A Servidão Voluntária: Bloco 23 Discurso da Servidão Voluntária: Tradução Literunico · Capítulo 23 de 28
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A Servidão Voluntária: Bloco 23

Mas querem servir para ter bens, como se pudessem ganhar alguma coisa que fosse deles, quando nem podem dizer que pertencem a si mesmos, e, como se alguém pudesse ter algo próprio sob um tirano, querem fazer que os bens sejam seus. Esquecem que são eles que lhe dão a força para tirar tudo de todos e para nada deixar que se possa dizer pertencer a alguém. Veem que nada torna os homens sujeitos à sua crueldade como os bens, que crime algum diante dele é tão digno de morte quanto ter com que[156], que ele ama somente as riquezas e desfaz somente os ricos. E ainda vêm apresentar-se, como diante do açougueiro, tão cheios e refeitos que lhe fazem crescer o desejo.

Esses favoritos devem recordar menos aqueles que ganharam muitos bens ao redor dos tiranos e mais aqueles que, tendo juntado por algum tempo, depois perderam os bens e as vidas. Deve vir-lhes menos ao espírito quantos outros ganharam riquezas e mais quão poucos as conservaram. Percorram-se todas as histórias antigas, olhem-se as de nossa lembrança, e se verá plenamente quão grande é o número daqueles que, tendo ganhado por maus meios o ouvido dos príncipes, tendo empregado sua maldade ou abusado de sua simplicidade, foram ao fim aniquilados por esses mesmos príncipes, e tanta facilidade quanto encontraram ali para elevá-los, tanta inconstância conheceram depois para abatê-los. Certamente, em tão grande número de pessoas que já se encontraram perto de tantos maus reis, houve poucas, ou quase nenhuma, que não tenham experimentado em si mesmas, alguma vez, a crueldade do tirano que antes haviam atiçado contra os outros. O mais comum é que, tendo enriquecido sob a sombra de seu favor com os despojos alheios, acabem eles mesmos enriquecendo o tirano com seus próprios despojos.

[156] A nota aproxima a expressão do modo popular de dizer que alguém “tem com que”, isto é, possui bens.

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