A Servidão Voluntária: Bloco 4
É coisa estranha ouvir falar da valentia que a liberdade põe no coração daqueles que a defendem, contudo, aquilo que se faz em todos os países, por todos os homens, todos os dias, isto é, que um homem oprima[46] cem mil e os prive de sua liberdade, quem acreditaria, se apenas ouvisse contar e não o visse? Se isso se fizesse apenas em países estranhos e terras longínquas, e se apenas se dissesse que acontece, quem não pensaria que fosse antes fingido e inventado[47] do que verdadeiro? Esse único tirano dispensa combate, dispensa derrota[48], ele está desfeito por si mesmo, contanto que[49] o país deixe de consentir em sua servidão. Basta não lhe tirar nada, basta nada lhe dar, o país nem precisa se pôr em trabalho de fazer coisa alguma por si, desde que nada faça contra si. São, portanto, os próprios povos que se deixam, ou antes se fazem, devorar, cessando de servir, estariam livres disso. É o povo que se escraviza, que corta a própria garganta, que, podendo escolher entre ser servo e ser livre, abandona sua liberdade e toma o jugo, que consente em seu mal, ou antes o procura. Se lhe custasse alguma coisa recobrar a liberdade, eu não o pressionaria, embora o que deve o homem ter de mais caro que recolocar-se em seu direito natural e, por assim dizer, de animal voltar a ser homem? Ainda assim, eu nem desejo nele tão grande ousadia: permito-lhe que ame mais não sei que segurança de viver miseravelmente do que uma esperança duvidosa de viver à vontade. Que dizer? Se, para ter liberdade, basta desejá-la, se basta um simples querer, haverá no mundo nação que ainda a estime cara demais, podendo ganhá-la com um só desejo? Haverá quem poupe a vontade de recobrar o bem que deveria resgatar ao preço do sangue, bem cuja perda faz todos os homens de honra estimarem a vida desagradável e a morte salutar?
Certamente, como o fogo de uma pequena centelha se torna grande e sempre se reforça, quanto mais madeira encontra, mais pronto fica a queimá-la, e, sem que se ponha água para apagá-lo, apenas deixando de lhe pôr madeira, já sem ter o que consumir, consome-se a si mesmo, perde toda força[50] e deixa de ser fogo, semelhantemente, os tiranos, quanto mais pilham, mais exigem, mais arruínam e destroem, mais se lhes entrega, mais são servidos, tanto mais se fortalecem e se tornam sempre mais fortes e mais frescos para aniquilar e destruir tudo. Se nada se lhes entrega, se já não se lhes obedece, sem combater, sem ferir, ficam nus e derrotados, e já nada são, como a raiz que, sem seiva ou alimento, deixa o ramo seco e morto[51].
[46] Subjuga, oprime.
[47] Os impressos trazem _controuvé_, isto é, inventado.
[48] A edição observa que os impressos dizem, provavelmente por erro, “defender-se dele”.
[49] Contanto que.
[50] Os impressos dizem “sem forma”.
[51] A edição registra variante dos impressos sobre a imagem da raiz e do ramo seco.