Capítulo 24: O reino das bolhas negras
Quatro dias inteiros de caminhada foram necessários para chegarem à primeira muralha do reino de Higmong. E… vale ressaltar que, em todas as noites, um certo cobertor foi dividido, com uma intimidade ainda desengonçada, um pouquinho maior a cada avanço de mãos que, em certo momento, até se entrelaçaram durante o sono.
Aos poucos, aquilo assumiu contornos de uma rotina que Verbena decidiu, enlouquecidamente, justificar. As incontáveis horas de marcha permitiram que sua mente, lamentavelmente, interpretasse a situação da forma menos embaraçosa possível.
Quando crianças, dormiam juntos também… então… era quase a mesma coisa.
Não?
Por mais que… nem ela mesma acreditasse tanto assim nessa desculpinha.
— Alto! Quem vem lá?
— Weisen Azvir Rufer!
O nome foi pronunciado a plenos pulmões na direção da ponta extrema da grande parede de mármore.
— Rufer? — Verbena cochichou no ouvido de Fendrel. — Viu? Ele pegou o sobrenome da esposa. E você enchendo meu saco por eu querer manter o Auralis.
— Eu nã… — o rapaz se interrompeu e sorriu, pois uma resposta melhor acabara de cair como uma luva em sua mente desaforada. — Posso pegar o seu também, se quiser.
— Não — ela abanou a mão em desdém enquanto passavam pelos enormes portões de ferro fundido. — Imagine, um Auralis taxado de canalha?
— E lá vamos nós de novo com essa conversa sobre sentimentos e levar fadas pro quarto. Alguma delas reclamou do serviço?
A moça torceu o nariz, desgostosa, e por pouco não trombou em um aldeão que levava dois baldes gigantes de água ladeira abaixo. Em Alféria, os burburinhos — praticamente lendas — sobre as habilidades de seu melhor amigo existiam aos milhares. E, principalmente quando não se tem asas, o vilarejo é pequeno demais para evitar que seus ouvidos sangrem com toda aquela ladainha.
Diversas vezes, porém, cogitou encarar o mar de escadarias em busca da paz dos andares superiores.
— Hum… Seryin me pareceu bem insatisfeita. Isso conta?
— Touché, mas… — levantou um dedo e se interpôs no caminho dela, andando de costas — Yin reclamou justamente porque queria continuar.
Verbena revirou os olhos ao som das risadas insuportáveis do trovador.
Homem exibido…
— Se for assim, ninguém nunca reclamou de mim também.
— Pois é… e, vamos contabilizar direitinho, alguns até criaram confusão no meio da floresta por você. Então, estamos moralmente empatados.
— Virou uma competição agora, Fen? E qual de nós seria o melhor de todos?
— Não sei — deu de ombros — teríamos que competir ou… — o rapaz foi incapaz de segurar por completo o riso, puxando a ponta esquerda dos lábios — dormir juntos.
Cruzaram a muralha da cidadela e esperaram Weisen conversar com alguns cavaleiros; na armadura reluzia um símbolo curioso de bolhas de sabão negras. Mas o casal nem se importou com aqueles detalhes.
— É… — a moça ergueu o narizinho, confiante — ganharia com certeza.
O bardo gargalhou, levando a mão à barriga. Impressionante… nenhuma mulher — incluindo metamorfas e súcubus — resistira tanto tempo a ele. E Verbena tinha uma cartada maldita: ficava linda quando flertava. Embora a ela estivesse encarando a conversa como qualquer outra coisa, menos flerte.
O que importava aquela competição? Ajoelharia só por um beijo dela.
Ainda assim, a tentação de um bom galanteio exigia continuar a conversa:
— Desse jeito todo envergonhadinho… — estreitou os olhos — acho que não. Mas, se quiser experimentar, é só avisar. Podemos fazer uma escala de pontuação e, quando eu ganhar, quero ser chamado de “grande deus do charme”.
— Você anda muito abusado.
— E você anda pouco abusada.
