Capitulo 27: Operação Chamego
Os tímpanos de Verbena chiaram por alguns instantes enquanto Fendrel a conduzia para fora da taverna. O reino de Higmong era um dos mais antigos de Calindor, erguido por elfos em mármore branco, riscado por veios acinzentados que se elevavam em colunas e desenhavam os contornos das ruas. Eles pararam em uma delas, nem tão perto nem tão longe do estabelecimento barulhento.
A situação estava, no mínimo, confusa. Era essa a melhor palavra? A moça não saberia dizer. O fato é que o coração batia contra as costelas por causa da suposta confissão minutos antes.
Deveria dizer o quê? Que gostava dele também? Mas… gostava mesmo? Será?
Outra surpresa, porém, a incomodava. E, claro… foi sobre ela que decidiu falar.
— O irmão galinha… é uma mulher?
Ela se encostou na pedra fria enquanto Fendrel se aproximava.
— Que preconceito… — murmurou, apoiando o antebraço no muro atrás dela. — Só homens podem ser canalhas agora?
— Pois é… — ela coçou a cabeça, atônita. — Estou em choque. E por que exatamente estamos aqui fora?
Com o polegar, ele afastou levemente os lábios da fada jardinejra, tocando a linha do maxilar.
— Talvez eu queira merecer suas súplicas atrás de uma pilastra no jardim.
Verbena reagiu sem pensar. O braço se ergueu rápido, pronta para acertá-lo, mas Fendrel segurou, sem muito esforço, o pulso agressor a centímetros do próprio rosto.
— Calma, é brincadeira — disse, soltando-a. — Ao contrário do que você disse ao Yvoan, não cheguei a praticar nada em público. — Inclinou a cabeça, pensativo. — Pelo menos, não sóbrio. Mas… Lisandra precisa acreditar que existe algo acontecendo. — Os olhos indicaram um canto próximo. — E a sem-vergonha voyeur já está por aqui. Qual o problema dessa gente?
Da taverna explodiam vozes alteradas, eufóricas. Pelo tom da algazarra, alguém estava roubando outro alguém em um jogo de cartas troianas. O estalo de vidro contra o chão ecoou viela afora, espalhando-se pelas esquinas desertas, onde apenas a brisa fria assoviava, raspando nos tornozelos de alguns amantes e curiosos que já haviam passado da hora de dormir.
— Espera aí — a ficha da moça demorou uma eternidade para cair —… você quer fingir que… nós… bom, isso é meio difícil, porque… porque… — ela friccionou as palmas nos braços, tentando acalmar os nervos ao mesmo tempo em que a mente desesperada inventava qualquer assunto alternativo e, no fim, só encontrou uma provocação. — Você é um pouco alto demais pra mim, como vamos…
Fendrel não pareceu se importar com o suposto obstáculo recém-instaurado. Pelo contrário: inclinou-se o suficiente para encurtar mais a distância. Ergueu a sobrancelha, astuto, como se estivesse prestes a provar um ponto.
E provou.
As mãos deslizaram em direção à parte de trás das coxas dela, erguendo-a em um movimento rápido. Verbena tapou a boca para abafar o grito. Instintivamente, laçou a cintura do trovador com as pernas, ficando presa entre ele e a parede.
— Melhor assim, polegarzinha? — murmurou, roçando o nariz no dela.
— Enlouqueceu, Fendrel? Eles vão achar que… — interrompeu a própria frase, desistindo no meio do protesto. A testa caiu contra o peito do trovador. — Ah, deixa… a ideia é essa mesmo. Qual o próximo passo?
Era só encenação… então tudo bem… né?…
Né?
— Bom, Lisandra não pode ver muita coisa. Vamos ter que fazê-la ouvir.
— Ouvir!? Não, impossível. Não sei fazer isso.
O trovador afastou o rosto o suficiente para encará-la, piscando, confuso.
— Como assim, não sabe? Você é do tipo quietinha? Depois de botar o Yvozinho na linha, entendi que era mais experiente …
— Não… pela deusa, que conversa esquisita — resmungou ela, com a vergonha subindo pelas orelhas. — Eu travo, tá? É diferente. Você é meu melhor amigo. Se eu abrir a boca, vai sair o barulho de uma porta rangendo ou vou começar a rir.
