Capitulo 09: Do outro lado do estouro Condenados a Voar · Capítulo 11 de 36
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Capitulo 09: Do outro lado do estouro

— Oi, moça!

Uma menina de cabelos rosa puxava a blusa de Verbena, que se agachou para cumprimentá-la com um aperto de mãos e um sorriso gentil.

— Como vai? Qual é o seu nome?

— Amélia.

— Amélia… que nome bonito!

A palma miúda da garotinha já estava coberta de terra. Sua testa brilhava de suor pelo esforço das primeiras tarefas daquela estação de treinamento. Ser uma fada jardineira significava trabalho duro e quase sempre envolvia lama até atrás das orelhas.

Mas era o que Verbena amava fazer.

— Você que é bonita, moça! É a esposa do Tio Fen, né?

A mais velha travou o maxilar, sustentando o sorriso da melhor forma que conseguiu.

— É… tecnicamente, sim.

Amélia estreitou os olhos, a desconfiança escancarada nas pupilas curiosas. O tom da resposta foi incapaz de convencer até mesmo aquela mente infantil. Não se deu por vencida: levantou um dedo e apontou para as mechas azuladas da professora, presas num rabo de cavalo bem apertado.

— Ele disse que você é ainda mais bonita de cabelo solto.

A vergonha subiu como um furacão até as bochechas. Verbena inflou-as, tentando disfarçar a vermelhidão. Não deveria ser uma situação nova, Fendrel às vezes fazia graça sobre sua aparência só para provocá-la e, normalmente, ela ignorava.

Mas, vinda da boca de uma criança, a frase soou como um elogio sincero demais. E isso a deixou ainda mais sem jeito.

Com gestos desengonçados, arrumou os fios grudados na testa, um movimento calmante para angariar tempo e organizar o caos de dúvidas rodopiando dentro da cabeça. Acordara agarrada ao amigo pela manhã e, agora, aquele comentário? Sua sanidade estava percorrendo um arco de decadência assustadora.

Que estresse!

Entreabriu os lábios, puxou o ar, ainda buscando uma resposta. Parecia uma grande idiota tentando se justificar para uma garotinha.

Felizmente, não teve tempo de soltar qualquer palavra: cochichos perambularam pelo ar, crescendo conforme mais gente se juntava. Passos apressados corriam em direção ao acontecimento inédito.

— Vêr… acho que Fendrel está encrencado… — Mareen apontou para recanto dos bardos

A moça seguiu o gesto, entendendo a situação de imediato. Era fofoca das grandes, pois aqueles dois nunca haviam brigado em público.

Já Verbena e Fendrel? Vira e mexe discutiam até pela cor da grama. Briguinhas à toa. Birras de bons amigos.

Chegou a rir com a lembrança, mas, fora de contexto, soou cruel. Como se estivesse se divertindo às custas da desgraça da outra.

Resignada com o próprio deslize, cortou em instantes a própria alegria clandestina, afogando as memórias nostálgicas. Apertou os dedos no tecido da calça e se forçou a focar no que se armava adiante.

Nunca viu Fendrel tão sério antes...

E ela sabia do que se tratava. Afinal, ninguém esperava que o chefe da divisão dos bardos fosse unido a uma jardineira atrapalhada, sem grandes atrativos. De certo modo, entendia a fúria daquela mulher deslumbrante. Hoje, Seryin nitidamente acordara sem ânimo sequer para exibir sua beleza natural. Estava completamente apagada.

Pela conversa da véspera, Verbena tinha certeza de que Fen nunca amou de verdade aquela pobre donzela. A confissão apenas confirmara o que já pressentia: entre eles nunca existiram gestos genuínos de afeto. Gentileza, sim. Madrugadas e calor compartilhados, certamente. Mas, até para alguém tão inexperiente nos assuntos do coração, estava claro que nada disso era sequer próximo da ternura entre marido e mulher.

Talvez, assim como ela, Fendrel nunca tivesse amado alguém...

