A Servidão Voluntária: Bloco 21 Discurso da Servidão Voluntária: Tradução Literunico · Capítulo 21 de 28
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A Servidão Voluntária: Bloco 21

Mas agora chego a um ponto que, a meu ver, é a mola e o segredo da dominação, o sustento e fundamento da tirania. Quem pensa que alabardas, guardas e postos de vigia guardam os tiranos, a meu juízo se engana muito, e eles se servem disso, creio eu, mais por formalidade e espantalho do que por confiança que tenham nisso. Os arqueiros impedem de entrar no palácio os malvestidos[148], que não têm meio algum, enquanto os bem armados, capazes de alguma empresa, passam por outra ordem de perigo. Certamente, dos imperadores romanos é fácil contar que houve menos deles salvos de algum perigo pelo socorro de suas guardas do que mortos pelos próprios arqueiros. As bandas de gente a cavalo, as companhias de gente a pé e as armas não defendem o tirano, talvez custe crer nisso ao primeiro golpe, contudo é verdade. São sempre quatro ou cinco que mantêm o tirano, quatro ou cinco que lhe mantêm todo o país em servidão. Sempre houve cinco ou seis que tiveram o ouvido do tirano, aproximaram-se dele por si mesmos ou foram chamados por ele para serem cúmplices de suas crueldades, companheiros de seus prazeres, alcoviteiros de suas volúpias e participantes dos bens de suas pilhagens.

Esses seis ajustam[149] tão bem seu chefe que, pela sociedade, ele precisa ser mau pela própria maldade e ainda pela deles. Esses seis têm seiscentos que lucram sob eles e fazem de seus seiscentos aquilo que os seis fazem ao tirano. Esses seiscentos têm sob si seis mil, que elevaram em estado, aos quais fazem dar o governo das províncias ou o manejo dos dinheiros, a fim de que deem mão à sua avareza e crueldade, e a executem quando for tempo, e façam tantos males de outro lado que já não possam durar senão sob sua sombra, nem escapar, salvo por seu meio, das leis e da pena. Grande é a sequência que vem depois disso, e quem quiser se ocupar em desenrolar esse fio verá que, além dos seis mil, cem mil e milhões se prendem por essa corda ao tirano, servindo-se dela como, em Homero, Júpiter, que se gaba de, se puxar a corrente, trazer para si todos os deuses. Daí vinha o aumento do Senado sob[150] Júlio, o estabelecimento de novos estados, a ereção de ofícios, tudo isso, se se toma bem, era novo sustento da tirania, longe de ser reforma da justiça. Em suma, chega-se a tal ponto, pelas graças e subgraças, ganhos e reganhos que se tem com os tiranos, que ao fim se encontram quase tantas pessoas a quem a tirania parece proveitosa quanto aquelas a quem a liberdade seria agradável.

Assim como os médicos dizem que, em nosso corpo, se há alguma coisa estragada, desde que em outro lugar se mova algo[151], logo isso vai render-se à parte viciada, semelhantemente, desde que um rei se declarou tirano, todo o mau, toda a borra do reino, menos o bando de ladrõezinhos e gente de orelha cortada[152], que quase não podem, numa república, fazer bem nem mal, e mais aqueles manchados por ambição ardente e avareza notável, ajuntam-se em torno dele e o sustentam para ter parte no butim e ser, sob o grande tirano, pequenos tiranos eles mesmos. Assim fazem os grandes ladrões e os famosos corsários: uns correm o país, outros perseguem[153] os viajantes, uns ficam de emboscada, outros de vigia, outros massacram, outros despojam. E, embora haja entre eles preeminências, e uns sejam apenas criados, outros chefes da companhia, não há ao fim um só que não sinta, se não do butim principal, ao menos da busca. Diz-se bem que os piratas cilícios se juntaram em tão grande número que foi preciso enviar contra eles Pompeu, o Grande, e que atraíram à sua aliança várias belas vilas e grandes cidades, em cujos portos se punham em segurança quando voltavam das corridas, dando-lhes por recompensa algum proveito do receptamento de sua pilhagem.

[148] Os impressos trazem aqui variante que mudaria o sentido para “inábeis”.

[149] Isto é, instruem ou moldam o chefe.

[150] O aumento do Senado sob Júlio César.

[151] “Nada” aparece aqui no sentido de “alguma coisa”.

[152] Gente perdida de reputação, condenada a ter as orelhas cortadas.

[153] Perseguem os viajantes para despojá-los.

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