Capitulo 31: O que realmente importa? Condenados a Voar · Capítulo 33 de 36
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Capitulo 31: O que realmente importa?

Foi assustadoramente fácil enganar Lissandra. Bastou um choro baixinho e uma corrida teatral rumo aos fundos da taverna. Em poucos minutos, o alvo já começava sua investida, desenrolando um extenso discurso sobre o quanto os homens eram uns miseráveis egoístas. Verbena, na verdade, até concordava com algumas colocações.

Mas a missão exigia pressa. Para tanto, recorreu ao seu melhor repertório de “ficadas”: uma mãozinha boba sobre a coxa de Lissandra, as unhas deslizando de leve sobre o tecido. Nada no nível de Fendrel Azvir, é claro, embora desse para o gasto. Assim, entre uma mordidinha no lábio e outra, as duas seguiram direto para o andar dos quartos.

Quando a porta bateu, Verbena lançou uma boa dúzia de sementes ao chão. Ao seu comando, até as mais resistentes brotaram. O alvo, porém, foi astuto: a Fada das Marés drenou a água das primeiras mudas de uma só vez, secando-as do caule à base, impedindo que sequer começassem a criar raízes.

— Devia saber… — Lissandra cuspiu . — Todas as namoradinhas do Fendrel são marrentas. O homem gosta de um chicote.

Acontece que a fada jardineira tinha muita experiência com controladores de água. Em especial com o melhor deles, na sua humilde opinião: Kollin. E vamos lá… acham que ele fugia dos castigos dela só por isso?

Nana nina não!

Mais cinco brotos se instalaram nas tábuas do assoalho. Lissandra ergueu o indicador para secar o fluido delas… e parou.

Não estavam murchando.

Antes que pudesse reagir, foi arremessada contra a parede e presa por cipós que se fecharam em torno dos pulsos, panturrilha e cintura com força firme e nada gentil.

— Mas que merda é essa?! — gritou a nova prisioneira.

Verbena sorriu, mãos na cintura, vitoriosa. Aqueles caules, embora cheios de espinhos, eram Suculentas Solaris: uma espécie de ambientes áridos capaz de armazenar líquido em todos os níveis: células, caule, tronco e seiva. Perdem água, sim… muito lentamente, e uma drenagem feita por alguém mediano ou desleixado não serve de porcaria nenhuma.

Tinha um estoque cheinho delas em casa, porque, nunca se sabe, fadas das marés são imprevisíveis. Também guardava algumas defesas contra trovadores: mandrágoras fresquinhas capazes de estourar o tímpano de qualquer um.

Bom… voltemos ao foco.

— Acho que você entendeu errado, querida… — Verbena cruzou os braços. Atrás dela, surgiram mais duas espécies, uma delas carnívora, de proporções grotescas, abrindo e fechando uma boca cheia de dentes e seiva. — Estávamos fingindo e…

— Se aquilo era fingimento, eu sou um troll com uma imensa verruga no nariz… — Lissandra rosnou.

— Eu deixei alguém além de mim falar?

— Não, mas a verdade precisa ser dita… Ai! Ei, garota! Vamos com calma!

Os cipós apertaram mais, travando os pulsos de Lissandra até que os dedos mal conseguiam se mover. A respiração dela ficou curta, acompanhando a respiração sofrida.

— Sou pragmática — disse Verbena. — Vamos falar sobre Priscilla.

— Quem? Ai… merda! — Lissandra tentou se soltar, sem sucesso. — Eu não sei quem é essa mulher, inferno!

— Sabe, sim. Yvoan, conhece?

— O rei? O que tem?

Lá embaixo, gritos ecoavam mais altos do que deveriam para uma simples briga de taverna. Algo havia começado de verdade. Verbena engoliu em seco por um instante.

Fendrel… estava… tudo bem?

— Um serviço que ele te mandou fazer. Uma mulher. Baixinha, cabelos loiros, trovadora do reino. Quero o nome da sereia… e onde roubaram a voz.

— Garota, sinto informar… — Lissandra inclinou a cabeça, mesmo em desvantagem ainda conseguia esbanjar desdém. — Você está com o irmão errado para essa informação. Eu não estava lá. Para não dizer que não sei nada, vagamente me lembro de um nome no mapa: "Velmti“? Velmentn”?. Deve ser isso.

— Como é? Pela deusa!— Verbena levou as mãos à cabeça. — É mentira!

— Acha que é? Diga, melhor amiga do maior mentiroso canalha do mundo das fadas. Estou mentindo?

— Fendrel não é mentiroso. Pode ser um grande galinha, mas ele tem princi…

— Ah, que gracinha. Mais uma presa na rede.

— Rede?