O entretenimento daquela conversa teve um fim gradual conforme subiam as escadarias de um enorme castelo branco, coberto por cristais negros encrustados nos contornos das abóbadas e pilastras. Boquiaberta, Verbena espiou por todos os cantos. Nunca vira um reino tão espalhafatoso na vida. Muitos soberanos gostavam de ouro e esmeraldas, mas aquelas gemas… havia algo nelas que capturava a atenção sem piedade.
— Sabem como obter uma safira negra? — a fada comentou, ainda observando as paredes. — Dizem que só alguns anões as fabricam… e é preciso o sangue de um dragão inteiro para produzir algumas dúzias. Até o polimento é feito com as escamas.
— Parece cruel…
Verna, a druida, massageou a própria garganta em busca de consolo. Priscilla, por sua vez, estava prestes a rasgar as bordas gastas de um remendo no tecido da manga da amiga, posto que, apertava o braço da aventureira com força. Cada sombra que saía das frestas do lugar que um dia chamou de lar a deixavam mais e mais acuada.
— Sinto-me no dever de informar que Yvoan é meio excêntrico — Weisen enfim tomou a palavra — não o levem a sério. O garoto gosta de irritar as pessoas levando elas ao ápice do descontrole para depois se fazer de vítima.
— Hum… — Verbena deixou escapar um assovio divertido — cada Azvir tem um jeito diferente de controlar os outros.
— É o que trovadores fazem. — Fendrel piscou na direção da amiga. — Mas Yvoan está mais para tirano do que trovador.
Continuaram a marcha. Os passos ecoaram pelo chão espelhado e depois pelas escadarias limpíssimas. Os detalhes exalavam um perfeccionismo beirando o hipocondríaco. Pequenos descuidos seriam certamente suficientes para quebrar ou sujar alguma coisa.
Não demorou para chegarem ao salão principal do segundo andar. A sala do trono se estendia com um tapete roxo de uma ponta a outra, guiando o caminho até uma cadeira encrustada com as mesmas joias de todo o palácio. E, sentado sem qualquer pompa, um homem de orelhas pontudas e cachos loiros curtos comia framboesas de um pote ao lado. O tronco se apoiava em um dos braços do trono, e a parte de trás dos joelhos, no outro.
Conforme se aproximavam, Verbena duvidou por um instante que aquele fosse de fato o soberano. Acontece que traços muito familiares saltavam, despudorados, da tez queimada pelo sol e, de alguma forma, havia na postura dele a mesma petulância típica dos Azvir. Algo lhe dizia que o sujeito herdara, com exceção da aparência diabolicamente sedutora, apenas o pior da família.
— Pai, o que você… Oh! — os olhos negros pousaram em Fendrel com um sorriso torto, que logo se alargou ao ver Verbena. — Então meu titio cansou daquela peituda gostosa e trouxe carne nova. Bonita…
— Cale essa boca suja, Yvoan.
Tanto Weisen quanto Fendrel pronunciaram a repreensão em uníssono e, de imediato, se posicionaram à frente da fada jardineira, que cruzou os braços, ligeiramente irritada.
Não precisava que ninguém a defendesse. Eu, hein!
— Vou falar o que eu quiser — meneou a cabeça para os guardas dispostos em fila pelo ambiente — mais uma vez: o que querem aqui?
Priscilla começava a balbuciar sons sem nexo, escondida atrás dos ombros da druida. À primeira vista, diriam que a pobre coitada carregava apenas medo. Verbena, porém, ousou analisar com atenção redobrada: os dedos da trovadora estavam crispados no colete de Verna, e as íris azuladas ardiam de puro ódio.
— Ah, entendi… — Yvoan se ajeitou — como vai, Pria? Sem voz perde a coragem? Porque, para negar o meu pedido semanas atrás, parecia um dragão soltando fogo pelas ventas. Que tal, da próxima vez, não sair se oferecendo para qualquer um?
O pressentimento da fada jardineira estava mais do que correto: Priscilla partiu para cima do monarca, descontrolada. As lâminas se ergueram e, por sorte, Weisen e Fendrel a seguraram antes que alcançasse o parente arrogante.
— Filho, quando você vai aprender… que não pode ter tudo neste mundo?
