A Servidão Voluntária: Bloco 5
Os audazes, para adquirir o bem que pedem, não temem o perigo, os prudentes não recusam a pena: os covardes e entorpecidos não sabem suportar o mal nem recobrar o bem, detêm-se em desejá-lo, e a virtude de pretender alcançá-lo lhes é tirada por sua covardia, embora o desejo de possuí-lo lhes fique pela natureza. Esse desejo, essa vontade, é comum aos sábios e aos imprudentes, aos corajosos e aos covardes, quando se trata de desejar todas as coisas que, adquiridas, os fariam felizes e contentes. Há uma só coisa a dizer, na qual não sei de que modo a natureza falta[52] aos homens para desejá-la: é a liberdade, que é, contudo, um bem tão grande e tão agradável que, perdida ela, todos os males vêm em fila, e os próprios bens que depois dela permanecem perdem inteiramente o gosto e o sabor, corrompidos pela servidão. Somente a liberdade os homens não desejam, ao que parece por nenhuma outra razão senão esta: se a desejassem, a teriam, como se recusassem fazer tão bela aquisição só porque é fácil demais.
Pobres e miseráveis, povos insensatos, nações obstinadas em vosso mal e cegas em vosso bem, vós vos deixais levar diante dos olhos o mais belo e o mais claro de vossa renda, pilhar vossos campos, roubar vossas casas e despojá-las dos móveis antigos e paternos. Viveis de tal sorte que não vos podeis gabar de que coisa alguma seja vossa, e pareceria que, de hoje em diante, seria grande fortuna terdes por arrendamento[53] vossos bens, vossas famílias e vossas vidas[54]. Todo esse estrago, essa desgraça, essa ruína, nasce do inimigo, sim, daquele a quem vós mesmos fazeis tão grande quanto ele é, inimigos de fora não são sua causa. Por ele ides tão corajosamente à guerra, pela grandeza dele não recusais apresentar vossas pessoas à morte. Aquele que tanto vos domina não tem senão dois olhos, não tem senão duas mãos, não tem senão um corpo, e não possui outra coisa além daquilo que tem o menor homem do grande e infinito número de vossas cidades, salvo o proveito que vós lhe dais para vos destruir. De onde tirou tantos olhos, com os quais vos espreita, se vós não lhos entregais? Como tem tantas mãos para vos ferir, se não as toma de vós? Os pés com que pisa vossas cidades, de onde os tem, se não são os vossos? Como tem algum poder sobre vós, senão por vós? Como ousaria correr contra vós se não tivesse conluio convosco? Que poderia fazer-vos, se não fôsseis receptadores do ladrão que vos pilha, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos? Vós semeais vossos frutos para que ele os devaste, mobiliáveis e encheis vossas casas para fornecer às suas pilhagens, criais vossas filhas para que ele tenha com que saciar sua luxúria, criais vossos filhos para que, pelo melhor que saiba fazer-lhes, ele os leve às suas guerras, os conduza ao matadouro, faça deles ministros de suas cobiças e executores de suas vinganças, quebrais vossos corpos no trabalho para que ele possa se mimar em suas delícias e se revolver nos prazeres sujos e vis, enfraqueceis a vós mesmos para torná-lo mais forte e mais duro, com a rédea mais curta sobre vós. De tantas indignidades, que os próprios animais ou não as sentiriam ou não as suportariam, podeis vos livrar se o experimentardes, e essa experiência nem exige que vos livreis por ato: exige somente que o queirais. Resolvei não servir mais, e eis-vos livres. Não quero que o empurreis nem que o abaleis, somente deixai de sustentá-lo, e o vereis, como um grande colosso a quem roubaram a base, por seu próprio peso cair abaixo e quebrar-se.
[52] Falta, faz falta, deixa de acudir.
[53] Ter por arrendamento, ou ter pela metade, conforme a nota da edição.
[54] O manuscrito traz “vidas”, a margem registra “cidades”.