— Engraçado como o ciclo se repete… — O sorriso de Lissandra se alargou ao notar os cipós afrouxando alguns centímetros. A sombra da dúvida vacilava nos limites da magia. — “Ele tem princípios”, né? Já ouvi isso antes de uma pessoa muito querida. Mas deixa eu te contar um segredinho… Nahme devia ter aprendido a traduzir os silêncios. Você ainda tem esperança, é bonitinha, poderia arranjar alguém melhor, a menos que… — a risada deu voz ao escárnio completo — Que catástrofe! Meu bem, a deusa uniu vocês dois? Típico: unir um sem noção a uma sargentona pra ver se o coloca no lugar. Amor? Idiotice, as decisões dela são pura conveniência. Pensa comigo, quantos filhos incríveis não sairiam disso? Uma fada jardineira estupidamente poderosa e o mestre dos bardos.

— Espera! Tempo! — a moça levou as mãos às têmporas —Quem diabos é…

A porta explodiu na direção das duas. Verbena desviou, apoiando-se na planta carnívora que, sem demora, avançou sobre o novo oponente: o segundo irmão Twin. De proporções imensas, braços certamente capazes de esmagar sua cabeça em segundos e que, com facilidade, seguraram a boca esfomeada da planta, dobrando o caule e atirando-o contra uma parede.

Verbena fez brotar mais sementes, uma atrás da outra, e perdeu a conta. Todas eram estraçalhadas pela muralha que a seguia por todos os cantos do recinto.

Aquele doido nem precisava drená-las!

Nem os móveis tiveram qualquer sinal de clemência. Num impulso de sobrevivência, veio uma ideia. Duas samambaias cresceram em direção ao teto, amarraram-se às tábuas e esperaram o sinal. Ela correu na direção da janela, mas, antes que pudesse se pendurar, o inimigo agarrou seu tornozelo. Alguns ramos tentavam proteger a dona, se emaranhando nos bíceps e pernas do perigo eminente.

— Me larga!

Inferno! Nem mesmo o enlace no pescoço parava o sujeito!

Resistiu, segurou as tábuas de madeira com toda a força que ainda lhe restava. O que fazer agora?

— Ei! Grandalhão! De joelhos!

A voz de canário surgir em seu socorro. Numa parede ao lado, a sombra de Fendrel e a do irmão Twin estavam unidas. O inimigo obedeceu sem questionar, os olhos vidrados, perdidos sabe-se lá onde. Quando Verbena se viu livre do aperto, finalmente conseguiu executar o plano. Empurrou o homem para trás e ordenou que os ramos derrubassem boa parte do sótão em cima dele.

— Michael! — Lissandra se debatia aos berros. — Seus malucos! Doentes! Peões da deusa!

Antes que pudesse retrucar, Fendrel a puxou para saírem pelo parapeito. Deixaram para trás aquela bagunça, se esgueirando pelas beiras do casarão que formava a taverna para conseguirem chegar ao telhado.

Uma vez atingido o objetivo de segurança, pararam ofegantes. A brisa fria da noite resvalava no suor tenso dos últimos instantes. Mas Verbena só conseguiu pensar em uma coisa.

— Fen, eu falhei. A Lissandra, aquela cobra desgraçada não disse nada, ela…

Fendrel a trouxe de encontro ao peito com tanta força que o ar escapou dos pulmões e as palavras morreram num suspiro miudinho. Aquele abraço tinha urgência, como se ele precisasse confirmar, pelo simples toque, que ela ainda estava inteira. As mãos de Verbena ficaram suspensas por um instante, sem saber onde pousar. Depois, devagar, seguraram as costas dele sobre a capa.

Só então a consciência deu vazão à situação completa. Com o coração do trovador batendo tão descompassado quanto o seu… percebeu que ele poderia ter… ela poderia ter…

Pela deusa!

Uma pontada firme no tornozelo a trouxe de volta ao corpo. Quase desabou, mas Fendrel a amparou rápido pela cintura , sustentando seu peso com um cuidado tão urgente quanto o abraço de segundos antes.

— Tudo bem, Vêr?

— Uhum… — inspirou fundo, agarrando as vestes dele, os nós dos dedos preenchidos pelo tecido esmagado, contrariando tudo o que dizia. — E-estava com tudo sob controle, mas… eu… eu agradeço a ajuda.

Curioso... no afã do momento, na ânsia de manter a compostura, Verbena só conseguia pensar na possibilidade de nunca mais sentir o cheiro de flor de laranjeira que sempre caminhava com o trovador. Nada de família, de mãe, de irmãozinho mais novo pirralho querido Lian, da melhor amiga Mareen, do melhor amigo Kollin, muito menos de sua planta de estimação Winky.

Só ele…

É...precisava parar de pensar essas coisas ou, quem sabe, começar a ouvir de verdade.

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