Capitulo 20: Corrida Interdimensional
— Muito bem! Seus pertences foram liberados na inspeção — disse uma fada jovem, com dois enormes óculos redondos pesando no nariz, enquanto marcava alguns itens numa prancheta de madeira flutuante. — Requerente: Weisen Azvir, motivo desconhecido, aventureiros: Fendrel e Verbena Azvir.
— Auralis… — corrigiu a moça ao mesmo tempo em que prendia os cabelos azuis num rabo de cavalo estupidamente alto.—Verbena Auralis
— Uau… meu sobrenome é tão feio assim?
Ela encarou o amigo, que conferia despreocupado os pertences dentro da bolsa.
— Nunca disse que pegaria seu sobrenome. A deusa pode ter nos unido, mas meu nome vai continuar desse jeito.
Fendrel ancorou a mochila nas costas e ajustou uma longa capa de couro no pescoço, sendo observado pelo semblante curioso da sua companheira. Desde quando ele usava capas daquele tamanho? Cobrindo toda a parte das costas?
Bom… faziam anos que não iam juntos em missão. Já não sabia mais suas preferências. Depois perguntaria isso a Kollin, ou até a Seryin. Na verdade, essa última talvez não fosse uma boa ideia… nunca tivera uma conversa de mais de dois minutos com a senhorita dos cachinhos prateados.
— Eu concordo… — o trovador enfim quebrou o silêncio com uma piscadela atrevida. — Seu sobrenome é lindo demais pra ser esquecido.
Verbena pensou em um milhão de xingamentos para abafar a vergonha que, por alguns milésimos de segundos torturantes, deixou suas pernas bambas. Pra quê um comentário daqueles vindo do absoluto nada?
Fendrel estava estranho… muito estranho!
Pior que…ainda precisava conversar sobre aquele acontecimento da clareira, senão tinha certea que explodiria de estresse. O que o homem quis dizer? Que gostava dela? E, em caso positivo, o que deveria fazer com isso? Gostava também?
Ai… que inferno!
— Alô, pombinhos? Vamos voltar aqui? Obrigada…
Alguns metros atrás da inspetora, outra fada, munida de um grande cajado mágico, orquestrava a movimentação de algumas árvores. Elas se retorciam, e o orifício que seus caules formavam criava um portal que borbulhava feito um caldeirão fervendo, mudando de cor sempre que uma folha ou galho tateava a superfície ondulando o frágil tecido entre dimensões.
— Última conferência… os amuletos de proteção. Escolheram?
Verbena ergueu o braço e mostrou uma pedrinha azul em sua pulseira.
— Kollin.
Fendrel fez o mesmo, mas mostrou uma pedra escarlate que segurava sua capa.
— Madame Calíope.
— Está de sacanagem, Fen? Sua avó?
— A outra opção era a Seryin — ele deu de ombros — se eu a chamasse numa emergência acho que ela decidiria assistir à minha ruína de camarote. Nem julgo…
— Que os deuses permitam que essa missão não exija chamá-la.
O bardo riu.
— Sabe, a vovó não te odeia tanto quanto você imagina.
— Problema dela.
— Desculpe te decepcionar Vêr, mas, embora eu pareça bem sociável, não existem muitos em quem confio de verdade. Meus pais se foram antes que eu pudesse criar lembranças suficientes, então minha família sempre foi você e o Kollin. Com ou sem a deusa.
Aquilo acertou em cheio a fada jardineira, que desviou o olhar, arrependida do que disse. Fendrel nunca falava sobre seus pais. Quando a tragédia aconteceu, as histórias correram soltas, cada uma pior que a outra, mas ninguém da família Azvir confirmava nada. De qualquer forma, nem restavam muitos com aquele sobrenome para comentar sobre isso: alguns primos, Madame Calíope e...
— Weisen ficaria chateado de não ter o nome dele na sua lista.
A moça tentou quebrar o clima desconfortável que, aparentemente, só ela sentia, pois o trovador apenas abanou o ar em resposta brincalhona.
— Esse aí veio de brinde na minha vida. Ou talvez eu que vim de brinde… sendo o mais novo. Amo aquele cara, mas o destino, na forma de uma humana muito espirituosa, levou ele embora. Não o culpo. Gostei muito dela. Fazia piadas tão idiotas quanto ele… mas, por algum motivo, eu ria de todas.
Verbena respondeu com um sorriso meio torto só para não contrariar. Sua intuição sobre as máscaras do amigo nunca falhara. Fendrel ficou muito abalado com a partida do irmão, embora nunca admitisse. E foi mais ou menos na mesma época que o rapaz se afastou dela e de Kollin.
Nunca soube exatamente por quê. Também não procurou entender. Tinha suas próprias questões…Mesmo assim, deveria ter insistido. Deveria ter ficado. Apesar do caos, do novo posto de Fen como mestre dos bardos, das explosões de Calíope ouvidas por todos os arvoredos de Alféria…
Inclusive, é provável que sua própria covardia em revelar o que aconteceu entre ela e Kollin os tenha afastado ainda mais.
Definitivamente, falhou como melhor amiga.
— Ei! Vêr, decidiu ser uma perdedora?
— O quê?
— Vamos apostar? — ele apontou para o portal — Velhos tempos ou prefere a corda?
As outras duas fadas que organizaram a partida aguardavam a decisão, dando alguns passos precavidos para o lado, liberando caminho. De imediato, Verbena decidiu abandonar aqueles pensamentos incômodos e com um aceno afirmativo os dois se prepararam.
— No três — respondeu, e Fendrel concordou. — Um… dois…
Porém, antes de terminar, a jovem já tinha disparado, com sonoras gargalhadas, na frente dele.
— Ah! Se acha esperta, né?
O trovador assobiou, e sombras serpentearam para segurar o pé da moça por segundos suficientes, dando certa vantagem. Assim que se recuperou, Verbena tentou fazê-lo tropeçar, ordenando que algumas raízes brotassem do chão para se enrolarem nos calcanhares do amigo. E surpreendendo absolutamente ninguém, o maldito era um dançarino nato. Seus passos astutos pareciam pisar em nuvens, nenhum caule sequer encostou nele.
Então a fada jardineira decidiu envolver as botas em grama viva e, ao seu comando, a terra a impulsionou para frente. Uma versão autoral de um apetrecho muito curioso que viu em certa dimensão, chamada “patins”.
Eles atravessaram o portal praticamente juntos, rindo com uma despreocupação infantil. Podia existir um caos de sentimentos emergindo ali, mas a cumplicidade da amizade não desapareceria por questões tão idiotas. Depois da competição acalorada e cheia de entrelinhas emocionais, na floresta restaram apenas as duas fadas auxiliares, que se entreolharam, cúmplices. A primeira fez a prancheta sumir no ar ao bater as palmas, e a outra colidiu três vezes o cajado na relva, uma ordem irrevogável para que o portal desaparecesse.
Juntas, murmuraram:
— A deusa sempre tem razão.