Capítulo 11: Primeiro Beijo?
There may be
Smart guys and tall guys - whose stronger than me
Ten times the charmer than I'll ever be
But one thing, Maria, I sure didn't miss
Your very first kiss
First Kiss, Alexander Rybak
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O silêncio que restou após o tumulto parecia mais sufocante que os gritos de antes.
Fendrel caminhou sem pressa até uma clareira. Não era a primeira vez que apagava um incêndio com a própria voz, mas...
Queria paz só por um instante.
Sentou em frente a um tronco, o corpo curvado, os dedos esfregando as têmporas como se pudesse espantar os problemas que se acumulavam. Sentia-se, no mínimo, culpado. Um grande canalha que, dentro da própria covardia, enganara os anseios de outra pessoa.
Mas Seryin não quis sequer ouvi-lo.
E ele, egoísta, estava imerso demais na própria felicidade para notar o caos dela. Afinal, que bênção não ter levado um tapa de Verbena naquela manhã, após uma noite inteira em que ela dormira grudada nele.
Lutou para abafar a esperança clandestina que se infiltrava perigosa em seus pensamentos. Difícil esquecer a febre que emanava da pele escondida pela camisola, a respiração frágil, mansa, escapando do narizinho arrebitado e os resmungos que a faziam mover-se sobre ele… cada curva, cada balanço sonâmbulo do corpo dela se tornava um convite para que sua mão ousasse desbravar territórios um pouco além da cintura…
Fendrel agitou a cabeça em negação assim que percebeu um sorriso abobalhado puxando o canto dos lábios. Os versos surgiam aos montes, exigindo desesperadamente uma nova canção sobre sua musa.
Pela Deusa! Parecia um adolescente…
Inspirou fundo, o ar de Alféria ainda tinha aquele perfume de orvalho e folhas frescas, tão familiar que parecia ignorar o tempo impiedoso que passava feito um lince sobre os pobres e desavisados mortais. Com um gesto lento, levou a mão à orelha esquerda. Os dedos encontraram o brinco de jade, frio contra a pele, guardando em si não só a memória, mas também o peso de anos de canções.
Fendrel fechou os olhos.
Por um instante, já não era o líder dos bardos, nem o homem que fez péssimas escolhas. Era apenas um garoto deitado na grama, rindo de bobagens e discutindo com a melhor amiga sobre o formato de uma nuvem.
E assim a lembrança veio, nítida como se o lago ainda fosse um espelho imutável do mesmo céu primaveril daquele dia…
🪽🪽
Há doze, talvez onze anos...
Duas figuras estavam deitadas de barriga para cima numa clareira de Alféria, aquele universo miúdo e mágico. Ao lado, uma lagoa deixava escapar respingos quando os peixes alados saltavam, suas asas cintilando antes de mergulhar de volta.
— Aquela parece um passarinho! — Fen esticou o dedo para uma nuvem gorda, fofa como um broto de algodão.
— Passarinho? — a outra voz desdenhou. — Parece mais um cachorro.
— Não parece.
— Parece.
— Não parece!
A teima virou riso abafado, um chutinho de leve na perna do outro. O silêncio seguinte foi preenchido pelo som delicado da água batendo na margem e pelo assobio da caixa de um alaúde esquecido debaixo da árvore.
— Sua vó Calíope é uma bruxa!
Verbena cuspiu, sem aviso, o comentário grosseiro entalado na garganta. Aquele desabafo inusitado fez Fendrel erguer as sobrancelhas e encara-la pra retrucar:
— E quando isso foi segredo?
A menina logo enrugou o nariz, arrependida.
— Ela me fez cantar e dançar na frente de todo mundo… — completou, choramingando, o dedo indicador cavando a terra úmida em busca de consolo. — Quando desafinei, gritou tão alto que achei que meus ouvidos iriam explodir.
Fen conteve o riso com o dorso da mão. Na verdade, estava se divertindo com a sinceridade dengosa que aquelas palavras carregavam.
— Bom… ela só queria provar que até as fadas jardineiras sabem soltar algum som além de resmungos.
Verbena chutou a perna dele outra vez.
— Idiota.
Alheio as lamúrias da amiga, ele rolou para o lado e tombou a cabeça para encostar no ombro dela. A grama fazia cócegas na pele, as nuvens passavam devagarinho, brincando de fabricar sombras que iam e vinham.
— Sabe, Vêr… se um dia quiser, eu posso te ensinar. — O som saiu calmo, tranquilizante. — Mas não pra agradar a minha avó. Nada disso precisa ser um inferno... No futuro, quem sabe, seja possível ensinar sem assustar metade dos alunos.
