A Servidão Voluntária: Bloco 1
> De ter vários senhores não vejo bem algum, > que um só seja o mestre, e que um só seja rei[37].
Assim dizia Ulisses em Homero, falando em público. Se nada mais tivesse dito além de “De ter vários senhores não vejo bem algum”, teria falado tão bem que nada mais seria preciso. Entretanto, para raciocinar, cumpria dizer que a dominação de muitos não podia ser boa porque o poder de um só, desde que toma o título de mestre, é duro e desarrazoado, ele foi acrescentar, inteiramente ao contrário, “que um só seja o mestre, e que um só seja rei”. Talvez seja preciso desculpar Ulisses, para quem, naquele momento, podia ser necessário usar essa linguagem a fim de apaziguar a revolta do exército, conformando seu propósito, creio eu, mais ao tempo do que à verdade. Falando com seriedade, porém, é extremo infortúnio estar sujeito a um mestre de quem jamais se pode assegurar que seja bom, pois está sempre em seu poder ser mau quando quiser, e ter muitos mestres é ser tantas vezes extremamente infeliz quantos mestres se tem. Não quero, por esta hora, debater essa questão tão remexida, se as outras formas de república são melhores que a monarquia[38], ainda assim, antes de pôr em dúvida qual lugar a monarquia deve ter entre as repúblicas, eu desejaria saber se nela deve haver algum, porque é difícil crer que exista algo público nesse governo em que tudo pertence a um só. Essa questão fica reservada para outro tempo e pediria bem seu tratado à parte, ou antes traria consigo todas as disputas políticas.
[37] Homero, _Ilíada_, livro 2, versos 204 e 205.
[38] Ver, sobre essa questão, Heródoto, III, 80-84, Políbio, VI, 3, Plutarco, _Governos comparados_. Nota de L. Feugère.
Desta vez, eu não desejaria senão entender como pode acontecer que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações suportem às vezes um tirano só, que não tem poder senão aquele que lhe dão, que não tem poder de lhes fazer dano senão enquanto eles têm vontade de suportá-lo, que não saberia fazer-lhes mal algum senão quando preferem sofrê-lo a contradizê-lo. Grande coisa, certamente, e todavia tão comum que é preciso doer-se tanto mais e espantar-se menos ao ver um milhão de homens servir miseravelmente, com o pescoço sob o jugo, sem estarem constrangidos por força maior, antes de algum modo[39], ao que parece, encantados e enfeitiçados apenas pelo nome de UM, de quem não devem temer o poder, pois é sozinho, nem amar as qualidades, pois é para com eles[40] inumano e selvagem. A fraqueza entre nós homens é tal que muitas vezes é preciso obedecer à força, é preciso ganhar tempo, nem sempre podemos ser os mais fortes. Portanto, se uma nação é constrangida pela força da guerra a servir a um só, como a cidade de Atenas aos trinta tiranos, convém lamentar o acidente de sua servidão, ou antes suportar o mal pacientemente, reservando-se para o futuro melhor fortuna.
[39] Em certa medida.
[40] A respeito deles.