pálida. E então, finalmente, Fen se aproximou do ouvido dela. Sílabas inaudíveis escorreram da boca dele, e uma poeira cintilante rodeou a orelha da jovem.
Nesse instante, os curiosos amontoados ao redor gritaram, surpresos com o poder do chefe dos bardos, pois Seryin, sem aviso, cedeu ao mundo dos sonhos. Kollin a amparou rápido, não deixando que sequer um fio de cabelo tocasse o chão. O rosto feminino adormecido tombou para o lado, repousando no ombro do marido destinado.
— E este é o fim, seus fofoqueiros! — ele sorriu, fazendo uma pequena reverência.
As fadas resmungaram e começaram a se dispersar, mas todas ainda discutiam sobre os acontecimentos dignos de um livro tragicômico.
— Não queria usar isso, muito menos em público… — Fendrel soltou um suspiro longo demais.
— Infelizmente a vida não vem só pra fazer cafuné — Kollin piscou, ajeitando a mulher nos braços. — Mas olha só que gracinha. Assim nem parece a fera de agora há pouco.
E foi assim que a manobra, usada apenas em emergências e conhecida pelos amigos mais próximos de Fendrel como “Bela Adormecida”, impediu Seryin de demolir seu orgulho de vez.