Capitulo 29: 100% Emocional Damage
— Eu não sou…
Fendrel deu uma grande golada na caneca recém-servida para interromper o discurso. As gotas de água gelada ainda desciam pelo pescoço e, mesmo assim, só conseguia pensar nas sensações do momento a dois fora da taverna.
As mãos de Verbena carregavam uma experiência assustadora. Já esperava isso; ninguém em Alféria poderia ser considerado principiante. Mas, pela deusa… chegou perto de enlouquecer quando ela resolveu puxar a porcaria do cabelo dele.
E as curvas? As coxas gostosas de apertar, a bun…
— Quer saber… — pegou uma garrafa atrás do balcão, tirou a rolha e despejou sobre a cabeça. — Dessa vez vou concordar. Sou um grande canalha safado,… e todas as outras coisas que a Vêr me chamou lá fora.
— A situação está séria, hein? — Weisen apoiou os cotovelos na madeira, de costas para o bar. — Qual foi o teatro?
— “Quem é essa tal de Seryin?” — o mestre dos bardos encenou um surto exagerado. — Mal sabe ela que quase foi o nome dela que escapou numa situação bem parecida, uns anos atrás.
— Pura ironia! — o Azvir mais velho tombou a cabeça na direção do teto. — Não desista agora, Fen. Vai valer cada “não” que recebeu.
— Considerando que minha falecida cunhada te deu muitas invertidas, vou acreditar.
A risada nostálgica carregou entre eles o peso da perda e, quando o silêncio ameaçou se instalar de vez, Fendrel completou:
— Ainda sente muita falta dela?
Weisen não saiu da posição anterior; apenas fechou os olhos e deixou que o coração machucado revivesse o luto. A dor nunca desaparece, mas existem meios de aceitá-la como companheira.
— Eu já sabia que a Yazinha partiria desse mundo antes de mim. Aceitei isso desde que mandei a vovó pros quinze infernos e atravessei o portal de volta a Callindor.
— Mas não foi justo, foi cedo demais… eu poderia…
A palma erguida do mais velho encerrou o discurso.
— Você fez o que estava ao seu alcance, Fen. Eu escolhi meu próprio destino. Inclusive, Freya me deu a possibilidade de ficar em Alféria e me disse uma coisa curiosa: “Não existe uma única alma gêmea. Amores morrem na rotina e florescem nos pequenos prazeres.”
— Eu me lembro…
— Então deve entender que não basta ser predestinado, Fendrel. Você tem que fazer esse amor florescer e cuidar dele pro resto da vida. O Festival das Asas é só o estopim, uma chance de um caminho menos doloroso. Claro que alguns não aceitam tão bem.
— Hum… — o mais novo girou a caneca e encarou o fundo. Lembranças tortas da infância giraram na mente inquieta: gritos, brigas, o próprio choro ecoando enquanto alguém o balançava nos braços, soluçando uma canção de ninar tranquila. Mas sua idade naquela época distante deixava as imagens irritantemente embaçadas para conseguir tirar delas qualquer significado. — Zen… você acredita no que a vovó diz? Que nossa mãe foi enfeitiçada?
— Não.
A resposta veio seca o suficiente para fazer Fendrel esboçar um sorriso tenso.
— Pois é… O que fez aquela mulher largar a família?
— Nosso pai? Ele não era exatamente do tipo compreensível.
— Mas os filhos, Zen… isso não me desce.
Weisen hesitou por longos segundos. Sob o olhar carmesim inquisidor do irmão, procurou posições mais confortáveis no banquinho gasto da taverna, mas tudo o que recebeu foram rangidos de algo prestes a quebrar.
Quer saber? Talvez seja hora…
Abriu a boca e dela não saiu absolutamente nada. Reconstruiu a frase mil vezes… e cada junção de sílabas parecia mais catastrófica que a outra.
Como dizer?
Simples: nossa mãe se engraçou com um sereiano… e um de nós — veja só — pode ter um pé no oceano de Callindor.
Patético.
Beliscou a própria perna, como se a dor pudesse empurrar as palavras para fora. Os pulmões inflaram, prontos para sustentar uma frase sem tropeços e assim…
— Oi, garotão, está sozinho?
Uma elfa de olhos ciano e longos cabelos negros se interpôs entre os dois. Analisou Fendrel de uma ponta a outra, despudorada, com a língua passando devagar pelos lábios carnudos tingidos de preto. Uma das mãos pousou na cintura fina, enquanto a outra avançava atrevida até a coxa do alvo da noite.
