Capitulo 26: Primeira dança Condenados a Voar · Capítulo 28 de 36
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Capitulo 26: Primeira dança

Verbena protestou diversas vezes, mas, após a insistência do melhor amigo, foi carregada nas costas de uma ponta a outra do reino. Metade do dia eles passaram comprando mantimentos, poções e munição. Quando terminaram seus afazeres, o sol se escondia manhoso nas bordas do mundo, os últimos raios alaranjados se despedindo para dar espaço a noite fria de Calindor, que exalava, pela esquinas e vielas, cheiros de pãezinhos doces de canela e carne de javali assada na brasa.

—Fendrel… —a fada jardineira puxou de leve a orelha do trovador —estou bem, posso descer.

—Tem certeza? Quanto tempo dura o seu efeito colateral?

—Nunca sei direito.

—Então vai continuar aí.

Ele ajustou a moça nas costas, empurrando as coxas dela para cima. A reção foi instantânea: ela rosnou, sacudindo os braços irritados e por muito pouco não desequilibrou seu ajudante para a esquerda.

—Tira a mão daí!

—Desculpa —o rapaz riu. —De qualquer forma, estamos chegando.

—Chegando onde?

Weisen surgiu ao lado deles, arrastando duas enormes sacolas de pano pelas pedras que formavam a estrada. Inspirou algumas vezes, diminuindo a marcha para acompanhar os parentes e, assim que o fôlego retornou, decidiu participar da conversa:

—O mais importante: está melhor? —após o aceno da cunhada, ele prosseguiu— Bem… agora, sua pergunta: vamos passar a noite num inferno cheio de depravados chamado Taverna dos Birutas. E, com sorte, encontraremos por lá os filhos da puta dos irmãos Twins.

—Ouvi falar deles uma vez —Verbena discretamente puxou um fio de cabelo do amigo como repreensão pela mão boba, que insistia em avançar para regiões um tanto indecentes —Não são aquelas fadas das marés renegadas? As que acreditam na lenda das asas por nascimento?

—Semelhante atrai semelhante —Fendrel comentou, soltando um resmungo de protesto frente à dor na raiz dos cabelos que latejavam depois do pequeno castigo —existem muitos de nós que não aceitaram a determinação da Deusa.

—E como vamos descobrir onde mora a tal sereia?

O questionamento veio com o som pesado de patas contra os ladrilhos. A druida surgiu na esquina, ainda na forma de urso, ocupando praticamente toda a largura da rua ao dobrar a curva. No lombo, mapas enrolados pendiam em cordões, e Priscilla tirava um cochilo, agarrada ao pescoço do animal, usando a mochila como travesseiro.

—Existe uma característica peculiar de um dos irmãos —Weisen encarou o mais novo, que bufou só com a indagação —querer experimentar as mocinhas que gostam do Fenfen.

Verbena franziu o cenho. Estava começando a entender o plano daqueles dois e, certamente, isso a incluía.

De uma forma que não lhe apetecia nem um pouco.

—É uma competição por conquista ou…

—Eu não faço ideia —disse Fen, num tom pouco amigável —Mas, quando tentaram partir pra cima da Seryin, o escândalo foi bem engraçado.

—Pois é… completamente humilhados —o Azvir mais velho puxou com força uma das sacolas que se prenderam em um obstáculo —Mais um motivo pra virem com tudo dessa vez.

—Peraí, peraí… Zen, Fendrel… vocês não esperam que eu…

—Sim —Weisen interrompeu, com as sobrancelhas erguidas, cheias de astúcia —vocês já são casados por ordem da deusa. Hora de exercitar esses chamegos aí. Vamos criar uma situação de ciúme, fingir que brigaram. E nosso alvo galanteador acudir a pobre Verver aos prantos, daí… —balançou a cabeça no ar, como se já visse a cena— daí… ah, vocês sabem. Nossa parceira badass entra com suas flores e espinhos assustadores, intimida o sujeito e voilà: informação na mão e duas fadas sem vergonha borrando as calças.

