Capitulo 21: A Trovadora Muda Condenados a Voar · Capítulo 23 de 36
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Capitulo 21: A Trovadora Muda

O salgueiro do bosque oculto não se chamava assim de graça. Essa árvore estupidamente alta se erguia sobre as outras copas; suas folhas formavam teias naturais, escondendo o que quer que acontecesse ali dos mais curiosos.

Flutuando no ar, um portal se abriu, e dele foram cuspidos nossos protagonistas: primeiro Fendrel, depois Verbena, que caiu bem em cima do amigo. Depois de uma rápida pausa para controlar a adrenalina pós corrida, os dois ergueram as cabeças e riram.

— Eu ganhei!

— Ganhou nada Fendrel! Aquelas sombras foram trapaça.

— Trapaça? Você saiu na frente!

— Nana nina não, eu estava nivelando o jogo…e ai!

As testas colidiram sem querer. O estalo de dor trouxe lucidez suficiente para que compreendessem, enfim, a cena: o rapaz, meio sentado, meio deitado na grama apoiado pelos cotovelos, e a fada-jardineira, de quatro, exatamente sobre ele. Rostos próximos, como há um dia atrás, minutos antes da frase sobre canalhas e sentimentos.

— Er… eu…

A respiração dela vacilou, enquanto Fendrel sorria, plenamente ciente do “problema” desde o princípio. Ou melhor: problema pra ela; pois, pra ele, nascia ali outra oportunidade.

Demorou mais do que gostaria para perceber que Verbena não o estava rejeitando. A pobre moça ficava desarmada com as suas investidas, sem saber muito bem o que fazer com aquilo. A Deusa tinha razão, precisava ser mais específico pois a certeza da reciprocidade já existia com a união dos destinos.

Pois é...o que uma puxada de orelha não faz, não é mesmo?

— Está bem… — disse bem baixinho. Ao mesmo tempo, inclinou o rosto e roçou o nariz no dela, devagar, num carinho cheio de ternura que ele nunca fez questão de demostrar a mais ninguém, em qualquer dimensão. — Se você não me der um soco pelo que vou dizer agora… a vitória é sua.— Fez uma pausa e deixou um pensamento indecente puxar a ponta dos lábios num sorriso abusado. — Na verdade, o mais absurdo é que talvez eu até goste de levar essa surra…

— Fendrel, o que…

— Tem noção do quanto gosto de você? — murmurou. — Desse jeito… teimosa, agressiva… derrubando vasos por aí e calando a boca de mandrágoras só com um olhar torto… — A palma direita subiu discreta pelo braço da moça, e ele pôde sentir o arrepio a cada centímetro vencido. — …mas essa versão sua, toda sem jeito, é, sem sombra de dúvidas, a minha favorita.

Bem de leve, a mão de Verbena pousou no peito do amigo, mas não o afastou. Por que negar aquilo? E se... só experimentasse ? Deixar acontecer um…

Não! Sua doida!

A repreenda inconsciente ofereceu a coragem necessária para se jogar pro lado. E por sorte, logo em seguida, burburinhos ao redor do bosque encerraram qualquer abertura que Fendrel pudesse ter para continuar a discutir o desejo e quase impulso que ela nem sabia que existia dentro do coração.

— Ah, vai, mostra as suas asas! Nunca vi uma fada na vida — o timbre feminino desconhecido choramingava ecoando de algum lugar muito próximo.

— Sai pra lá, garota! Se você ou o Aron contarem pra alguém, vão morrer. Anote isso aí. Ah, é… acho que não sabe anotar. Da última vez não conseguiu nem ler um mapa!

O bardo e a amiga se levantaram à procura de seus pertences. Do lado esquerdo da clareira, o homem que anteriormente praguejava afastou o véu de folhas, entrando no ambiente, apenas para cessar de repente a marcha irritada, surpreso com a cena. Espiou Verbena, depois Fendrel, os olhos saltando de um para o outro enquanto a mente processava o milagre que pediu a Deusa por vários anos. Sendo mais específico… por milhares de anos.

— Verver! Não acredito! — abriu os braços e correu na direção da moça de cabelos azuis, que se deixou erguer alguns centímetros acima da grama num abraço sufocante.

Weisen não mudou nada. Os mesmos cabelos negros, presos numa trança desajeitada. Considerando os fios soltos nas bordas, o sujeito dormia sem desfazer o penteado com frequência. Ao que parecia, sua coleção de brincos na orelha pontuda direita dobrou desde a última vez que o vira. Finalizando a apresentação do excêntrico irmão mais velho , um gibão verde e uma calça vinho formavam um conjunto terrível para a moda local e interdimensional. Ele ainda era um trovador, mas sua preocupação com a aparência nem se equiparava à de Fendrel. Em contrapartida, seus músculos…como dizer sem parecer uma pervertida?

Olha… só vamos dizer que o cara lembrava mais um lutador do que um músico.

— Digam, anda! Já tenho sobrinhos? Quero nomes, nomes, meus senhores!

Quando Verbena reencontrou o solo, escondeu o rosto atrás da mochila.

— Não! Zen! Nós somos só amigos.

Fen deu um passo na direção deles e ficou quieto, limitando-se a observar a situação. Evidente que, se alguém perguntasse, não negaria sua frustração contra todas as malditas vezes em que Verbena dizia que eram só amigos… Caso tivesse algum dia coragem pra beija-la e moça ousasse insistir nisso, entraria em surto com completa certeza.

— Longe de querer estragar esse momento em família… — uma garota baixinha interrompeu, tossindo algumas vezes para chamar mais atenção — Weisen, nosso tempo é meio curto.

— Verdade! — o homem estalou os dedos. — Essa aqui, pessoal, é… Verbena, a famosa druida dos Pomares Verdejantes. Ela cobra extremamente caro, tem medo de lobos e é insuportável...