— Ah, eu posso, sim. E acabei de ter uma ideia brilhante. Querem a voz dessa vagabunda de volta? Pois bem! Deixem-me conversar com a deusa Freya e…
— Não é assim que funciona, híbridos não entram em Alféria. — Weisen pressionou as têmporas, numa busca desesperada por paciência. — Yvoan, escute: se eu pudesse, daria minhas próprias asas para você. Mas não é assim que funciona… tem que aprender que amor é sobre parceria.
— Parceria? Como a miserável da minha mãe, que largou um reino inteiro para morrer numa casinha aos pedaços com seres mágicos completamente incapazes de salvá-la?
Foi a vez de Fendrel se irritar.
— Naquela “casinha aos pedaços” — fez aspas no ar — existiam duas pessoas que se amavam. E isso vale mais do que vestidos de seda, joias e porcos assados no jantar. Mas você, sobrinho, é tão limitado que não entende… o mundo pode explodir lá fora se, do seu lado, existe alguém que faz dos seus dias os melhores da sua vida.
— Bonito — Yvoan bateu palmas. — Nem parece o grande canalha que já levou uma das minhas.
— Mulheres não são propriedade, vamos começar por aí…
Todos se voltaram para Verbena, surpresos pela interrupção da conversa de família. Honestamente, cansou daquele papinho e decidiu transformar aquilo em um jogo.
Achavam que só Fendrel e Kollin colecionavam histórias? Não… ela também já lidara com gente — e criaturas — problemáticas o suficiente para reconhecer um ego inflado à distância.
Yvoan era do tipo mimado. Não adiantava argumentar, pois as palavras entrariam por um ouvido e sairiam pelo outro. Homens assim não cedem à razão; cedem quando o orgulho é ferido.
E ela pretendia esmagar o dele. De preferência com uma imensa árvore de sequoia.
Sobrinho malcriado…
— Pense bem… Yoan… Yzoan? Qual é mesmo o seu nome?
O tom irreverente foi suficiente para prender as palavras na garganta de vossa majestade, que hesitou — mais curioso do que irritado —, querendo ver até onde aquilo iria antes de reagir. Diversas réplicas ofensivas lhe passaram pela mente, mas ele se limitou a uma breve correção:
— Yvoan…
— Entendi… Yvoan.
Verbena fez uma longa pausa dramática e avançou, passando à frente dos homens que, minutos antes, eram suas instáveis muralhas de proteção. A unha batucava, com falsa distração, no queixo. E, quando a quantidade de rosnados do reizinho atingiu o ponto perfeito, continuou:
— Por exemplo, Fen não teve que castigar mulheres para se deitarem com ele.
Ela levou o dedo à ponta do nariz do amigo e o deixou deslizar pela bochecha em direção ao maxilar tenso. Fendrel engoliu em seco. O ar faltou por um segundo, o cérebro falhou e ele chegou perigosamente perto de ceder ao impulso de se inclinar e acabar com aquela distância ridícula.
Pela deusa… isso lá são horas de reagir assim?
Quando reconquistou a capacidade de raciocinar, Verbena já havia se afastado. Agora estava ao lado de Weisen, apoiando-se em seus ombros, a mão apertando de leve o antebraço musculoso.
— Acha que foi isso aqui que conquistou sua mãe? Contribuiu, tenho certeza… mas lamento informar: a princesa abandonou suas regalias finas porque valia o risco. Estamos falando de homens que nunca forçaram. Debaixo dos lençóis, ou, quem sabe, atrás de uma pilastra no jardim … não vou julgar as preferências… esses dois mereceram cada súplica por mais.
Os irmãos Azvir se entreolharam, incrédulos, talvez também um pouco envergonhados.
Não eram eles os trovadores?
O mestre dos bardos tentou falar, abriu a boca, fechou e ficou ali, deliciosamente preso a uma sequência de ideias pervertidas sobre a dominação que Verbena encenava naquele momento. A vista se perdeu no balançar confiante dos quadris da mulher que insistia em alegar não possuir ritmo algum.
— E você, Yvozinho — a voz desceu, rouca e desafiadora —, com esses exemplos, o que tem a oferecer além de birra?