A Servidão Voluntária: Bloco 22
Assim o tirano sujeita os súditos uns por meio dos outros, e é guardado por aqueles de quem, se valessem alguma coisa[154], deveria guardar-se, e, como se diz, para fender madeira ele faz as cunhas da própria madeira. Eis seus arqueiros, eis suas guardas, eis seus alabardeiros. Eles mesmos sofrem às vezes por causa dele, ainda assim, esses perdidos, abandonados por Deus e pelos homens, contentam-se em suportar o mal para fazê-lo, contra aqueles que suportam como eles e nada podem contra isso, em lugar daquele que lhes faz mal. Todavia, vendo essas gentes que servem baixamente[155] ao tirano para fazer seus negócios com a tirania dele e com a servidão do povo, muitas vezes me vem espanto por sua maldade, e algumas vezes piedade por sua tolice. Pois, a dizer a verdade, aproximar-se do tirano é outra coisa além de recuar para mais longe da própria liberdade e, por assim dizer, apertar com as duas mãos e abraçar a servidão? Que ponham um pouco de lado sua ambição, que se descarreguem um pouco de sua avareza, depois, que olhem para si mesmos e se reconheçam. Verão claramente que os aldeões, os camponeses, que eles pisam quanto podem e tratam pior que forçados ou escravos, esses, assim mal conduzidos, são, em comparação com eles, afortunados e de algum modo livres.
O lavrador e o artesão, por mais sujeitos que estejam, ficam quites fazendo aquilo que lhes mandam. O tirano vê os outros que estão perto dele, maltrapilhos de alma e mendigos de seu favor, a estes não basta fazer o que ele diz, é preciso pensar o que ele quer, e muitas vezes, para satisfazê-lo, antecipar ainda seus pensamentos. A eles não basta obedecer-lhe, é preciso ainda agradá-lo. É preciso que se arrebentem, que se atormentem, que se matem de trabalhar em seus assuntos, depois, que se alegrem com seu prazer, que deixem o próprio gosto pelo dele, que violentem sua compleição, que se despojem de seu natural. É preciso que prestem atenção a suas palavras, à sua voz, a seus sinais e a seus olhos, que não tenham olho, pé nem mão que não esteja todo em vigia para espiar suas vontades e descobrir seus pensamentos. Isso é viver feliz? Isso se chama viver? Há no mundo coisa menos suportável que isso, digo eu, para alguém que tenha o senso comum ou somente a face de homem, antes mesmo de falar em homem de coração ou bem-nascido? Que condição é mais miserável que viver assim, sem ter nada de seu, recebendo de outro seu bem-estar, sua liberdade, seu corpo e sua vida?
[154] A nota observa que o sentido talvez peça o singular, referindo-se ao tirano que deveria desconfiar deles se valesse algo.
[155] _Nacqueter_ vem do serviço baixo do ajudante no jogo de paume, e aqui significa servir de modo rebaixado.