Não foi necessária muita conversa. O mestre dos bardos sorriu tranquilamente, afastando com gentileza — ainda que com leve desdém — o toque carregado de segundas, terceiras… e talvez quartas intenções.
— Desculpe, agradeço o convite, mas… eu sou casado.
Weisen soltou uma gargalhada, os olhos lacrimejando de tanta incredulidade, enquanto a jovem já avaliava o próximo aperitivo da noite.
— Eu não acredito que vivi o suficiente pra ouvir meu irmãozinho Fendrel Azvir dizer isso.
Fen respondeu com uma careta divertida e a língua de fora. Se Verbena tivesse dado qualquer sinal de reciprocidade — mesmo antes do Festival das Asas —, ele não daria ouvidos nem à maior beldade de qualquer reino.
E em Callindor havia formosuras para todos os gostos.
— O quê? Ouvi direito? Você é o canalha do Fendrel Azvir?!
Os irmãos viraram o rosto ao mesmo tempo, encarando o sujeito de dedo em riste, tremendo de raiva.
— Hã… — Fen analisou o meio-elfo corpulento de cima a baixo: camisa branca manchada de molho de tomate, calça remendada pedindo socorro, presa por um cinto gasto, e botas enlameadas. — Eu te conheço?
— A mim, não. Mas a minha ex-esposa, Janine, sim! Traste desgraçado!
— Janine? — os dois falaram em uníssono.
— Minha mulher virou uma vagabunda do mundo depois de encontrar esse filha da puta aqui!
— Janine… Janine… — Weisen tamborilou o dedo no queixo. — Janine Austen? Enlouqueceu, homem? Vagabunda? Ela virou cavaleira real de Drustrang.
— Justamente! Preferiu se engraçar com homens do exército a manter um casamento com honra! E você! Não é aquele pilantra que roubou nossa princesa?!
— Pra quê fui abrir a minha boca… — o Azvir mais velho revirou os olhos. — Qual é o problema desse lugar? Mulher virou mercadoria? Sem desejos, vontades… se fosse eu, teria dado no pé e nem precisaria que um príncipe bonitão aparecesse pra me salvar.
— E agora temos o seu filho desgraçado mimado estúpido pra transformar esse reino numa bagunça!
Depois de uma breve pausa, o pai de Vossa Alteza Yvoan piscou para o irmão e disse:
— É… esse aí a culpa é minha mesmo. Devia ter posto a vovó Calíope pra educar Yvo. Duvido que teria crescido com aquela boca suja.
— De acordo… — Fendrel ajeitou as mechas úmidas. — A orelha do meu sobrinho ia fritar pelo menos umas vinte vezes por dia.
O que se seguiu foram vários gestos imitando a senhora Calíope com trejeitos de velha insuportável, temperados com lembranças de infância repletas de tapas e gritos “educativos”. Com as risadas dos Azvir servindo de trilha sonora, o sujeito antes irritado agora parecia furioso; as bochechas ardiam diante da pachorra de ser ignorado tão rápido.
— Estou falando com vocês, desgraçados!
— Ora… quer o quê afinal? — Weisen deu impulso para sair do banco. — Veio vingar sua macheza frágil? — o dedo percorreu no ar toda a silhueta moribunda — Janine é independente; hoje ela pode, e deveria, enfiar uma espada no seu….
— Vocês enganaram ela?! Enfeitiçaram!
— Enganar? — foi a vez de Fendrel se levantar. — Calma aí, amigo. Vamos recapitular sua prosa sem sentido… está me dizendo que a vida dela seria mais feliz trabalhando debaixo de um sol de rachar pra plantar batatas e, à noite, aceitar um macho bêbado fedendo a prostitutas?
Considerando que, em qualquer universo, existem ouvidos fofoqueiros, a esta altura a taverna inteira estava reunida para assistir ao homem que esperneava contra os trovadores pleníssimos. Normalmente, quem ousava discutir com um bardo era massacrado com palavras mais afiadas que adagas imperiais. E os irmãos Azvir tinham sua fama naquele lugar.
— Escute: não enfeiticei ninguém. Mulheres tomam suas próprias decisões, é capaz de entender isso? — Fendrel cruzou os braços, aguardando uma resposta que não veio. — Certo, pelo jeito não, mas, se te interessa ouvir a real opinião da sua ex-mulher… enquanto estávamos na cama, tudo o que ouvi foi o quanto você era péssimo. Sem detalhes, claro… — deu de ombros. — Ela estava ocupada demais se divertindo.