De canto de olho, ele espiou a cunhada, que já tinha se enterrado na capa do irmão mais novo, numa tentativa inútil de desaparecer dali. Mesmo assim, o murmúrio manhoso e até fofinho saiu abafado pela lã pesada:

—Eu não gosto de como vocês dois resolvem as coisas.

Em uníssono, os irmãos riram e disseram:

—Bem-vinda à família Azvir.

(...)

Verbena não queria dar o braço a torcer, mas Weisen tinha razão: aquele lugar era um inferno. Insuportavelmente quente, conversas altas, risadas piores ainda. Uma taverneira de meia idade circulava entre as mesas com uma carranca de poucos amigos, esbanjando os poucos dentes que tinha apenas para clientes muito específicos, Fendrel incluso.

Para o resto, especialmente as mulheres, sobravam rosnados baixos e olhares possessivos, sempre voltados para aquele que ela claramente tratava como seu marido: um sujeito barrigudo, suado, que ocupava espaço numa mesa onde jogava cartas com um bando de tipos tão desagradáveis quanto ele.

Verbena cruzou os braços e as pernas.

Já odiava aquele lugar.

Mas, se pudesse ser ao menos um pouco otimista, a bebida e o cheiro que se esgueirava, tímido, do outro lado do balcão pareciam carregar um bom gosto invejável. A música também não deveria ser ofendida. Por outro lado, a coreografia desastrada dos pares no salão facilmente faria Madame Calíope enfartar ou chicotear todos com cordas gastas de violoncelo.

—Veja pelo lado positivo. Aqui não precisa se preocupar em saber dançar.

Fendrel sussurrou ao pé do ouvido dela, que afastou a cadeira, num pulo assustado frente a aproximação repentina. Ele riu e se levantou, estendendo a mão.

—Não… —a jovem fez sinal negativo com a cabeça e um X com os braços— nem pensar que eu vou…

Agarrada pelo pulso, nem precisou de muita força para ir direto ao encontro do amigo. Os troncos colidiram, e aquela familiar mão assanhada se abrigou na lateral da cintura.

—Se tivesse aceitado minhas aulas na adolescência… —ele entrelaçou os dedos livres nos dela— saberia que dançar é pra se divertir.

—Não foi isso que a sua avó ensinou.

—Eu não sou a minha avó —a timbre veio baixo, roçando perto da bochecha dela— sou seu marido. Vai, dê uma chance —voltou a encará-la e fez um biquinho pidão— Pense bem, precisamos fingir. A esposa de um trovador negaria uma dança?

Verbena mordeu o próprio lábio, nervosa. O que responder? Precisavam da informação e, pelo que compreendeu, não seria fácil separar os irmãos de outra forma.

E...vale notar aqui uma coisa importante: a proximidade íntima ao extremo, com corpos compartilhando o calor como se fosse um só, curiosamente a incomodava menos do que a mera possibilidade de dançar pelo salão.

Fendrel contou os segundos sem retorno. Cansado do extenso e demorado raciocino da mulher deu seu próprio veredito:

—Quem cala consente.

Ele a guiou com rodopios para mais próximo da banda.

Separaram-se um pouco, e a jovem tentou copiar os movimentos dele. A cantiga era muito conhecida pelos aldeões, que batiam palmas e sapateavam com os saltos castigando o piso. Nem todos no compasso correto, pois, na verdade, isso não importava tanto assim.

—Viu? Está indo bem —gritou para ser ouvido, apontando para as pernas visivelmente desorientadas da fada jardineira—Só precisa de prática.

—Pare de ser mentiroso. Sei que a visão daí deve ser uma comédia.

De fato, no início, os passos foram pesados, lentos como uma tartaruga e tão desajeitados quanto um pato caminhando até o lago. A cada giro, seus pensamentos rodavam junto. Até que Fendrel percebeu sua agonia e a puxou de novo para perto. Ela olhou para o chão, as tábuas gastas acusando quantas festas já passaram por ali. Mas sua atenção estava em outra coisa.