Weisen foi cotovelado pela menina, o nariz dela virou um focinho de pantera para oferecer um rosnado amedrontador.

— Eu já falei que a culpa não foi minha!

— Curioso… — Fendrel enfim falou pela primeira vez e captou completamente a atenção de todos — o nome Verbena…

— Ah, isso é fácil de explicar. A família dela conheceu a nossa Verbena.

— Oh! Pomares Verdejantes! — a fada jardineira tapou a boca, surpresa — Você… ainda estava na barriga da sua mãe naquela época.

— Sim! — a druida acenou pra eles oferecendo um sorriso imenso de palpebras fechadas— Eles colocaram seu nome em homenagem. Mas, podem me chamar de Verna. Fiquei surpresa, achei que você nem existia… algo como uma deusa.

— Deusa? — a jovem balançou os braços à frente do corpo —Estou longe disso. Na real…dizem que eu sou meio esquentadinha, não sobrariam fiéis.

Por descuido, um movimento convencido demais a fez encarar Fendrel, que a analisava com uma intensidade assustadora. Mal sabia a mulher que, na cabeça do trovador, o termo deusa até que estava próximo do que ela significava. Mas preferia a palavra musa.

O pequeno constrangimento foi interrompido pelo assobio de Weisen, feito com dois dedos sobre a boca. Logo depois, gritou:

— Priscilla! Ela não estava atrás de nós?

Atrás de uma árvore menor apareceu outra figura. Cabelos dourados como mel, praticamente ouro forjado em mechas. Curvas sinuosas, quadris largos, tudo ainda mais marcado pelo corpete de malha metálica. E na cintura, onde deveria existir uma espada, na verdade repousava uma harpa em miniatura. Ela se aproximou com passos curtos, suas mãos escondidas atrás das costas, mas as pupilas curiosamente presas em apenas uma única pessoa: Fendrel.

Antes que Verbena pudesse sequer sentir pontadas do que poderia ser ciúme, o trovador deixou o ar silvar em alegria e recebeu a humana com visível afeto, acariciando os cabelos dela.

Quem era aquela mulher? E por que toda aquela intimidade?

— Pria! Quanto tempo! — coçou o próprio queixo, incrédulo — é assustador como o tempo passa aqui. Essa garota chegava na minha barriga da última vez. — apontou para o instrumento — Então virou trovadora?

A musicista tentou responder, porém o que saiu da garganta não passou de um sussurro incompreensível. Fendrel franziu o cenho e encarou Weisen.

— Zen… o que aconteceu?

— Você sabe o que aconteceu. Qual criatura rouba vozes em Callindor?

— Sereias…

Verbena respondeu sem nem ao menos raciocinar. Honestamente a possibilidade de conhecer uma dessas criaturas a deixava bem animada. Só sabia delas pelos contos de Kollin, que as odiava com todas as forças, chamando-as de “demônios aquáticos”. Segundo a fada das marés, as senhoritas “rabo de peixe” eram piores que trovadores, tão falsas e aproveitadoras quanto donos de tavernas no meio do nada.

E, antes que pergunte, é óbvio que Kollin já teve um caso com uma.

— Zen, você não quer que…

— Sim, vamos encantar uma sereia.

Prestes a gritar de entusiasmo, a moça conteve o surto ao perceber o súbito clima de tensão entre os irmãos. Fendrel levou a mão até as têmporas, transtornado.

— Enlouqueceu? Esqueceu como nossa mãe…

— Ela não tinha o seu poder.

— Que se dane o meu poder… — ele encarou a humana, que, completamente deslocada, segurava o braço da druida em busca de qualquer apoio emocional — Desculpe, Priscilla, não posso fazer isso.

— A questão não é o que tirou a voz dela — Weisen soltou um suspiro pesado, suas palavras custavam anos de dores e insatisfações — É quem armou tudo…

Houve uma breve pausa antes da revelação e, pela reação de Fendrel — cruzando os braços e apertando os dedos contra a camisa — o rapaz já sabia do que se tratava.

— …seu sobrinho.

— Sobrinho? — Verbena não deixou o silêncio emergir. — Você teve um filho, Zen?

— Infelizmente. E aquele garoto… não é só um problema, prefiro chamar de tragédia.

Fendrel riu. Mas não havia humor nenhum naquele som arrisco.

— Por que ele fez isso? Ciúmes?

— Você sabe o que aquele pilantra procura… —o desabafo de Weisen saiu diluído em desgosto. — E, quando é rejeitado… bom…ele tira das pessoas aquilo que mais amam.

— Sobre a sereia… — Fen se perdeu por um instante, mas logo recuperou o foco. — me deem um tempo para digerir. Agora, sobre o meu querido parente Yvoan Azvir… pode ter certeza de que o filha da mãe vai ficar com a orelha quente de tanto que eu vou puxar.

Após a frase decidida, o mestre dos bardos começou a caminhar para longe do salgueiro, com a trupe em seu encalço. Ficou claro para Verbena o que o amigo quis dizer com “quando Zen chama, é tudo menos uma noite de núpcias”.

Aquela missão seria, no mínimo, complicada.

— Zen…

Ela sussurrou, fazendo o Azvir mais velho se inclinar para escutá-la. Sim… ao que parece, todos naquela família eram insuportavelmente altos!

— O que seu filho procura?

O homem fechou os olhos e escondeu as mãos nos bolsos. Queria driblar o próprio aborrecimento e, provavelmente, ocultar as sucessivas negligências com a pouca família que tinha. Mesmo assim, se esforçou para responder:

— Yvo quer o que temos por ordem divina: asas. Só que, não sei se o garoto é capaz de amar de verdade.

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