— Disse o irmão do passarinho daquela nuvem…
— AHÁ! Eu disse que era um pássaro!
Fen vibrou, triunfante, como se tivesse vencido uma guerra de séculos, enquanto Verbena deixava o ar escapar pelas narinas insatisfeita com sua derrota. Porém, as caretas do amigo não permitiram que sua postura ranzinza durasse muito tempo. . Logo ela se rendeu às gargalhadas: sonoras, desengonçadas, daquelas tão sinceras que fazem o peito doer.
E quando o silêncio voltou a reinar, por alguns instantes preciosos e raros, aquilo bastava: dois jovens deitados na grama, com o céu inteiro à disposição.
Mas Verbena era prisioneira de uma mente agitada. A quietude, longe de ser alívio, escancarava uma enxurrada de inquietações que a atormentavam dia e noite: a instrutora insuportável, o medo de não servir para nada além de plantar ou quebrar vasos e a possibilidade de ser apenas uma péssima influência atrasando os avanços do melhor amigo. Desejava externalizar aquelas angústias, mas as palavras pareciam trancadas, sufocadas por uma autoestima em ruínas.
Ergueu-se até ficar sentada e virou o pescoço na direção do amigo. Ao vê-lo de pálpebras fechadas, o sorriso leve ainda nos lábios, sentiu que…
Talvez… fosse melhor assim.
Ele percebeu o movimento, abrindo um dos olhos, atento ao discurso que, de alguma forma, sabia que viria.
— Tudo bem, você venceu, é um pássaro… — cruzou os braços, fingindo uma birra, enquanto o garoto mostrava a língua como um bom vencedor. — Merece seu presente.
— Presente?
Fendrel se endireitou num pulo, ajoelhando-se diante dela, o lago chiando atrás dele. Seus olhos rubis cintilaram de curiosidade, fixos no pequeno embrulho que Verbena retirava do bolso.
Após um momento de hesitação — os dedos apertando o presente com força — ela tomou coragem e, amparada por uma longa inspiração, estendeu o pacotinho.
— Feliz aniversário, Fen.
Como se temesse estragar o momento, o rapaz recebeu e desembrulhou o pacote devagar, puxando com delicadeza o laço improvisado que prendia o tecido marfim, até revelar um único brinco de jade. A pedra verde reluzia sob o sol da tarde; a textura lisa e perfeita denunciava o carinho com que fora esculpida.
— Como você conseguiu algo assim?
Verbena abanou o ar, desdenhosa.
— Não importa. Vocês bardos gostam dessas coisas, não é? — suas sobrancelhas assumiram um semblante debochado e o dedo indicador pousou curioso em cima do queixo — Essas firulinhas e adereços bonitinhos.
A garota esperava uma piada ou quem sabe alguns pulinhos de alegria. Mas ganhou apenas o coaxar de um sapo gorducho repousando despreocupadamente em cima de uma pedra do lago.
Fendrel ainda encarava o presente, quieto demais.
Na ausência de reações, uma ideia inocente passou pela mente dela. Sem demora, com a naturalidade de quem compartilhou toda um infância, Verbena se inclinou para perto da bochecha do garoto. Já tinha feito isso antes: um gesto de amizade. Afeto de criança.
Mas…
Fendrel se virou no mesmo instante. Os lábios se chocaram por segundos, breves mas inesquecíveis.
Imediatamente a menina reagiu, empurrando o amigo, que caiu na água.
— Imbecil! Por que virou?
Segundos depois, Fen emergiu do lago; suas pálpebras responderam com um piscar frenético, gotas escorrendo pelo rosto encharcado, a franja desengonçada pendendo à frente, sua capa boiando atrás de si, e o presente protegido no punho fechado.
Verbena se levantou, o rosto vermelho feito tomate, e se afastou com passos apressados. Nunca tantos palavrões foram ditos por uma adolescente em tão pouco tempo.
Naquele instante, ela não imaginava. Mas Fen lembraria daquele dia para sempre. De cada palavra, cada reação e, — acima de tudo — do beijo bobo. O responsável pelo feitiço tirano que condenaria seu coração a anos de amor não correspondido.
Ainda assim, foi com essa lembrança que ele compôs sua melodia mais poderosa, a que derrotou a avó na competição e lhe garantiu a chefia dos bardos. Inspirado pelas reclamações constantes de Verbena, mudou a forma de ensinar: música e dança não seriam provação, mas alegria. Trovadores deveriam ser genuínos para servirem a Deusa apropriadamente. E aos poucos, acorde por acorde, até os mais velhos e conservadores aceitaram.
Menos, é claro, Madame Calíope.
De qualquer forma, sempre soube que agradar a todos… nunca foi uma música possível de se tocar.