O inferno do termo “amigo” chegou à consciência masculina na forma de um soco agridoce, amargando até o estômago. Ao menos a insatisfação serviu para alavancar a próxima jogada:
— Tá, vou te ajudar, então.
— Como assim? Ei! Fendrel!
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, mordeu de leve o queixo dela e desceu até o pescoço. Os estímulos começaram lentos, aquecendo a região, alternando lábios e dentes com uma precisão beirando o diabólico.
Aquilo não era nem de longe um pálido reflexo do que o trovador sabia fazer. Mas os arrepios em ondas que se apossaram dela premeditaram a fama do melhor amigo.
Como de costume, o desespero em ceder a fez tentar puxar conversa:
— Fen…
— Diga. Estou ouvindo…
O sussurro morno contra a clavícula a fez prender a respiração. Mesmo assim, procurou forças do absoluto nada para persistir:
— O que você quis dizer lá no…
Fendrel subiu um pouco, mordiscando a pele abaixo da orelha. E foi de imediato recompensado com um ruído prazeroso que escapou dos lábios dela sem permissão, vindo do fundo da garganta.
O problema… é que ele decidiu que queria ouvir mais uma vez.
— Aí, viu? Não foi tão difícil.
Naquela época do ano, as noites em Callindor eram conhecidas pela temperatura fria embora de certa forma aconchegante do outono. Mas ali, mesmo com o mármore gelado cutucando as costas da fada jardineira, o calor entre eles lembrava o de uma fornalha.
O que queria perguntar mesmo?
O trovador voltou ao trabalho minucioso, completamente focado em descobrir os limites da provocação. E Verbena, sem saber o que fazer com as mãos, deixou que vagassem. Primeiro, em direção às mechas dele. Seria difícil admitir para si mesma, mas sempre se perguntara qual a textura daqueles fios.
Felizmente, a curiosidade foi sanada: eram macios e agora se enrolavam fazendo cócegas nos dedos . Uma ideia travessa a fez puxá-los — num movimento pequeno, apenas um teste — e Fendrel gemeu baixo, perto de seu ouvido.
Ela mordeu o lábio em resposta, tentando conter o pensamento indecente de dominá-lo.
Verbena! Que ideia maluca foi essa? Se controla!
Verdade seja dita, gostou não só da reação, mas dos rosnados suaves que pareciam incentivá-la a continuar. Desceu para a nuca, até o início da coluna. Fendrel apertou sua cintura com força.
Espera… não deveriam parar? Não deviam…deviam…devia o quê mesmo?
Apesar do breve lampejo de lucidez, o toque seguiu adiante, com vontade própria. Suas unhas percorreram a costura da capa, infiltraram-se pelas bordas da camisa de algodão e deslizaram pelos contornos do corpo dele, sentindo os músculos reagirem com pequenos espasmos a cada avanço.
Explorava os braços do trovador quando uma mordida mais forte próxima ao ombro direito a fez hiper reagir, apertando o tecido da camisa e arranhando de leve a região.
No segundo seguinte, a respiração de Fendrel falhou e seu progresso ousado teve um fim abrupto.
— Fen? Está tudo bem?
— Aham… é que… — as frases vacilavam, como se tivesse bebido pelo menos dez canecas de cerveja. Ele fez uma pausa muito longa e inspirou fundo, pigarreando para recuperar a voz e o próprio juízo. — O que...o que você queria perguntar antes ?
— Lá no salão… o que você quis dizer?
— Me diz você: o que acha que eu quis dizer? — Ele sustentou o olhar dela; os rostos estavam vermelhos e os pulmões falhavam miseravelmente em controlar o descompasso ofegante. — Depois disso aqui, prefere continuar fingindo que não entendeu?
Um silvo de sabiá chegou para dar fim ao momento. Aquele era o sinal de Weisen e indicava que o segundo irmão Twin já estava ocupado ou estrategicamente preso em algum quartinho escuro. Lisandra, por consequência, virou um alvo perfeito e solitário.
— Conversamos mais tarde — ele a ajudou a voltar ao chão, afastou-se, abriu os braços em pose debochada e fez uma mínima reverência. — É hora de fazer um escândalo e me chamar de canalha o quanto quiser. Não economize nos palavrões. Se existe raiva, aproveite para colocar para fora.