— Tio Fen fez algo de errado? — Amélia perguntou, limpando o suor da testa e deixando uma trilha de sujeira pela pele pálida.

Verbena desviou o olhar e riu.

— Algo de errado? — fingiu pensar, o polegar acariciando o queixo. — Talvez ter nascido bonito demais… ou com aquela maldita voz de um sabiá da meia-noite. As mocinhas frágeis se apaixonam e aí… — deu uma piscadinha. — descobrem que estavam dançando sozinhas.

A garotinha não captou a metáfora, apesar do empenho de Verbena que, no fundo, não entendia bulhufas de poesia. Então Amélia apenas soltou um resmungo preguiçoso, despedindo-se da conversa para disparar em direção aos amigos.

— São genes muito bons — brincou Mareen. — Até entendo Seryin não aceitar a derrota.

Verbena permitiu-se escapar suspiro desconfortável. No fim, a questão era simples. Para a infelicidade de todos, aquele bom partido — perfeito até a ponta dos fios de cabelo chamuscados — estava amarrado a alguém como ela. Recordista em vasos quebrados. Cabeça quente. Péssima com sentimentalismos. E, claro…

“Qual o seu problema? De novo! Ao menos cante no compasso!”

A pior trovadora que a vila já teve!

“É para dançar, menina! Virou um babuíno?”

Lembrar de suas aulas com a avó de Fendrel, Madame Calíope, lhe dava arrepios. Quando crianças, eram obrigados a passar por todos os setores antes de decidirem o caminho que queriam trilhar. E, graças àquela senhora ranzinza, Verbena passou a odiar com todas as forças do universo aquelas saias, a maquiagem e os gestos insuportavelmente delicados.

O que essa mulher vai dizer quando souber que seus netos irão herdar a genética terrível da gralha mais desafinada do vilarejo?

— Espera aí, Verbena… — o murmúrio emergiu descuidado, pois a naturalidade do pensamento exigia uma censura verbalizada — Quem falou em filhos?

— Filhos? Uau, já estão nesse estágio? — Kollin surgiu atrás dela, rindo do pulo assustado que a moça exibiu ao vê-lo. — Vai intervir? Sabe… é seu marido.

A moça, já recuperada do susto, pousou as mãos na cintura, arqueando a sobrancelha em modo zombeteiro. Ela e Kollin tinham uma conexão digamos que fraternal. O mesmo senso de humor, gostos parecidos e a preferência por resolver as coisas na base de um bom safanão naqueles que ousavam atormentar. Diplomacia servia para os trovadores. Fadas das marés e jardineiras conviviam bem resolvendo suas questões sem máscaras e adornos espalhafatosos.

Uma pena que nunca chegaram a se amar...

— E aquela é sua esposa.

Os lábios finos do rapaz puxaram de leve as sardas das bochechas, num sorriso enviesado. Cruzou os braços; os músculos do bíceps se destacaram mesmo sob a camisa de mangas longas. Então tombou a cabeça, analisando a discussão como quem estuda a antropologia humana por séculos.

Seryin gritava a plenos pulmões. Os cabelos desgrenhados, a trança malfeita, o peito arfando e as mãos estapeando o ar. Praticamente um incêndio prestes a consumir tudo ao redor. Ainda assim, a distância dificultava distinguir as palavras cuspidas com a fúria equiparada a dos sete imperadores de Calindor.

O que conseguiam ter certeza era que Fendrel permanecia calado a maior parte do tempo, resiliente, recebendo as bordoadas que talvez merecesse ou… quem sabe, aguentando as críticas apenas para preservar a imagem de Seryin.

— É… acho que eles se resolvem sozinhos. — Kollin deu de ombros. — Mas vou me aproximar, caso Fen tente a "manobra"…

Verbena franziu o cenho. O incômodo era inevitável:

Fendrel e Kollin tinham segredos? Desde quando?

— "Manobra"? Que "manobra"?

Ele só mostrou a língua, travesso, e começou a caminhar.

— Pergunte a ele depois…

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