Capitulo 19: Missão Irmãozinho Condenados a Voar · Capítulo 21 de 36
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Capitulo 19: Missão Irmãozinho

Quanto tempo havia se passado?

Fendrel não saberia dizer. No momento, caminhava irritadiço em direção à clareira principal, arrastando galhos pelo caminho, pobres vítimas de sua frustração. O alaúde balançava feito um pêndulo, agarrado a uma das mãos do dono, raspando nos obstáculos. O som do baque ecoava na caixa do instrumento, mas o companheiro inanimado já se acostumara com esses sentimentos sufocados. Incontáveis vezes fora reduto de acordes magoados e desabafos melódicos do medroso em questão.

Agora, porém… pareciam emergir do rapaz certas notas de valentia. Por isso, num delírio de iniciativa, o trovador ansiava por chegar em casa — quer dizer, na casa de Verbena — preferencialmente antes que sua determinação se esvaísse com o entardecer.

E, adiantando o questionamento: recusava-se a voar. Iria a pé!

Demorou horas para descobrir como esconder com magia seu novo tormento. Piada cruel… Aquelas asas, mesmo encobertas, pulsavam nas costas como um lembrete perverso de anos de rejeição e melancolia adolescente.

Pela Deusa! Que injusto!

Enfim chegou ao vilarejo. Manteve a carranca, sem se dirigir a ninguém, pelo menos não com os mesmos floreios e educação exagerada que costumava performar. O máximo que ofereceu aos mais chegados foi um pequeno aceno de cabeça ou de mão. Impossível manter a compostura; as palavras da deusa cutucavam sua consciência na cadênci de uma canção humilhante sobre suas péssimas escolhas.

Ah! Ele não a corrigiu? Essa seria a brilhante solução?

Pois, nesse caso, faria questão de desmentir todos esses infernos de mal-entendidos. Basta! Basta daquele dia, de Seryin, de seus temores idiotas. Mostraria para a soberana e enxerida Deusa — ao vivo e até com plateia, se existisse — que, mesmo gritando aos sete reinos que amava aquela mulher, Verbena inventaria uma desculpa tirada dos confins da completa falta de noção.

Seu ego fervia de aborrecimento enquanto subia cada um dos degraus do casebre. Girou a maçaneta e entrou sem pedir licença. Não foram necessários mais de dois passos e lá estava o suposto amor da sua vida, lendo um pergaminho sentada na cozinha. Imediatamente ela largou o entretenimento e pousou o copo de madeira com alguma bebida fumegante na bancada.

— Ver, eu preciso te falar uma…

— Espera, Fen!

Ela ergueu o braço e correu até o esposo. Por um segundo, o trovador até acreditou numa realidade em que a moça tivesse caído na real e, por livre e espontânea vontade, se jogasse em seus braços.

Mas… seria pedir demais.

Verbena parou logo à frente dele, a carta estendida entre os dois.

— Parece que seu irmão está precisando de ajuda.

Toda a proatividade de segundos atrás escapou pelos poros. Nem o destino — que no momento tinha o nome de seu irmão mais velho, Weisen — parecia disposto a ajudá-lo.

Pegou a mensagem e virou o papel. Seus ombros encostaram numa pilastra de cedro em busca de uma posição confortável para ler a caligrafia, que transitava no limiar entre a rebeldia e o ilegível e chamava pelo parente com urgência, mas, claro, sem se dar ao trabalho mínimo de explicar qualquer coisa além disso. A despedida, inclusive, subentendia seu aceite imediato de forma bem insolente:

”Aguardo você, no salgueiro do Bosque Oculto. Temos pouco tempo, mas acredito que virá.

Até breve, querido irmãozinho Fenfen. Não se perca no caminho.

Weisen Azvir”

— E, ao que parece — Verbena voltou a falar, agora com o envelope em mãos, apontando para um enorme carimbo lilás com o selo da deusa — não é algo que você possa negar.

— Eu já não poderia. Falhamos em ajudar quando…

O silêncio veio rápido e foi suficiente para estabelecer um entendimento entre os dois. Fendrel gostaria de ter sido capaz de ajudar a esposa do irmão. Na época, faltaram-lhe maturidade e habilidade. Por isso, carregava a sensação de estar em dívida eterna com Weisen. Lógico que às vezes o mais velho se aproveitava descaradamente da sua generosidade.

Este era um ótimo exemplo.

— É… não tem jeito — ele deu de ombros — nós partimos amanhã.

— Nós?

— Sim, nós. — Fendrel apontou para o selo — Missão aprovada, família Azvir.

Então segurou o pulso dela e aproximou do seu. Eis novamente a flor que a moça tanto temia, tatuada em ambas as peles, reluzindo o peso do seu novo sobrenome.

— Você faz parte da família agora. E minha avó certamente não foi chamada, se foi…Zen surtaria.

—Ótimo! Deve ter sido um presente da Deusa — ela riu, desdenhosa. — Uma lua de mel em Callindor.

— Se isso te consola, quando o Weisen chama, é tudo menos um clima de núpcias.

Entrando de vez na cozinha, Fendrel acompanhou a risada da moça. Fingiu completo desinteresse, procurando alguma coisa, que nem ele mesmo sabia nomear, nos armários. Depois da conversa com Freya — na verdade, quase um sermão — também acreditava na possibilidade de aquela aventura ser uma armadilha descarada. Como diria Calíope, havia creme azedo na sopa de alecrim.

Só que, dessa vez, mergulharia de cabeça naquela brincadeira.

Embora,estivesse rezando para não morrer do coração antes de alcançar seu objetivo. Nunca um ser — fada, metamorfo, híbrido ou humano — mexera tanto com ele apenas por resmungar como um esquilo fofinho, exatamente como Verbena acabara de fazer ao sair, ainda pensativa, no intuito de inciciae os preparativos para essa aventura suspeita.

Sim, a Deusa acertou em cheio, estava apavorado com o descontrole, mas haviam pontos interessantes… , como aquele arrepio delicioso na nuca assim que se aproximou dela mais cedo. Perderia por completo o juízo caso eles tivessem…

A porta do armário fechou tão rápido quanto ele censurou os próprios pensamentos.

É… foi melhor ter sido interrompido. Partir para cima da amiga como um bobalhão cheio de juras de amor provavelmente levaria a moça a ter um ataque. E, sim, talvez fosse um ataque positivo, no sentido de abraços calorosos e um “eu também te amo” digno de livros de romance. Mas voltemos à realidade: Verbena seria capaz de colocar Alféria inteira abaixo para silenciar a responsabilidade emocional jogada sobre ela.

Tentaria, ao máximo, deixar as coisas fluírem e estava disposto a abrir caminhos para que a moça entendesse de vez seu ponto. Nem que fosse preciso escancarar cada uma das portas de um subconsciente negacionista.

Mesmo assim…não seria fácil.

Virou-se, apoiando as costas na bancada, um único dedo batucava na borda madeira acompanhando os vários futuros passando ligeiros pela mente.

Entendeu bem a mensagem de Freya e não deixaria a esposa sem asas. Não enquanto as dele estavam ali, um manto invisível e angustiante.

Independente dos culpados, precisava se esforçar mais. Suas canções deviam ir além de meros acordes carinhosos aos ouvidos. Deviam carregar sonoramente o nome dela.

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