A Servidão Voluntária: Bloco 7
Na verdade, é coisa vã debater se a liberdade é natural[62], pois não se pode manter alguém em servidão sem lhe fazer agravo, e nada há no mundo tão contrário à natureza, sendo ela toda razoável, quanto a injúria. Resta, pois, que a liberdade seja natural, e, pelo mesmo caminho, a meu ver, que nascemos já na posse de nossa franqueza e também com afeição para defendê-la. Ora, se porventura temos alguma dúvida nisso, e estamos tão degenerados que já não podemos reconhecer nossos bens nem, semelhantemente, nossas afeições nativas, será preciso que eu vos faça a honra que vos pertence e que eu faça subir, por assim dizer, os animais brutos à cátedra, para vos ensinar vossa natureza e condição. Os animais, valha-me Deus, se os homens não se fazem surdos demais, gritam-lhes: VIVA LIBERDADE. Há muitos entre eles que morrem tão logo são presos: como o peixe deixa a vida tão logo deixa a água, assim também esses deixam a luz e não querem sobreviver à sua franqueza natural. Se os animais tivessem entre si algumas preeminências, fariam disso a sua nobreza[63]. Os outros, dos maiores até os menores, quando são tomados, fazem tão grande resistência de unhas, cornos, bico e pés, que declaram bastante quanto prezam aquilo que perdem, depois, uma vez presos, dão-nos tantos sinais aparentes do conhecimento que têm de sua infelicidade, que é belo ver que daí em diante[64] aquilo é para eles mais languir que viver, e que continuam a vida mais para lamentar o bem-estar perdido do que para se comprazer em servidão.
Que quer dizer outra coisa o elefante que, tendo-se defendido até não poder mais, já sem ver meio algum, estando a ponto de ser tomado, afunda as mandíbulas e quebra os dentes contra as árvores, senão que o grande desejo que tem de permanecer livre, tal como é, lhe dá entendimento e o aconselha a negociar com os caçadores se, pelo preço de seus dentes, será quitado, e se será recebido a entregar seu marfim e pagar esse resgate por sua liberdade? Acostumamos o cavalo desde que nasce, para domesticá-lo ao serviço, e, contudo, não sabemos afagá-lo tão bem que, quando chega o momento de domá-lo, ele deixe de morder o freio e de dar coices contra a espora, como, ao que parece, para mostrar à natureza, e testemunhar ao menos por aí, que serve por nossa força, sem inclinação de sua vontade. Que se deve dizer, então?
> Mesmo os bois sob o peso do jugo gemem, > E os pássaros na gaiola se queixam,
como eu disse outrora, passando o tempo em nossas rimas francesas, pois não temerei, escrevendo a ti, ó Longa[67], misturar alguns de meus versos, os quais nunca te leio[68] sem que, pela aparência que fazes de te contentares com eles, não me deixes todo glorioso. Assim, pois, uma vez que todas as coisas que têm sentimento, desde que o têm, sentem o mal da sujeição e correm atrás da liberdade, uma vez que os animais, que ainda são feitos para o serviço do homem, só conseguem acostumar-se a servir com protesto de um desejo contrário: que mau encontro foi esse que pôde desnaturar tanto o homem, único nascido, em verdade, para viver francamente, e fazê-lo perder a lembrança de seu primeiro ser e o desejo de retomá-lo?
[62] “O principado é de natureza e de justiça de Deus”, nota atribuída a Henri de Mesmes.
[63] A nota da edição observa que, em La Boétie, essa perda da vida ao perder a liberdade constitui uma espécie de nobreza natural.
[64] Doravante.
[65] Montaigne emprega o termo em outro contexto, no sentido de amansar ou agradar.
[66] Muitos editores trouxeram variante para este verso sobre o jugo.
[67] Bertrand de Larmandie, barão de Longa.
[68] Os editores registram variante na frase sobre a leitura dos versos.