—Vou sobreviver se for chutado —o rapaz adivinhou sem esforço — pare de pensar nisso. Vou tentar te ajudar, aqui, vamos testar isso: um, dois, três… e gira.

O movimento não foi nada elegante, só um puxão rápido que a fez dar uma volta meio torta. Alguém ao lado riu. Outro casal chegou muito perto de esbarrar neles.

O progresso foi feito verso a verso, Verbena ainda tropeçava, mas já não estava inteiramente perdida. Seu corpo começava a acompanhar antes que razão conseguisse reclamar. Conforme a música se tornava familiar, um sorriso tímido foi emergindo do esforço bem sucedido e o gesto não passou despercebido pelo mestre dos bardos:

—Está se divertindo?

—Calado!

Da repreensão veio a desatenção, e um passo em falso fez o calcanhar ceder e as botas perderem a base. Por um segundo, Verbena aceitou a queda, e se limitou a acompanhar as lamparinas e o teto percorrendo a vista.

Mas Fendrel apareceu, segurando firme as costas dela. E, assim que os pés reencontraram abrigo e o peso se firmou nas tábuas de madeira, o bardo já a estava puxando para o lado, girando os dois num movimento amplo que desviou de uma dupla visivelmente desnorteada por incontáveis barris de hidromel.

—Opa, essa foi por pouco. Tudo bem, Ver?

A resposta, porém, foi uma gargalhada prazerosa aos ouvidos, temperada pela adrenalina da queda. Ela apoiou a cabeça no peito do trovador, esperando que seu coração e o dele se acalmassem ao menos o suficiente e, quando enfim ergueu o rosto, disse:

—Confesso… é um pouco divertido, sim.

Fendrel sorriu, quase fechando as pálpebras, tamanha a animação. Por quantos anos tentou trazer aquela mulher para fazer algo daquele tipo? Quebrar os demônios e preconceitos construídos pelas lições desmedidas de Madame Calíope.

Havia, sim, um tipo de coreografia própria para agradar, mas essa arte era reservada àqueles que precisavam convencer pela interpretação. Aos demais, mortais sortudos, a dança deveria ser, acima de qualquer outa coisa, a pura canção que o corpo queria demonstrar.

Trouxe-a bem próxima, erguendo-a de leve num abraço apertado. A moça podia sapatear como um elefante, que ele ainda acharia a coisa mais fofa e, curiosamente, sedutora de todas as dimensões porque era Verbena: sua melhor amiga e aquela com quem sempre quis compartilhar suas dores e alegrias. Ela o enxergava além daquela maldita — e ao mesmo tempo abençoada — voz de canário e de suas habilidades de galanteio.

A música perdeu volume, e apenas uma harpa solitária permaneceu, como se consagrasse os casais e, por alguma dádiva muda do universo, incentivasse a proximidade entre os dois. Ainda com ela nos braços, Fendrel deixou uma das palmas deslizar pelas mechas azuladas da fada jardineira, que surpreendentemente aceitou o carinho, seja pela encenação ou porque a alma simplesmente precisava daquele aconchego.

De relance, o bardo percebeu Weisen no balcão, com um sorriso zombeteiro estampado no rosto. O mais velho aproveitou o momento de atenção e apontou discretamente com a caneca para duas figuras, algumas mesas à direita.

Os irmãos Twins.

E lá estava a conquistadora inescrupulosa: Lisandra Twin, que descaradaramente pousava os pupilas enormes e famintas nas costas de Verbena, enquanto lambia os lábios lambuzados de cerveja.

Como sempre… o que é bom dura pouco.

—Ver… acho que temos um problema.

—O quê? Eles chegaram?

—Também… mas antes…

Ele apertou um pouco o enlace, impedindo que se afastasse. As íris carmesim, que há pouco brilhavam em divertimento, vacilaram entre o nervosismo e a coragem, tudo influenciado pela euforia das canções. Foi assim que as palavras se formaram, sílaba após sílaba e quando Fendrel encostou as testas, uma confissão explodiu direto do coração:

—Eu virei um trovador que só quer dançar com você pro resto da vida.

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